Voltei a esquecer-me dos óculos para conduzir. Vejo tudo baço e acho que talvez nem seja dos globos oculares, mas do coração, que vem vindo a esquecer-se de amar, ultimamente. E também, ultimamente, nasceram-me tantos pelos pelo corpo, que pareço um macaco, como aqueles que se extinguem todos os dias e penso se me vissem nu o que achariam, pensariam: que besta ali vai, feia, agachada ao peso de tamanha imagem. Coincidência ou não, a verdade é que não me incomodo. Aliás, trocava cada pelo deste meu corpo embrutecido pelo retorno de cada espécie que, entretanto, se extinguiu desde o meu nascimento. Como se o facto de ter nascido tivesse contribuído para a extinção de tantas espécies, desde então. Que também sou homem e racional e dotado de tantas coisas, até de pelos, que dizem que nos distingue das outras espécies e, afinal, somos aquele único ser que se há-de levar à auto extinção, independentemente do quão ridículo isso possa parecer. Os peixes com escamas, os pássaros com penas, os automóveis com chassis e as florestas a perderem as folhas e as flores e os frutos, tudo porque são necessárias mais baterias de lítio e óleo de palma para as gorduras e doces que nos hão-de ser outro dos cancros desta sociedade moderna e tão incrivelmente consumista e ridícula, quando coloca na frente dos destinos das maiores nações os mais inacreditáveis líderes, que, ao pé de certos macacos, tanto teriam a aprender. A evolução (?) trouxe-nos até aqui. E nem veio de Uber. Ou, se calhar, sim. Trouxe-nos a este estado mais estúpido da humanidade, em que o Natal deixou de ser uma data celebrada em família, por volta dos finais do mês de Dezembro, para passar a ser uma comparação entre o que eu, logo ali em meados de Setembro, comprei para oferecer ou recebi desta ou daquela pessoa, tantas vezes por obrigação e sem qualquer outro sentido que o de mostrar que também posso ser um primor de ostentação, aos olhos dos que me queiram captar para posts ou stories, a publicar nas mais diversas redes sociais. Não admira que os estados depressivos sejam a cada ano tão mais significativos e fonte brutal de rendimento para aqueles outros que detém acções em banca das maiores e mais poderosas farmacêuticas. Sinais dos tempos, como os degelos, as tempestades, as inundações ou a quantidade de livros escritos pela prolífica Freida McFadden. Talvez por tudo isto, chegando a noite, fique a matutar se faz assim tanto sentido horas e horas de conversa sobre o estado do futebol nacional, pela voz e inteligência de painéis de criaturas reformadas dessa actividade, agora a encher chouriços a qualquer hora e em qualquer canal televisivo, a custo de orçamentos que dariam para amenizar as dificuldades de tantas associações culturais sem fins lucrativos.
Regresso à estrada e dou comigo sem os óculos para conduzir, que agora nesta idade me são impostos e me dão aquele ar de macaco todo aperaltado, quase inteligente, não fossem os impropérios que, num tão curto espaço de tempo, distribuo pelos ignóbeis e patéticos outros condutores que parece que conseguiram as respectivas licenças de condução num qualquer passatempo radiofónico a atirar para o pomposo. Somos muitos, somos demais. Em breve, nova pandemia há-de tratar de nivelar os números das populações e dotar este lixuoso planeta de espaço extra para os que consigam pagar os respectivos cuidados de saúde. Os outros, como este vosso macaco peludo, ficar-se-ão pela vã esperança de chegar-se ali à beirinha de um dos quatro cantos do mundo e atirar-se de cabeça para o espaço sideral, quem sabe se para ser recolhido por uma nave alienígena e levado para lá de Bagdad, onde, quiçá, possa recomeçar a sua vida por entre quem ache que tanto pelo no corpo seja uma virtude, vítima de causas naturais, e não um flagelo ditado pelos padrões de uma beleza já gasta e sem aparente razão de ser. LGBT e por aí adiante. Sensibilidades ao rubro. Tudo é um drama, tudo é discutível, tudo isto é o nosso fado. Esta é a era em que o que era, deixou de ser. Igualdade de direitos, punhos erguidos e aí daquele que se cale. É assim que hoje vale. Deixa-me é dormir sobre o assunto, que amanhã estou no turno da manhã e não me posso portal mal. Afinal, é de novo Natal e tenho fé. Mas se ela me faltar, tomo um café e não tarda estamos na Páscoa. Que das palhinhas à cruz é um tirinho e então por este caminho, vai lá, vai. Fui.
PS: Ano que vem volto. Mas também posso não. Vou pensar.
Agora só fica a faltar a vossa presença, algo que muito me encheria de alegria.
Quem quiser e puder aparecer nesta data, lá me encontrará a tentar dar o melhor num evento que, espero, seja, não do tamanho da minha altura mas sim, do tamanho dos meus sonhos.
“O que é natural e fica bem é cada um usar o cabelo com que nasceu”. Passava em pescadinha, naquela velha televisão. Um anúncio, também ele com alguma idade, sobre um restaurador capilar que, nas palavras do locutor, usado diariamente dava ao cabelo a sua cor primitiva. A humidade daquela mal iluminada cave não permitia que o odor pestilento se desvanecesse. Agrilhoados às paredes, quase lado a lado, múltiplos corpos em putrefação testemunhavam a publicidade enganosa daquele elixir capilar. Qual cor primitiva, se nem o cabelo lhes sustinha nas cabeças. Dezenas de embalagens vazias jaziam pelo chão imundo. O passar dos anos havia-as deteriorado e, numa combinação de todo improvável, transformado num ácido altamente corrosivo. Ele bem tentou provar que a promessa se mantinha válida. Mas a morte do produto haveria de levar a tantas outras. Fechou a pesada porta metálica com estrondo e saiu à rua. A luz do dia feriu-lhe a vista. Inspirou fundo e, frustrado, avançou pelo passeio deserto.
O estrondo foi evidente. Os olhares seguiram-no. Houve sobressaltos, os típicos sustos. Crianças pequenas correram assustadas na direção dos pais. Boquiabertas, algumas pessoas retraíram-se. Ninguém se mostrou indiferente ao alvoroço provocado. Na loja, a empregada prontamente pegou no frágil manequim e ergueu-o do chão. Colocou-o de volta à posição de sempre, a vertical. Com ele, erguera-se igualmente a dignidade momentaneamente perdida. Recompostas, as pessoas seguiram os seus destinos. Aquele incidente era já passado. A vida apelava à normalidade, ao regresso urgente desta e a esta. O manequim ali continuaria a sua missão. Vestido, despido, mas sempre em pé. De preferência.
Confronto-me com aquele ser na cruz e partilho da sua dor. Também eu fui brindado em vida com uma pesada cruz que arrastei a cada dia da minha existência e que tem sido presságio da minha morte anunciada. Também eu fui flagelado e milhentas chagas se me abriram em rios de sangue que verti em direcção ao imenso mar onde me vejo submergir a cada espaço de tempo. Não deveria haver permissão para tamanho sofrimento. À flor da pele ou profundo como o abismo em que nos deixamos cair, atraídos pela tentação, pela vida de ficção com que julgamos iludir a realidade. E esta não é a minha realidade. Fechado entre quatro paredes de um quarto nu, de tudo despojado. Agradeço a dádiva, a esperança em mim depositada, a ajuda que me foi dada sem nada exigir em troca senão a minha redenção, a minha abnegação à vida de pecado a que me submeti e que tem impregnado os meus dias. Lamento desapontá-los guardiões da fé, da crença num poder do além, mas essa promessa jamais a poderia cumprir. Pois não é esta a minha realidade. Sou animal selvagem e não admito cativeiro algum. Ninguém nem nada me priva da liberdade que me percorre as veias, que me permite respirar. Nem que isso signifique a morte. Pois também ela é libertação. A suprema libertação.
Excerto do projecto "Crónicas de Serathor", de Miguel Santos Teixeira.