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TUDO É ILUSÃO, DESDE O QUE PENSAMOS QUE PODEMOS AO QUE JULGAMOS QUE TEMOS.

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Ao retardador, final

por migalhas, em 14.02.24

de início, ferozes

as folhas da vida correm velozes

incentivadas pelo querer e tudo poder

galopam bravas a ânsia desmedida

 

a meio caminho travam o passo

não mais estugado, algo cansado

é hora de abrandar, de pensar

de entender a manta e descansar

 

depois adiante, ao retardador

esmorece a vontade, maior o dissabor

enorme o desejo em recuar

a tempos que se recusam a voltar

 

que o querer rejuvenescer paira a certa altura

entre a terra e o céu a que ascenderemos

corre no curso inverso que é o do tempo

nesse portento de força em contramão

 

que a vida é um fantoche sem jeito

que a reboque do tempo se espreguiça no seu leito

e nele se materializa

nele se realiza

nele se avista tão longe quanto o dia em que se precipita

ela que se julgava infinita

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira (2013)

na enormidade do que é EFÉMERO

por migalhas, em 06.02.24

capa_enormidade.png

Esta é a minha mais recente edição de autor. Um pequeno livro que reúne alguma da obra poética por mim produzida nos últimos anos, devidamente "ilustrada" por outra das áreas artísticas a que me dedico amiúde, a colagem.

Se pretender adquirir um exemplar desta peça de arte única e irrepetível, a mesma tem o custo de 10€ + portes de envio e pode encomendá-la directamente a mim em resposta a este post.

 

Dia Internacional do Riso

por migalhas, em 18.01.24

Sorrir é uma utopia

 

Sorrir é uma utopia

Sorrir de quê?

Lá piada, tem

Saber que agora estou, agora fui

E o que ficou?

Choros? Lágrimas?

Ou meio-sorrisos de idiotas chapados?

Riem-se de quê?

Olhem-se ao espelho e chorem

Chorem por serem o que são

Uns merdas que nunca dão a mão

Que fingem que sim, mas sempre não

Escarninhos, preconceituosos, mal-amanhados

De educação falhados

Uns tristes fados

 

Por isso chorem, que sorrir é uma farsa

Tal e qual o que criam, ou julgam alcançar

Que daqui seguem viagem

não um, mas todos

de mãos a abanar

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira (2023)

princípio, meio, casa partida

por migalhas, em 12.01.24

quantos degraus para chegar ao céu?

quantos passos para me eternizar?

que todos os dias novos rostos vejo passar

rostos que não me canso de decorar

feições que são cada lugar

cada passo que dei

porção de ar que respirei

grão de terra que calquei

quando ainda sonhava ser rei e poder reinar

e uma lembrança deixar

antes de tudo se desvanecer

sonhos, memórias, tanto querer

toda a vontade de ser

um pequeno reino onde tudo pudesse acontecer

sem prazo, limite ou validade

que ser humano é viver asfixiado por esta corda bamba

por este ábaco que nos inunda de idade

por essa areia fina que nos precipita a queda

nos afunila a vida

nessa ampulheta que nos é guarida

princípio, meio, casa partida

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira (2013)

por fim o dia

por migalhas, em 10.01.24

entrincheirada na noite

a luz olha por fim o dia

pelo olhar do sol que desponta a nascente

no mesmo horizonte em que se despe a poente

 

é cor, é vida, é calor

é pausa no escuro e na dor

fina linha que demarca o tempo

em raios que tudo trespassam sem temor

na força e num querer avassalador

 

pujantes, flamejantes, eles dançam

eles vibram numa vontade entretanto desperta

eles entoam o amanhã a cada nova aurora

na pequenez do abraço eterno

na enormidade do que é efémero

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira (2013)

acima de mim

por migalhas, em 08.01.24

olhei para cima e deparei com um manto de azul pintado

uma bola de amarelo rasgado

um ou outro farrapo branco navegando a contento do vento

fiquei parvo, abismado

que era aquilo que se estendia infindo acima de mim?

de que nunca me apercebera

será do olhar sempre cabisbaixo?

da gravidade que me cola os olhos ao chão

enterrados que sempre estão na ilusão

a cada passo procurada, ansiada?

 

olhei de novo e não tinham fugido

o manto de azul pintado

a bola de fogo amarelado

cada farrapo imaculado

 

tenho de o fazer mais vezes

de erguer a voz, o corpo, o olhar

de esses elementos enfrentar e com eles me entreter

jogar a vida nas suas mãos e deixar simplesmente acontecer

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira (2013)

deambulando

por migalhas, em 04.01.24

deambula o homem

deambulo eu com ele

olhos focados num finito perdido

na distância que não se vê

na distância que não se atinge

passos mecanizados, tantos assim como nós

buscam, nem sabem o quê

um sentido, um objectivo que os sintonize com cada dia

imersos neste imenso mundo que ninguém conhece por inteiro

enorme, medonho, tão belo, inalcançável

para os que deambulam desamparados

o homem e eu, como eles

castos de sentido, sem eira nem beira

à espera que a noite se faça dia e nesse o sol desponte em quanto esplendor

e naquele ténue horizonte o caminho aponte

que permita o regresso

a um ser, a um estar, que seja passaporte para dias de rasgados feitos

nem que sejam sempre iguais

nem que sejam imperfeitos

mas que sejam por algo mais que este deambular perdido

sem mais nada saber senão

que me movo, mas não avanço

que inspiro, mas não respiro

que olho, mas nada vejo

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira (2013)

no fim

por migalhas, em 02.01.24

acabo de morrer

deixei de olhar, de ver

o meu pénis entesa-se na perspectiva de me sobreviver

é dor, é prazer

num duelo de forças que não permite saber

quem sobrevive, quem no fim irá perecer

 

pesado ficou o ar

assim a terra, fogo e mar

deposta a derradeira vontade

num augúrio de imparável mortandade

coisa cortante, matéria nefasta

que a todos arrasta

a todos dilacera, nunca pela metade

sem credo ou idade

qual canto do cisne

capítulo final

assunto encerrado

pena capital

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira (2013)

novo velho

por migalhas, em 31.12.23

o ano, novo

só porque se lhe muda um algarismo

só por que se lhe acrescentam 366 dias

só por que assim o ouvimos dizer

 

a vida, nova

só por que segue adiante

só porque almeja a novas metas

só por que assim o desejamos

 

novo, nova

uma cama de ilusões

sob o peso destes cobertores

que já não aquecem, nem arrefecem

os olhares, ansiosos, os corações

as mãos que pedem em oração

a esperança que se lê nas resoluções

 

de novo, nada

mais do mesmo

a mudança, simulada

o ano, a vida

reposições estafadas

os pés andam, as pernas acompanham

a mente imagina

no mar são os remos, na terra os sapatos

mas aonde vamos?

 

Este que vem é bissexto

Mais um dia que acrescenta

Mais uma camada de coisa alguma

Numa rota saturada

De tudo, de nada

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira (2023)

Breve

por migalhas, em 27.12.23

Acordei e morri.

Nem um suspiro, um sussurro e faleci.

Um instante, uma efémera memória, foi tudo o que ficou de mim.

E a terra húmida a cobrir-me o corpo nu.

A ver-te partir, vida que nem vivi.

Olhos raiados, cegos, surdos e mudos de tudo aquilo que nunca vi.

Ali especados, incrédulos, a olharem o mundo como só eu o vi.

Que carrego tão leve é este, que nem o senti?

Foi por viver breve?

Que nada, nem ninguém.

Apenas o diabo que me leve.

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira (2013)