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TUDO É ILUSÃO, DESDE O QUE PENSAMOS QUE PODEMOS AO QUE JULGAMOS QUE TEMOS.

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contra tempo

por migalhas, em 20.02.24

no sepulcral cair da noite

no tumulto que se queda e finda

no silêncio que se apraz agradado

neste fim que aqui jaz agendado

até novo ciclo de tudo de novo

e de nada que se compadece

na orla de um céu que nunca entristece

jamais envelhece

apenas se ergue e deita

se acende e ofusca

na sequência que são os dias e as noites e o tempo

que corre lesto, na pressa de se fazer maior ainda

de tanto que já é e tem

que nem a memória nem ninguém

para lhe dizer basta

são horas, mas de te acalmares

de esse ímpeto furioso refreares e simplesmente apreciares o que são os teus filhos

minutos, segundos

escassas parcelas que de ti se perfizeram

mas que agora somente esperam

por um singelo momento de contemplação

de uma pausa na quietude destas planícies sem fim

onde parar não é morrer

onde tudo se remete à expiação

impassível face ao perdão

impossível

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira (2013)

a minha menina

por migalhas, em 16.02.24

és a minha pequenina, és a minha menina

és sonho feito realidade, és anos que somas à minha idade

marcas tu agora o tempo, és dia, és noite, és meu alento

estás aqui, estás ali, mas é neste peito que vives em permanência

neste desejo que é urgência

de te ver seguir adiante, confiante

orgulhoso de quem tu és

tanto, tudo e mais ainda

a minha menina, a minha pequenina

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira (2013)

Ao retardador – génese

por migalhas, em 12.02.24

Ao retardador

As folhas da vida assim avançam, embaladas pela brisa de final de tarde

Duas adiante, uma de quando em vez atrás a recuperar memórias quase perdidas

Sobre um pequeno banco, estrutura de madeira, assento de vide

Um breve e merecido repouso

Um recuo ao que foi

Em tempos que não voltam mais

Senão numa folha que volta atrás

A recuperar o que não quer ver esquecido

No curso inverso do tempo

Força em contramão

Num leito de águas revoltas

Fugaz deleite pousado naquele dente de leão

Que segue por que empurrado

Ele adiante, até que travado

No seu voar encantado

Qual vida que segue perplexa a reboque do tempo

E nele se materializa

Nele se realiza

Nele se avista ao longe

E um dia se precipita num regresso que jamais

Tarde demais

Tudo esquecido

Perdido

Ao retardador

Até que o fim

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira (2013)

na enormidade do que é EFÉMERO

por migalhas, em 06.02.24

capa_enormidade.png

Esta é a minha mais recente edição de autor. Um pequeno livro que reúne alguma da obra poética por mim produzida nos últimos anos, devidamente "ilustrada" por outra das áreas artísticas a que me dedico amiúde, a colagem.

Se pretender adquirir um exemplar desta peça de arte única e irrepetível, a mesma tem o custo de 10€ + portes de envio e pode encomendá-la directamente a mim em resposta a este post.

 

Dia Internacional do Riso

por migalhas, em 18.01.24

Sorrir é uma utopia

 

Sorrir é uma utopia

Sorrir de quê?

Lá piada, tem

Saber que agora estou, agora fui

E o que ficou?

Choros? Lágrimas?

Ou meio-sorrisos de idiotas chapados?

Riem-se de quê?

Olhem-se ao espelho e chorem

Chorem por serem o que são

Uns merdas que nunca dão a mão

Que fingem que sim, mas sempre não

Escarninhos, preconceituosos, mal-amanhados

De educação falhados

Uns tristes fados

 

Por isso chorem, que sorrir é uma farsa

Tal e qual o que criam, ou julgam alcançar

Que daqui seguem viagem

não um, mas todos

de mãos a abanar

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira (2023)

princípio, meio, casa partida

por migalhas, em 12.01.24

quantos degraus para chegar ao céu?

quantos passos para me eternizar?

que todos os dias novos rostos vejo passar

rostos que não me canso de decorar

feições que são cada lugar

cada passo que dei

porção de ar que respirei

grão de terra que calquei

quando ainda sonhava ser rei e poder reinar

e uma lembrança deixar

antes de tudo se desvanecer

sonhos, memórias, tanto querer

toda a vontade de ser

um pequeno reino onde tudo pudesse acontecer

sem prazo, limite ou validade

que ser humano é viver asfixiado por esta corda bamba

por este ábaco que nos inunda de idade

por essa areia fina que nos precipita a queda

nos afunila a vida

nessa ampulheta que nos é guarida

princípio, meio, casa partida

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira (2013)

por fim o dia

por migalhas, em 10.01.24

entrincheirada na noite

a luz olha por fim o dia

pelo olhar do sol que desponta a nascente

no mesmo horizonte em que se despe a poente

 

é cor, é vida, é calor

é pausa no escuro e na dor

fina linha que demarca o tempo

em raios que tudo trespassam sem temor

na força e num querer avassalador

 

pujantes, flamejantes, eles dançam

eles vibram numa vontade entretanto desperta

eles entoam o amanhã a cada nova aurora

na pequenez do abraço eterno

na enormidade do que é efémero

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira (2013)

acima de mim

por migalhas, em 08.01.24

olhei para cima e deparei com um manto de azul pintado

uma bola de amarelo rasgado

um ou outro farrapo branco navegando a contento do vento

fiquei parvo, abismado

que era aquilo que se estendia infindo acima de mim?

de que nunca me apercebera

será do olhar sempre cabisbaixo?

da gravidade que me cola os olhos ao chão

enterrados que sempre estão na ilusão

a cada passo procurada, ansiada?

 

olhei de novo e não tinham fugido

o manto de azul pintado

a bola de fogo amarelado

cada farrapo imaculado

 

tenho de o fazer mais vezes

de erguer a voz, o corpo, o olhar

de esses elementos enfrentar e com eles me entreter

jogar a vida nas suas mãos e deixar simplesmente acontecer

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira (2013)

deambulando

por migalhas, em 04.01.24

deambula o homem

deambulo eu com ele

olhos focados num finito perdido

na distância que não se vê

na distância que não se atinge

passos mecanizados, tantos assim como nós

buscam, nem sabem o quê

um sentido, um objectivo que os sintonize com cada dia

imersos neste imenso mundo que ninguém conhece por inteiro

enorme, medonho, tão belo, inalcançável

para os que deambulam desamparados

o homem e eu, como eles

castos de sentido, sem eira nem beira

à espera que a noite se faça dia e nesse o sol desponte em quanto esplendor

e naquele ténue horizonte o caminho aponte

que permita o regresso

a um ser, a um estar, que seja passaporte para dias de rasgados feitos

nem que sejam sempre iguais

nem que sejam imperfeitos

mas que sejam por algo mais que este deambular perdido

sem mais nada saber senão

que me movo, mas não avanço

que inspiro, mas não respiro

que olho, mas nada vejo

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira (2013)

no fim

por migalhas, em 02.01.24

acabo de morrer

deixei de olhar, de ver

o meu pénis entesa-se na perspectiva de me sobreviver

é dor, é prazer

num duelo de forças que não permite saber

quem sobrevive, quem no fim irá perecer

 

pesado ficou o ar

assim a terra, fogo e mar

deposta a derradeira vontade

num augúrio de imparável mortandade

coisa cortante, matéria nefasta

que a todos arrasta

a todos dilacera, nunca pela metade

sem credo ou idade

qual canto do cisne

capítulo final

assunto encerrado

pena capital

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira (2013)