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TUDO É ILUSÃO, DESDE O QUE PENSAMOS QUE PODEMOS AO QUE JULGAMOS QUE TEMOS.

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eu sou

por migalhas, em 29.12.25

eu sou camadas

sobre expostas, sub expostas

patamares de carne que me cobre

um cerne, um núcleo

eu sou parcelas, andares

lugares que percorro

degrau a degrau

em altitude, em profundidade

eu sou anos, eu sou idade

sou terra e mar e vento

e lamento

eu sou por esse mundo afora

onde me conforto, onde me deleito

onde choro e sofro

eu sou camadas

desde que acordo

até onde me deito

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira (2024)

a ver

por migalhas, em 23.12.25

Já não sei o que sentir

se chore ou desespere a rir

que este ser sem certeza

que esta estranha tristeza

fala mais, sente mais

que qualquer gesto que tente exprimir

neste sufocante esgrimir

de razões, de causas e efeitos

de peso excessivo neste peito

cansado, rendido, desfeito

onde um dia viveu orgulho

entretanto desalojado

há tempo demasiado

 

E o que ficou foi este existir oco

de forma e feitio

a arrasto das horas vagas

ao sabor dos dias a fotocópia

sem ritmo cardíaco

sequer pulso

a moribundar por aí

a ver passar

a ver acontecer

a ver, tudo à volta ser.

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira (2024)

Água vai

por migalhas, em 17.12.25

No recato da curva sinuosa

No seu decurso

Corre frondosa a água em liberdade

Essa riqueza sem preço ou idade

Que de longe vem para longe segue

Numa desenvoltura de força e de vontade

De um querer pujante

Que consigo tudo arrasta adiante

Sem receios do que vai encontrar

Apenas no desejo de se unir ao mar

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira (2024)

Quero-me animal

por migalhas, em 12.12.25

Na obrigação de ser

Neste estado social

De me dar com o meu igual

Dou-me mal

Que ele é-me diferente

E eu indiferente lhe sou

Ah, animal, na tua natureza selvagem

De ti sim, quero-me teu igual

Que tu nada pedes em troca

É o que é e está bem assim

Simples e sem compromisso

Gosto disso, gosto de ti.

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira (2024)

Refugiadas

por migalhas, em 05.12.25

Seguem-se numa fila silenciosa

Unidas pelo destino

Travessia de vida que parece não ter fim

Sem poiso ou descanso do corpo

Todas por igual, a sofrer do mesmo mal

Arrastam-se, como seres que já morreram

Como trapos que o vento leva a seu belo prazer

Farrapos de gente que de gente já nem memória

Vão por que sim, sem saberem para onde

Que o porquê há muito esqueceram

Fome, sede, angústia

Frio, cansaço, desilusão

Já nem pestanejam, já não pensam

Conformadas em fila seguem

Mães e filhas e filhas sem mães

Desgovernadas

A esta vida agarradas, por pinças

Avançam, mas é para trás que ficam

As memórias, quem eram

as cantigas, com que um dia adormeceram

As mesmas que cantaram de cor

As alegrias, se é que as tiveram

Estas refugiadas sem terra

Sem eira nem beira

Ao Deus dará

houvesse um Deus que lhes apontasse o caminho

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira (2024)

Aos 20

por migalhas, em 27.11.25

Aos 20

És tu, pujante de uma vontade a 100

És tu, sem te comparares a ninguém

És, carregada de sonhos e tantos ideais

Aos 20

Vais e não olhas para trás

Segues esse teu caminho

sabendo que tens tudo adiante

e de tudo és capaz

Aos 20

O mundo é o teu território

tudo é leveza e mesmo na incerteza

sabes que és tu quem manda

decide e faz acontecer

na força desse teu imenso querer

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira (2025)

Sabíamos ao que íamos

por migalhas, em 31.10.25

Entrelaçaste os teus cabelos naquele dia

Sob uma aurora que previa chuva

Sabias ao que ias

Na jura de promessas

Antes da labuta bruta

Que a ceara não espera

A terra não ajuda

E então com chuva

A mesma que o teu cabelo beijou

No perfume do tempo que partilhámos

Sabíamos ao que íamos

E ainda assim o cabelo entrelaçaste

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira (2024)

Nunca estiveste tão aqui

por migalhas, em 28.10.25

Em cada canto encontro-te

Um pedaço aqui, outro pedaço ali

Foste, mas para trás ficaste

E do que deixaste encontro pedaços

A cada canto, por onde me movo

Em todo o lado onde me desloco

Levo-te, trago-te, amparo os teus pertences

Olho e ali estás, aqui

À minha volta, à nossa

Dizes que partiste

Mas nunca estiveste tão aqui

Em cada canto, a cada instante

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira (2024)

De partida

por migalhas, em 24.10.25

Os prados alongam-se ao horizonte

Esticam seus braços de fineza feitos

Vejo-os sem fim, perco-me nos seus limites

Que não distingo, nem conheço

Tudo é terra, daqui até onde a imaginação alcança

Movem-se gestos inseguros

Pensamentos ganham forma em forma de partida

A bagagem tenho-a na memória

Segue comigo como o vento e este céu obscuro

Num cinzento que marca cada dia

A anteceder trovoadas e queda de granizo

As culturas arruinadas, os prados perdidos

Sigo sem destino

A bagagem tenho-a comigo

Ela é memória

Crime e castigo

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira (2024)

Fotografia tua

por migalhas, em 20.10.25

Trago-te numa fotografia

Num momento que captei e neste pedaço de papel guardei

Estás um enxovalho

De tanto te trazer colada a mim

Num bolso, ora noutro

Que eu estou sempre a recordar-te

A ir ao bolso buscar-te

E de cada vez mais indistinta

Que os meus dedos gastam a tinta

Desgastam o teu sorriso

Enxovalham o teu vestido

Nesta fotografia tua

Que trago para sempre comigo

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira (2024)