TUDO É ILUSÃO, DESDE O QUE PENSAMOS QUE PODEMOS AO QUE JULGAMOS QUE TEMOS.

21
Mar 17

Em Dia Mundial dedicado à Poesia, aqui deixo o que gostaria que fosse uma modesta contribuição, na presunção de que este punhado de palavras se possa apelidar de poema. Que poesia é vida, é olhar o mundo e o que nos rodeia à maneira de quem se atreve a dizê-lo como só através de um poema.

 

dias assim

 

por que nasceu este dia com manhã

se dela eu nem me apercebi?

por que avançou este dia na tarde

se ela por mim passou e nem me avisou?

por que se ergueu então este dia

e sorrateiramente avançou

de fio a pavio

costa a costa

da alvorada à noite fria

se de lés a lés me ignorou

que nem desconhecido

ou familiar esquecido?

 

© Copyright Migalhas (100NEXUS_2013)

publicado por migalhas às 20:00

04
Abr 16

é quando tudo se silencia

se omite na ausência de luz

se reduz a uma fina linha

ténue até na sua invisibilidade

que o sonho se escapa e me trai

me anuncia aos ventos e revela quem eu sou

que eu sou assim

irrelevante, micro como o cosmos

sem nada mais que esta pele e esta farpela gasta e suja

como as mãos, como o olhar

que já nada vislumbra adiante Senão a invisibilidade ténue da fina linha que me separa dessa outra existência

 

que há para lá?

sedutora tristeza que me arranca pedaços e os atira às feras

chagas e mais chagas

eu verto sangue e ele verte-me a mim

eu que nunca realmente aqui estive

agora vou, na ausência do que nunca fui ou serei

sem mais

apenas pó, apenas cinzas

 

© Copyright Migalhas (100NEXUS_2016)

publicado por migalhas às 20:45

05
Mar 15

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É com este poema original, "Vazios", que EU marco presença nos Talentos Ocultos – Vol.1 (edição relativa à poesia).

"Vazios"

os armários estão vazios
eu parti, tu partiste, partimos
elos quebrados
forma e conteúdo desligados
ponto final parágrafo
de hoje em diante desasados

os armários estão vazios
do que fomos pouco encerram
malas feitas, vidas desfeitas
ocas do tempo que julgámos eterno
agora a jurar promessas no inferno

os armários estão vazios
as paredes nuas, frias
nas prateleiras resta o pó
que connosco conviveu e a mesa partilhou
arrelias, ténues alegrias
guerras, tantas guerras
a toda a hora, todos os dias

os armários estão vazios
o silêncio varreu esta casa
sepulcral, integral
resta o odor a bafio
que até o ar foi a enterrar

os armários estão vazios
governa o escuro
que a luz recusa-se a entrar
é bom para os fantasmas
dessa efémera paixão
a que aqui jaz desde então
nos armários, nas prateleiras, no chão

© Copyright Migalhas (100NEXUS_2014)

publicado por migalhas às 00:16

27
Mai 14

(...)

 

que a vida é um fantoche sem jeito

que a reboque do tempo se espreguiça no seu leito

e nele se materializa

nele se realiza

nele se avista tão longe quanto o dia em que se precipita

ela que se julgava infinita

 

© Copyright Migalhas (100NEXUS_2013)

publicado por migalhas às 19:22
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05
Mai 14

Eram dois. As mãos dadas somava-lhes aquela felicidade breve do instante que ali bebiam. Em silêncio. Apenas o morrer das ondas por fundo. Profundo, afinal. Rostos fechados, mas de sorrisos rasgados. Lado a lado, conformados com a sua felicidade breve, coisa de pouca monta, de tolos que sabem que pouco mais os espera que aquela momentânea imagem jamais recriada. Olhos adiante, nas dunas, na areia que não se importa e que lhes sobreviverá, sempre, para sempre. Mesmo após a partida da sua felicidade agora partilhada. A dois, num breve trecho de uma obra que ainda nem se compôs e já se sente acabada. Fugaz, como a vontade. Que na próxima maré alta já não será senão memória, que apagada será deste capítulo em construção. Lábios que se tocam, ao de leve, na brisa que se esfuma, na espuma que se esvai. Que a chuva cai e tudo lava. Que a corrente consigo tudo arrasta. Que tudo tem um preço, que tudo se paga. Olhos que se olham e tentam compreender. Que como amantes se devem entender. Mas cada sujeito é feito dos seus predicados e ninguém conhece ninguém. Nem ninguém se conhece também. E o tempo trata do resto. Dessa tarefa árdua que é fazer esquecer, que é eliminar quaisquer rastos do que um dia pareceu ser tudo e num abrir e fechar de olhos em nada se fez. Que nem preces a um deus desconhecido. Que nem nada nem ninguém. Que não existe fórmula ou segredo capaz desse milagre. Pois que tudo é tão mais complexo e abrangente. Aos nossos olhos, sós, ou de mãos dadas, com quem nos apraz. Um dia, há muito tempo atrás.

 

© Copyright Migalhas (100NEXUS_2014)

publicado por migalhas às 21:56
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14
Abr 14

LISBOA


No bairro de Alfama os eléctricos amarelos cantavam nas calçadas íngremes.
Havia lá duas cadeias. Uma era para ladrões.
Acenavam através das grades.
Gritavam que lhes tirassem o retrato.
«Mas aqui!», disse o condutor e riu à sucapa como se cortado ao meio,
«aqui estão políticos». Vi a fachada, a fachada, a fachada
e lá no cimo um homem à janela,
tinha um óculo e olhava para o mar.
Roupa branca no azul. Os muros quentes.
As moscas liam cartas microscópicas.
Seis anos mais tarde perguntei a uma senhora de Lisboa:
«será verdade ou só um sonho meu?»

Tomas Tranströmer, prémio Nobel da Literatura 2011

Trad. Vasco Graça Moura

publicado por migalhas às 17:13

03
Abr 14

há vezes, e não poucas

em que a voz se solta

a galope num trote voraz

irada, porém incapaz

pois que nenhum som, nada

e é tudo.

 

© Copyright Migalhas (100NEXUS_2014)

publicado por migalhas às 21:30

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