Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

100Nexus

TUDO É ILUSÃO, DESDE O QUE PENSAMOS QUE PODEMOS AO QUE JULGAMOS QUE TEMOS.

facebook

O primeiro.

por migalhas, em 16.01.26

O primeiro.

O que abre as portas, o que abre caminho, o que, no fim, vai ficar lá bem para trás, quem sabe até esquecido, mas sempre rotulado como o que deu início a um novo ciclo, a uma nova parcela de tempo restrito a 365 dias, todos novos, pelo menos nunca antes experimentados, porque não deixam de ser dias, como todos os outros passados, já vividos, saboreados ou, simplesmente, tolerados.

O primeiro.

O que dá o pontapé de saída, a estreia das palavras feitas realidade em forma de texto corrido, tal e qual o ano será, na lufa lufa da rotina chata e repetidamente aborrecida. Que se seguirá?

Não adivinho, mas o primeiro já nasceu.

E, se crescer sem medos, muitos outros irá originar.

O ano, é longo.

Visto daqui, deste primeiro.

O fim, ainda nem se antevê.

Mas curto se tornará e a voar terá passado, quando aqui voltar e este reler.

O primeiro.

 

Miguel Santos Teixeira_2026

VOLTEI!

por migalhas, em 14.01.26

Afinal, fi-lo. Regressei.

Miguel Santos Teixeira_2026

 

Fechar o ano e deitar fora a chave

por migalhas, em 31.12.25

Voltei a esquecer-me dos óculos para conduzir. Vejo tudo baço e acho que talvez nem seja dos globos oculares, mas do coração, que vem vindo a esquecer-se de amar, ultimamente. E também, ultimamente, nasceram-me tantos pelos pelo corpo, que pareço um macaco, como aqueles que se extinguem todos os dias e penso se me vissem nu o que achariam, pensariam: que besta ali vai, feia, agachada ao peso de tamanha imagem. Coincidência ou não, a verdade é que não me incomodo. Aliás, trocava cada pelo deste meu corpo embrutecido pelo retorno de cada espécie que, entretanto, se extinguiu desde o meu nascimento. Como se o facto de ter nascido tivesse contribuído para a extinção de tantas espécies, desde então. Que também sou homem e racional e dotado de tantas coisas, até de pelos, que dizem que nos distingue das outras espécies e, afinal, somos aquele único ser que se há-de levar à auto extinção, independentemente do quão ridículo isso possa parecer. Os peixes com escamas, os pássaros com penas, os automóveis com chassis e as florestas a perderem as folhas e as flores e os frutos, tudo porque são necessárias mais baterias de lítio e óleo de palma para as gorduras e doces que nos hão-de ser outro dos cancros desta sociedade moderna e tão incrivelmente consumista e ridícula, quando coloca na frente dos destinos das maiores nações os mais inacreditáveis líderes, que, ao pé de certos macacos, tanto teriam a aprender. A evolução (?) trouxe-nos até aqui. E nem veio de Uber. Ou, se calhar, sim. Trouxe-nos a este estado mais estúpido da humanidade, em que o Natal deixou de ser uma data celebrada em família, por volta dos finais do mês de Dezembro, para passar a ser uma comparação entre o que eu, logo ali em meados de Setembro, comprei para oferecer ou recebi desta ou daquela pessoa, tantas vezes por obrigação e sem qualquer outro sentido que o de mostrar que também posso ser um primor de ostentação, aos olhos dos que me queiram captar para posts ou stories, a publicar nas mais diversas redes sociais. Não admira que os estados depressivos sejam a cada ano tão mais significativos e fonte brutal de rendimento para aqueles outros que detém acções em banca das maiores e mais poderosas farmacêuticas. Sinais dos tempos, como os degelos, as tempestades, as inundações ou a quantidade de livros escritos pela prolífica Freida McFadden. Talvez por tudo isto, chegando a noite, fique a matutar se faz assim tanto sentido horas e horas de conversa sobre o estado do futebol nacional, pela voz e inteligência de painéis de criaturas reformadas dessa actividade, agora a encher chouriços a qualquer hora e em qualquer canal televisivo, a custo de orçamentos que dariam para amenizar as dificuldades de tantas associações culturais sem fins lucrativos.

 

Regresso à estrada e dou comigo sem os óculos para conduzir, que agora nesta idade me são impostos e me dão aquele ar de macaco todo aperaltado, quase inteligente, não fossem os impropérios que, num tão curto espaço de tempo, distribuo pelos ignóbeis e patéticos outros condutores que parece que conseguiram as respectivas licenças de condução num qualquer passatempo radiofónico a atirar para o pomposo. Somos muitos, somos demais. Em breve, nova pandemia há-de tratar de nivelar os números das populações e dotar este lixuoso planeta de espaço extra para os que consigam pagar os respectivos cuidados de saúde. Os outros, como este vosso macaco peludo, ficar-se-ão pela vã esperança de chegar-se ali à beirinha de um dos quatro cantos do mundo e atirar-se de cabeça para o espaço sideral, quem sabe se para ser recolhido por uma nave alienígena e levado para lá de Bagdad, onde, quiçá, possa recomeçar a sua vida por entre quem ache que tanto pelo no corpo seja uma virtude, vítima de causas naturais, e não um flagelo ditado pelos padrões de uma beleza já gasta e sem aparente razão de ser. LGBT e por aí adiante. Sensibilidades ao rubro. Tudo é um drama, tudo é discutível, tudo isto é o nosso fado. Esta é a era em que o que era, deixou de ser. Igualdade de direitos, punhos erguidos e aí daquele que se cale. É assim que hoje vale. Deixa-me é dormir sobre o assunto, que amanhã estou no turno da manhã e não me posso portal mal. Afinal, é de novo Natal e tenho fé. Mas se ela me faltar, tomo um café e não tarda estamos na Páscoa. Que das palhinhas à cruz é um tirinho e então por este caminho, vai lá, vai. Fui.

 

PS: Ano que vem volto. Mas também posso não. Vou pensar.

 

Miguel Santos Teixeira_2025

eu sou

por migalhas, em 29.12.25

eu sou camadas

sobre expostas, sub expostas

patamares de carne que me cobre

um cerne, um núcleo

eu sou parcelas, andares

lugares que percorro

degrau a degrau

em altitude, em profundidade

eu sou anos, eu sou idade

sou terra e mar e vento

e lamento

eu sou por esse mundo afora

onde me conforto, onde me deleito

onde choro e sofro

eu sou camadas

desde que acordo

até onde me deito

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira (2024)

a ver

por migalhas, em 23.12.25

Já não sei o que sentir

se chore ou desespere a rir

que este ser sem certeza

que esta estranha tristeza

fala mais, sente mais

que qualquer gesto que tente exprimir

neste sufocante esgrimir

de razões, de causas e efeitos

de peso excessivo neste peito

cansado, rendido, desfeito

onde um dia viveu orgulho

entretanto desalojado

há tempo demasiado

 

E o que ficou foi este existir oco

de forma e feitio

a arrasto das horas vagas

ao sabor dos dias a fotocópia

sem ritmo cardíaco

sequer pulso

a moribundar por aí

a ver passar

a ver acontecer

a ver, tudo à volta ser.

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira (2024)

Água vai

por migalhas, em 17.12.25

No recato da curva sinuosa

No seu decurso

Corre frondosa a água em liberdade

Essa riqueza sem preço ou idade

Que de longe vem para longe segue

Numa desenvoltura de força e de vontade

De um querer pujante

Que consigo tudo arrasta adiante

Sem receios do que vai encontrar

Apenas no desejo de se unir ao mar

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira (2024)

Quero-me animal

por migalhas, em 12.12.25

Na obrigação de ser

Neste estado social

De me dar com o meu igual

Dou-me mal

Que ele é-me diferente

E eu indiferente lhe sou

Ah, animal, na tua natureza selvagem

De ti sim, quero-me teu igual

Que tu nada pedes em troca

É o que é e está bem assim

Simples e sem compromisso

Gosto disso, gosto de ti.

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira (2024)

Refugiadas

por migalhas, em 05.12.25

Seguem-se numa fila silenciosa

Unidas pelo destino

Travessia de vida que parece não ter fim

Sem poiso ou descanso do corpo

Todas por igual, a sofrer do mesmo mal

Arrastam-se, como seres que já morreram

Como trapos que o vento leva a seu belo prazer

Farrapos de gente que de gente já nem memória

Vão por que sim, sem saberem para onde

Que o porquê há muito esqueceram

Fome, sede, angústia

Frio, cansaço, desilusão

Já nem pestanejam, já não pensam

Conformadas em fila seguem

Mães e filhas e filhas sem mães

Desgovernadas

A esta vida agarradas, por pinças

Avançam, mas é para trás que ficam

As memórias, quem eram

as cantigas, com que um dia adormeceram

As mesmas que cantaram de cor

As alegrias, se é que as tiveram

Estas refugiadas sem terra

Sem eira nem beira

Ao Deus dará

houvesse um Deus que lhes apontasse o caminho

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira (2024)

Aos 20

por migalhas, em 27.11.25

Aos 20

És tu, pujante de uma vontade a 100

És tu, sem te comparares a ninguém

És, carregada de sonhos e tantos ideais

Aos 20

Vais e não olhas para trás

Segues esse teu caminho

sabendo que tens tudo adiante

e de tudo és capaz

Aos 20

O mundo é o teu território

tudo é leveza e mesmo na incerteza

sabes que és tu quem manda

decide e faz acontecer

na força desse teu imenso querer

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira (2025)

homem deste tempo

por migalhas, em 11.06.25

Vestes roupas emprestadas

de outras almas impregnadas

de suor, de pudor

de vestígios de um pó branco avassalador

 

em malgas de restos ressequidos, comes

ou sonhas que o fazes

procuras qualquer coisa que seja

na míngua da vida a que te entregaste

 

já não dormes, já só te encostas

os pés em ferida, as mãos gretadas

o cabelo desgrenhado

a vida em surdina

num espaço incerto e desolado

 

ao sol, ao relento, ao frio intenso

num vão de escada, à mercê da espada

à morte que te convoca em cada esquina

à tua sorte, homem deste tempo.

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira

 

Poema incluído na Antologia Poética "Pela Paz", editado em Maio de 2025.