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TUDO É ILUSÃO, DESDE O QUE PENSAMOS QUE PODEMOS AO QUE JULGAMOS QUE TEMOS.

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Dia do Autor Português

por migalhas, em 22.05.24

Confronto-me com aquele ser na cruz e partilho da sua dor. Também eu fui brindado em vida com uma pesada cruz que arrastei a cada dia da minha existência e que tem sido presságio da minha morte anunciada. Também eu fui flagelado e milhentas chagas se me abriram em rios de sangue que verti em direcção ao imenso mar onde me vejo submergir a cada espaço de tempo. Não deveria haver permissão para tamanho sofrimento. À flor da pele ou profundo como o abismo em que nos deixamos cair, atraídos pela tentação, pela vida de ficção com que julgamos iludir a realidade. E esta não é a minha realidade. Fechado entre quatro paredes de um quarto nu, de tudo despojado. Agradeço a dádiva, a esperança em mim depositada, a ajuda que me foi dada sem nada exigir em troca senão a minha redenção, a minha abnegação à vida de pecado a que me submeti e que tem impregnado os meus dias. Lamento desapontá-los guardiões da fé, da crença num poder do além, mas essa promessa jamais a poderia cumprir. Pois não é esta a minha realidade. Sou animal selvagem e não admito cativeiro algum. Ninguém nem nada me priva da liberdade que me percorre as veias, que me permite respirar. Nem que isso signifique a morte. Pois também ela é libertação. A suprema libertação.

 

Excerto do projecto "Crónicas de Serathor", de Miguel Santos Teixeira.

Liberdade

por migalhas, em 25.04.24

Nela ouso pensar

de sorriso no rosto de quem sabe que quer

ou se permite poder.

 

Com ela me quero deitar

nela me quero depositar

por entre juras e promessas

de dias ao sol, noites ao luar.

 

Parida de um cravo foi, espinho de rosa é.

 

Fez a cama, onde me deitei

deu-me a mão, que aceitei

enfeitiçou-me, e eu deixei.

 

Iludido, apaixonado

fez-me sonhar acordado,

quando o tempo todo assim vivi

apenas e só, enganado.

 

Não lhe vi a outra face

o âmago que é o seu

erro meu, meu enterro

que nela quis acreditar

 

Liberdade, Liberdade

que já nada tens para me dar

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira

A revolução

por migalhas, em 24.04.24

De quem vieram as ordens para avançar com a revolução?

Pouco se sabe.

Mas pressões de um insatisfeito grupo de militares, podem ter despoletado o processo.

Queriam a mudança, o corte com a ditadura, mas sem derramamento de sangue.

Para mostrarem ao mundo que era possível cortar sem fazer feridas.

O pai, militar orgulhoso de ter integrado a bem-sucedida operação, mostrou ao filho a metralhadora.

A G3, com o cravo cravado no cano a travar a saída de uma munição que fosse.

O filho, sem perceber o que se passava, mas visivelmente contagiado pelo entusiasmo do pai, pegou no cravo e cheirou-o.

O pai baixou a guarda e agora o cravo já nada podia deter.

Nem mesmo a bala, que, fatalmente, o atingiu pelas costas.

Lá fora, a celebração subia de tom.

Já no chão desta casa, um outro tom, este vermelho sangue, desabrochava.

Inocente, a criança olhou o pai inerte, o soldado tombado.

Era dia de festa.

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira

Dia Mundial do Livro

por migalhas, em 23.04.24

Ler, mas com cabeça.

Miguel Santos Teixeira

 

O dia. Mundial do Livro.

O Pensamento. Ler todas as obras literárias alguma vez publicadas, nesse único dia.

O plano. Insano, no mínimo.

Reunir os biliões de textos que, século após século, haviam sido selecionados para se partilharem com os leitores e, de uma penada, consumi-los todos. Uma penada de 24 horas, mas ainda assim uma brevidade assombrosa, atendendo às pretensões do projecto.

E as pausas? Para alimentação, necessidade básicas, higiene. Rentabilizar cada uma, era a palavra de ordem. Quem nunca leu na retrete, à mesa entre garfadas ou mesmo enquanto lava os dentes?

Os obstáculos maiores, as armadilhas, as impossibilidades, tudo isso é obra maior da nossa cabeça. Ela que é perita em imponderáveis que dificultem o bem-sucedido, em problemas ou dificuldades que impeçam os propósitos a que nos propomos. Razão mais do que suficiente para a eliminar da equação. Pô-la num cepo e ordenar ao carrasco:

- Ó tu, do capuz preto enfiado até à medula!

- Are you talkin’ to me?

- Vês aqui mais alguém enfiado num capuz preto ridículo como esse?

- Sei lá, pouco consigo ver à volta com isto enfiado cabeça abaixo.

Pois, que mais poderias ser senão carrasco – sussurrou.

- Sim, tens razão, de facto a tarefa parece de um grau de dificuldade elevado.

Para os teus parâmetros, então, nem se questiona. Voltou a sussurrar. Só davas mesmo para carrasco.

- Mas adiante. Tens um tempinho ou estás muito ocupado?

- Quem eu?

- Epá, começas a deixar-me em dúvida se deva recorrer a ti mesmo para o que estou quase a pedir-te.

- Não entendi.

- Também pouco interessa para o efeito.

Para além de que não me surpreende – novo sussurro.

- Bom, sem delongas e directo ao assunto: cortas-me a cabeça ou tenho de o pedir a um amigo secreto?

- Se quiseres que tudo fique em segredo, comigo não contes. Que eu conto cada cabeça que corto e até tenho um bloquinho onde assento tudo. Para além de que também conto tudo aos meus parceiros de copos na taberna, ao fim de cada dia.

- Certo. A ideia é só deixares cair o machado sobre este pescocinho macio e tenrinho e deixar que essa lâmina afiada cumpra o seu propósito. Achas que consegues? Tens um tempinho para isso?

- Tipo agora? É que estou aqui numa troca de mensagens que ainda pode demorar.

- Daí ter-te perguntado se tinhas um tempinho para isso.

- Ter até tenho. Acho que consigo arranjar aqui uma vaga por volta das três da tarde. Dava-te jeito a essa hora?

Já estou por tudo – algo sussurrado.

- Negócio fechado às três!

- Às três é quando abro o negócio, não entendeste. Queres que te explique de novo?

- Não, não, deixa estar.

Com este, um gajo perde a cabeça mesmo antes de ele a cortar, chiça!

O tempo passou e a hora agendada aproximava-se.

O gajo da cabeça, ainda com ela sobre os ombros, regressou ao convívio do carrasco e foi dar com ele, sem surpresa, a trocar mensagens. Que certas profissões exigem muito do competente profissional. O cuco anunciava as três da tarde e nesse instante o carrasco trocou o ecrã pela vida real. Ao fundo, o seu próximo cliente.

- Foi você que marcou para as três?

- Sim, sou eu mesmo.

- E acha que está preparado para o que lhe vou fazer?

- Bom, preparado a pessoa nunca estará inteiramente. Afinal, não é todos os dias que agendamos a subtracção de uma parte tão importante do nosso corpo.

- Pois, eu só pergunto que é para depois não virem dizer que afinal se arrependeram, e isso.

- Pois, seria algo complicado de fazer após a sua intervenção.

- Você é que sabe. Então vamos?

E lá foram eles, lado a lado, rumo a um espaço ermo e massacrado pelo sol abrasador. No meio daquele nada, um cepo. Ou dois, se contarmos agora com a presença do carrasco. O terceiro elemento, não se incluindo propriamente nessa classe, não deixou de repousar a sua cabeça naquele cepo amigo, como que aguardando por alguma consolação. Uma insolação, talvez. Mas seria por pouco tempo. Que o profissional do machado depressa o segurou e elevando-o no ar, que rasgou de rompão, num ápice deixou-o abater sobre aquele pescoço indefeso. Sobre aquela ponte que unira cabeça ao tronco. E nem o diabo havia acabado de esfregar o olho e já o pobre decapitado saldava a sua dívida, fazendo-o, se bem que por todo manchado de sangue, por MBWay. Operação concluída!

Um cumprimento breve e agora poderia ingressar em qualquer espectáculo sem pagar. Pois, como todos sabem, quem não tem cabeça não paga nada.

Satisfeito com a decisão, embora não se pudesse adivinhá-lo no seu rosto, o feliz decapitado tinha agora pela frente um desafio um pouco mais abrangente que qualquer um outro que a sua ex-cabeça lhe pudesse impor. Não pensara no assunto então e agora tal tarefa tornava-se ainda mais problemática. Como raio ia ele ler tanto livro num único dia se, entretanto e com tantas voltas e reviravoltas, já estava no dia seguinte ao dia mundial do livro? Sentou-se, colocou o espaço que fora da cabeça entre as mãos e chorou. Quer dizer, se ainda tivesse olhos. Suspirou fundo, se ainda tivesse vias nasais, e largou um sonoro desagrado, caso ainda o conseguisse por via da boca que agora lhe fora igualmente subtraída.

Perdera a sua oportunidade. O plano não correra como o previsto. E com tudo isso, tinha agora ainda a árdua tarefa de adiar todas as suas leituras sine die. É o que dá dar ouvidos a quem menos interessa. Neste caso, a um carrasco.

Moral da história: Leiam. Tudo o que podem e enquanto podem. Não vá um dia ficarem com cataratas.

 

FIM

Dia do Livro Português

por migalhas, em 26.03.24

frágeis passos, negros hábitos - poemário 1

"Os primeiros passos numa área tão sensível e complexa como a poesia só podiam ser frágeis.
O olhar, intimista.
O registo, o tom, vezes sem conta negros, como os hábitos de quem vive constantemente questionando-se sobre o porquê de assim ser, de assim estar.
As palavras, soltas, sem freio ou receio do que possam consigo carregar.
Tudo aqui exposto, perante o vosso olhar."

Abril de 2011

 

Corria o ano de 2011, quando me decidi a editar esta minha primeira aventura pelo mundo da poesia.

Edição de autor, da capa ao miolo, por estas páginas dava a minha entrada naquele que viria a ser um dos meus mundos predilectos para habitar.

Hoje, Dia do Livro Português, lembrei-me de o recordar e de o sugerir, a quem aprecie este género literário e de arte, por que não dizê-lo.

Deixo aqui as indicações para quem o queira adquirir, o que, desde já, agradeço.

https://www.bubok.pt/ventasrrss/index/3564

Boas leituras!

Dia Mundial da Poesia

por migalhas, em 21.03.24

alma de poeta

 

a poesia

na boca do poeta

do ser sofrido ou de coração partido

todo ele por arames

preso às palavras, à sua fúria e encanto

no espanto, na dor, num estado predestinado

uma voz que se convoca

que quando fala, choca

que é gume de faca, de espada

afiada lâmina que ama o sangue e deseja vê-lo jorrar

para depois se deitar a chorar

pobre alma

tão exausta desta vida nefasta

a vida do poeta

a desgraça que o abraça

ele é de nada e nesse nada se eleva

sobe à lua e volta

percorre universos e espaços infindos

habita seres e veste personagens

usa after shave e saias travadas

escreve como vomita e nele tudo é indigesto

vive cansado e cansado de viver, sufoca

com as palavras que verte de um trago

e o deixam ainda mais inconformado

pobre alma

a do poeta

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira (2024)

ecos colossais

por migalhas, em 11.03.24

o céu fechou-se, cerrou fileiras

as suas pesadas pálpebras

e precipitou-se

sobre os indefesos, amedrontados

 

zangado, antes berrou, soltou toda a sua fúria e estalou brutal na vastidão abissal

ecoando seco e ameaçador

sobre os incautos, pecadores

 

irou-se e tudo alumiou na noite que impôs, então compôs, a seu tempo, compassada, a seu jeito, cerrada

 

e sobre todos se lançou

na brava impetuosidade do seu ser

a todos enlaçou

na prepotência do punho ditatorial

brotando salvas que ressoaram pelos confins do seu reino

qual homenagem fúnebre a um herói nacional

espezinhado a seus pés, impotente

qual castelo de areia

indefeso animal

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira (2013)

Dia Mundial da Mulher

por migalhas, em 08.03.24

femina

 

ela, femina

mãe de todos

deles, delas, das outras mães

carregam a vida, são vida

dão-na, perpetuam a espécie

numa espécie de força avassaladora

nos modos como intentam e se mostram deusas

uma basta por todas, mas todas são o mar inteiro

céu, terra, ar e fogo

que vem lá bem do fundo

de tempos infindos

de peitos sofridos, gargantas roucas

punhos erguidos na luta

nas conquistas, na esperança por outras

nessa mulher que existe em cada um de nós

ela, femina

deusa, nossa mãe.

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira (2024)

curso da vida

por migalhas, em 22.02.24

no encantamento do mar revolto

me torno omisso

na fúria de uma natureza animal

me perco

nas malhas de uma rede que me capta a essência

me liberto

na fria rebeldia de um manto eterno

eu descanso

ao mar, ao mar

intrépido oceano que se abre de par em par

eu, homem, me lanço

me entrego, sem receios ou dúvidas

que a vida é um curso de água que desemboca num rio

nele circula por entre vales sem nome

para no mar desaguar

e neste se espraiar e naufragar

morrendo, por fim, nessa fundura infinita

de uma beleza inaudita

assim seja, bendita.

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira (2013)

contra tempo

por migalhas, em 20.02.24

no sepulcral cair da noite

no tumulto que se queda e finda

no silêncio que se apraz agradado

neste fim que aqui jaz agendado

até novo ciclo de tudo de novo

e de nada que se compadece

na orla de um céu que nunca entristece

jamais envelhece

apenas se ergue e deita

se acende e ofusca

na sequência que são os dias e as noites e o tempo

que corre lesto, na pressa de se fazer maior ainda

de tanto que já é e tem

que nem a memória nem ninguém

para lhe dizer basta

são horas, mas de te acalmares

de esse ímpeto furioso refreares e simplesmente apreciares o que são os teus filhos

minutos, segundos

escassas parcelas que de ti se perfizeram

mas que agora somente esperam

por um singelo momento de contemplação

de uma pausa na quietude destas planícies sem fim

onde parar não é morrer

onde tudo se remete à expiação

impassível face ao perdão

impossível

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira (2013)