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TUDO É ILUSÃO, DESDE O QUE PENSAMOS QUE PODEMOS AO QUE JULGAMOS QUE TEMOS.

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E é tudo

por migalhas, em 21.05.24

Há vezes, e não poucas

em que a voz se solta

a galope num trote voraz

irada, porém incapaz

pois que nenhum som, nada.

E é tudo.

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira

amanhece

por migalhas, em 17.05.24

anoitece, amanhece

e de premeio o mar

onde tudo acontece

qual espelho que tudo reflete

uma imagem, uma prece

na medonha força que cresce

e das bravas vagas emerge

e embrutece

até que saciada esmorece

ao som das ninfas

do cântico que adormece

e prepara a hora, que anoitece

para novo dia, que amanhece

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira

roncos, grunhidos

por migalhas, em 15.05.24

roncos, grunhidos

uivos sumidos

na terra, no céu

são sons distorcidos

em pele de lobo

ou só com um véu

são seres desconhecidos

que não se quedam por ninguém

são roncos, são grunhidos

são a voz do desdém

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira

o que é e o que devia ser

por migalhas, em 13.05.24

É assim, mas não devia.

Fazes assim, mas não devias.

Sabes o como e o porquê

e ainda assim não é isso o que se vê.

 

Ages à revelia do teu ser

és o oposto do que pensas e sabes

que tu assim não és são

nem te julgues a salvo.

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira

Liberdade

por migalhas, em 25.04.24

Nela ouso pensar

de sorriso no rosto de quem sabe que quer

ou se permite poder.

 

Com ela me quero deitar

nela me quero depositar

por entre juras e promessas

de dias ao sol, noites ao luar.

 

Parida de um cravo foi, espinho de rosa é.

 

Fez a cama, onde me deitei

deu-me a mão, que aceitei

enfeitiçou-me, e eu deixei.

 

Iludido, apaixonado

fez-me sonhar acordado,

quando o tempo todo assim vivi

apenas e só, enganado.

 

Não lhe vi a outra face

o âmago que é o seu

erro meu, meu enterro

que nela quis acreditar

 

Liberdade, Liberdade

que já nada tens para me dar

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira

A revolução

por migalhas, em 24.04.24

De quem vieram as ordens para avançar com a revolução?

Pouco se sabe.

Mas pressões de um insatisfeito grupo de militares, podem ter despoletado o processo.

Queriam a mudança, o corte com a ditadura, mas sem derramamento de sangue.

Para mostrarem ao mundo que era possível cortar sem fazer feridas.

O pai, militar orgulhoso de ter integrado a bem-sucedida operação, mostrou ao filho a metralhadora.

A G3, com o cravo cravado no cano a travar a saída de uma munição que fosse.

O filho, sem perceber o que se passava, mas visivelmente contagiado pelo entusiasmo do pai, pegou no cravo e cheirou-o.

O pai baixou a guarda e agora o cravo já nada podia deter.

Nem mesmo a bala, que, fatalmente, o atingiu pelas costas.

Lá fora, a celebração subia de tom.

Já no chão desta casa, um outro tom, este vermelho sangue, desabrochava.

Inocente, a criança olhou o pai inerte, o soldado tombado.

Era dia de festa.

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira

Dia Mundial da Poesia

por migalhas, em 21.03.24

alma de poeta

 

a poesia

na boca do poeta

do ser sofrido ou de coração partido

todo ele por arames

preso às palavras, à sua fúria e encanto

no espanto, na dor, num estado predestinado

uma voz que se convoca

que quando fala, choca

que é gume de faca, de espada

afiada lâmina que ama o sangue e deseja vê-lo jorrar

para depois se deitar a chorar

pobre alma

tão exausta desta vida nefasta

a vida do poeta

a desgraça que o abraça

ele é de nada e nesse nada se eleva

sobe à lua e volta

percorre universos e espaços infindos

habita seres e veste personagens

usa after shave e saias travadas

escreve como vomita e nele tudo é indigesto

vive cansado e cansado de viver, sufoca

com as palavras que verte de um trago

e o deixam ainda mais inconformado

pobre alma

a do poeta

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira (2024)

curso da vida

por migalhas, em 22.02.24

no encantamento do mar revolto

me torno omisso

na fúria de uma natureza animal

me perco

nas malhas de uma rede que me capta a essência

me liberto

na fria rebeldia de um manto eterno

eu descanso

ao mar, ao mar

intrépido oceano que se abre de par em par

eu, homem, me lanço

me entrego, sem receios ou dúvidas

que a vida é um curso de água que desemboca num rio

nele circula por entre vales sem nome

para no mar desaguar

e neste se espraiar e naufragar

morrendo, por fim, nessa fundura infinita

de uma beleza inaudita

assim seja, bendita.

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira (2013)

Ao retardador, final

por migalhas, em 14.02.24

de início, ferozes

as folhas da vida correm velozes

incentivadas pelo querer e tudo poder

galopam bravas a ânsia desmedida

 

a meio caminho travam o passo

não mais estugado, algo cansado

é hora de abrandar, de pensar

de entender a manta e descansar

 

depois adiante, ao retardador

esmorece a vontade, maior o dissabor

enorme o desejo em recuar

a tempos que se recusam a voltar

 

que o querer rejuvenescer paira a certa altura

entre a terra e o céu a que ascenderemos

corre no curso inverso que é o do tempo

nesse portento de força em contramão

 

que a vida é um fantoche sem jeito

que a reboque do tempo se espreguiça no seu leito

e nele se materializa

nele se realiza

nele se avista tão longe quanto o dia em que se precipita

ela que se julgava infinita

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira (2013)

Dia Internacional do Riso

por migalhas, em 18.01.24

Sorrir é uma utopia

 

Sorrir é uma utopia

Sorrir de quê?

Lá piada, tem

Saber que agora estou, agora fui

E o que ficou?

Choros? Lágrimas?

Ou meio-sorrisos de idiotas chapados?

Riem-se de quê?

Olhem-se ao espelho e chorem

Chorem por serem o que são

Uns merdas que nunca dão a mão

Que fingem que sim, mas sempre não

Escarninhos, preconceituosos, mal-amanhados

De educação falhados

Uns tristes fados

 

Por isso chorem, que sorrir é uma farsa

Tal e qual o que criam, ou julgam alcançar

Que daqui seguem viagem

não um, mas todos

de mãos a abanar

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira (2023)