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TUDO É ILUSÃO, DESDE O QUE PENSAMOS QUE PODEMOS AO QUE JULGAMOS QUE TEMOS.

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A revolução

por migalhas, em 24.04.24

De quem vieram as ordens para avançar com a revolução?

Pouco se sabe.

Mas pressões de um insatisfeito grupo de militares, podem ter despoletado o processo.

Queriam a mudança, o corte com a ditadura, mas sem derramamento de sangue.

Para mostrarem ao mundo que era possível cortar sem fazer feridas.

O pai, militar orgulhoso de ter integrado a bem-sucedida operação, mostrou ao filho a metralhadora.

A G3, com o cravo cravado no cano a travar a saída de uma munição que fosse.

O filho, sem perceber o que se passava, mas visivelmente contagiado pelo entusiasmo do pai, pegou no cravo e cheirou-o.

O pai baixou a guarda e agora o cravo já nada podia deter.

Nem mesmo a bala, que, fatalmente, o atingiu pelas costas.

Lá fora, a celebração subia de tom.

Já no chão desta casa, um outro tom, este vermelho sangue, desabrochava.

Inocente, a criança olhou o pai inerte, o soldado tombado.

Era dia de festa.

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira

Dia Mundial do Livro

por migalhas, em 23.04.24

Ler, mas com cabeça.

Miguel Santos Teixeira

 

O dia. Mundial do Livro.

O Pensamento. Ler todas as obras literárias alguma vez publicadas, nesse único dia.

O plano. Insano, no mínimo.

Reunir os biliões de textos que, século após século, haviam sido selecionados para se partilharem com os leitores e, de uma penada, consumi-los todos. Uma penada de 24 horas, mas ainda assim uma brevidade assombrosa, atendendo às pretensões do projecto.

E as pausas? Para alimentação, necessidade básicas, higiene. Rentabilizar cada uma, era a palavra de ordem. Quem nunca leu na retrete, à mesa entre garfadas ou mesmo enquanto lava os dentes?

Os obstáculos maiores, as armadilhas, as impossibilidades, tudo isso é obra maior da nossa cabeça. Ela que é perita em imponderáveis que dificultem o bem-sucedido, em problemas ou dificuldades que impeçam os propósitos a que nos propomos. Razão mais do que suficiente para a eliminar da equação. Pô-la num cepo e ordenar ao carrasco:

- Ó tu, do capuz preto enfiado até à medula!

- Are you talkin’ to me?

- Vês aqui mais alguém enfiado num capuz preto ridículo como esse?

- Sei lá, pouco consigo ver à volta com isto enfiado cabeça abaixo.

Pois, que mais poderias ser senão carrasco – sussurrou.

- Sim, tens razão, de facto a tarefa parece de um grau de dificuldade elevado.

Para os teus parâmetros, então, nem se questiona. Voltou a sussurrar. Só davas mesmo para carrasco.

- Mas adiante. Tens um tempinho ou estás muito ocupado?

- Quem eu?

- Epá, começas a deixar-me em dúvida se deva recorrer a ti mesmo para o que estou quase a pedir-te.

- Não entendi.

- Também pouco interessa para o efeito.

Para além de que não me surpreende – novo sussurro.

- Bom, sem delongas e directo ao assunto: cortas-me a cabeça ou tenho de o pedir a um amigo secreto?

- Se quiseres que tudo fique em segredo, comigo não contes. Que eu conto cada cabeça que corto e até tenho um bloquinho onde assento tudo. Para além de que também conto tudo aos meus parceiros de copos na taberna, ao fim de cada dia.

- Certo. A ideia é só deixares cair o machado sobre este pescocinho macio e tenrinho e deixar que essa lâmina afiada cumpra o seu propósito. Achas que consegues? Tens um tempinho para isso?

- Tipo agora? É que estou aqui numa troca de mensagens que ainda pode demorar.

- Daí ter-te perguntado se tinhas um tempinho para isso.

- Ter até tenho. Acho que consigo arranjar aqui uma vaga por volta das três da tarde. Dava-te jeito a essa hora?

Já estou por tudo – algo sussurrado.

- Negócio fechado às três!

- Às três é quando abro o negócio, não entendeste. Queres que te explique de novo?

- Não, não, deixa estar.

Com este, um gajo perde a cabeça mesmo antes de ele a cortar, chiça!

O tempo passou e a hora agendada aproximava-se.

O gajo da cabeça, ainda com ela sobre os ombros, regressou ao convívio do carrasco e foi dar com ele, sem surpresa, a trocar mensagens. Que certas profissões exigem muito do competente profissional. O cuco anunciava as três da tarde e nesse instante o carrasco trocou o ecrã pela vida real. Ao fundo, o seu próximo cliente.

- Foi você que marcou para as três?

- Sim, sou eu mesmo.

- E acha que está preparado para o que lhe vou fazer?

- Bom, preparado a pessoa nunca estará inteiramente. Afinal, não é todos os dias que agendamos a subtracção de uma parte tão importante do nosso corpo.

- Pois, eu só pergunto que é para depois não virem dizer que afinal se arrependeram, e isso.

- Pois, seria algo complicado de fazer após a sua intervenção.

- Você é que sabe. Então vamos?

E lá foram eles, lado a lado, rumo a um espaço ermo e massacrado pelo sol abrasador. No meio daquele nada, um cepo. Ou dois, se contarmos agora com a presença do carrasco. O terceiro elemento, não se incluindo propriamente nessa classe, não deixou de repousar a sua cabeça naquele cepo amigo, como que aguardando por alguma consolação. Uma insolação, talvez. Mas seria por pouco tempo. Que o profissional do machado depressa o segurou e elevando-o no ar, que rasgou de rompão, num ápice deixou-o abater sobre aquele pescoço indefeso. Sobre aquela ponte que unira cabeça ao tronco. E nem o diabo havia acabado de esfregar o olho e já o pobre decapitado saldava a sua dívida, fazendo-o, se bem que por todo manchado de sangue, por MBWay. Operação concluída!

Um cumprimento breve e agora poderia ingressar em qualquer espectáculo sem pagar. Pois, como todos sabem, quem não tem cabeça não paga nada.

Satisfeito com a decisão, embora não se pudesse adivinhá-lo no seu rosto, o feliz decapitado tinha agora pela frente um desafio um pouco mais abrangente que qualquer um outro que a sua ex-cabeça lhe pudesse impor. Não pensara no assunto então e agora tal tarefa tornava-se ainda mais problemática. Como raio ia ele ler tanto livro num único dia se, entretanto e com tantas voltas e reviravoltas, já estava no dia seguinte ao dia mundial do livro? Sentou-se, colocou o espaço que fora da cabeça entre as mãos e chorou. Quer dizer, se ainda tivesse olhos. Suspirou fundo, se ainda tivesse vias nasais, e largou um sonoro desagrado, caso ainda o conseguisse por via da boca que agora lhe fora igualmente subtraída.

Perdera a sua oportunidade. O plano não correra como o previsto. E com tudo isso, tinha agora ainda a árdua tarefa de adiar todas as suas leituras sine die. É o que dá dar ouvidos a quem menos interessa. Neste caso, a um carrasco.

Moral da história: Leiam. Tudo o que podem e enquanto podem. Não vá um dia ficarem com cataratas.

 

FIM

Smart Home Camera

por migalhas, em 12.09.23

Smart Home Camera

 

Do nada, a campainha toca. Desloco-me ao vídeo porteiro, olho o écran e vejo que é o carteiro. Abro-lhe a porta e ele sobe de elevador ao meu andar. Espero-o à entrada do meu apartamento. Trocamos galhardetes, ele fica com o meu primeiro e último nome e eu com a encomenda que esperava ansiosamente. Despedimo-nos e confirmo que chegou a minha Smart Home Camera. Awesome! A leitura das instruções é rápida, pois é simples, hoje em dia, colocar a trabalhar um dispositivo destes. É pequena, portátil, leve como uma pena, 220 gramas, incrível! Encomendei-a para poder ver o gato, enquanto estou fora. Vamos a isso! É só ligar à corrente e imediatamente acende uma luz vermelha. Está on. Tem uma visão de 360º, vou ter tudo debaixo de olho. Descarrego e instalo a app que a vai controlar à distância e mostrar-me no telemóvel cada movimento do Simão. Sim, por que também tem detector de movimento. Coloco a câmara no spot que melhor cobre a área que pretendo captar e lá estou eu, ali ao fundo, a mexer no telemóvel. Daqui, do telemóvel, vejo-me ali, captado pela câmara. Aceno para a câmara e sinto-me duplicado. Experimento o comando que permite a rotação da câmara. Perfaz na perfeição o que promete, 360º. Vou ter mesmo tudo debaixo de olho. Volto à posição inicial e lá estou eu de novo, no mesmíssimo lugar, a olhar o telemóvel. É estranho, ver-me ali, daqui. E mais estranho ainda, estar a acenar de novo. Mas não eu aqui, aquele eu ali. Sem tirar os olhos do telemóvel, aquele eu ali, no écran do meu telemóvel, acena-me, lá ao fundo. Faço um zoom com os dedos indicador e polegar e sou mesmo eu, não há dúvida. Pode ter sido a imagem que congelou ou que a câmara tenha gravado. Continua a acenar-me, sem desviar os olhos do telemóvel. Eu olho directamente para a câmara, lá ao fundo, que, supostamente, está a gravar-me. Volto a olhar o telemóvel e agora eu saí de cena. Já não estou a olhar o telemóvel e a gerir os comandos da app. O telemóvel cai no chão. No écran, repousa aquilo que a câmara estava a captar. Atraído pelo som, o Simão aparece, vindo lá do quarto, e mia. Cheira o telemóvel e eu posso vê-lo, o enorme focinho encostado à câmara. O telemóvel hiberna, o écran faz-se negro e eu, desapareço para sempre.

 

FIM

 

© Copyright Migalhas (100NEXUS_2023)

A cabana

por migalhas, em 07.09.23

A cabana

 

Isolados naquela remota cabana de montanha, pai e filha desfrutam de um tempo de calma e sossego, só ali possível.

Lá fora, anoitece ao ritmo de uma suave brisa.

Lá dentro, reina o silêncio. Apenas interrompido pelo abrir de uma porta.

Na sala, trabalhando no seu último livro, o pai é surpreendido pela presença da filha. Esta olha-o de cima, enterrado no sofá, para lhe dizer:

- Pai, a porta do meu quarto abriu-se de repente. E já não é a primeira vez que acontece.

O pai, fixando-lhe os olhos, responde-lhe:

- Estou a ver que não te contaram a lenda que por aí corre sobre esta cabana.

- Lenda?

- Sim, dizem que é habitada por estranhos seres que assumem a figura de pessoas que nos são conhecidas.

- Conhecidas? Como assim?

- Por exemplo, no nosso caso, poderiam fazer-se passar por mim, teu pai.

A filha mais não disse.

O seu breve grito desesperado ecoou pela sombria montanha, rapidamente consumido por esta. Uma súbita rajada de vento varreu as frondosas copas das árvores, como numa dança de celebração. E o silêncio voltou a abater-se sobre a cabana. De novo esventrada de outros seres que não aqueles que, por diversão, se alimentam das incautas pessoas que ali vão à procura de calma e sossego. 

 

FIM

 

© Copyright Migalhas (100NEXUS_2023)