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TUDO É ILUSÃO, DESDE O QUE PENSAMOS QUE PODEMOS AO QUE JULGAMOS QUE TEMOS.

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capítulo final

por migalhas, em 01.03.24

são formas que se movem

de vontade ressequida

como espantalhos perdidos ao vento

munidos do que julgam ser vida

 

repetem esquinas

alongam avenidas

são sombras, são espectros

em becos sem saída

 

não sabem o que seguem

não sabem ao que vão

são figuras agastadas

subtraídas de paixão

 

compõem-se bem, alguns a rigor

que ainda são gente, gente que sente

um aperto no coração, uma angústia, um tremor 

solidão que mói, qual maleita persistente

 

já não sabem nem sonham

que a vontade foi a enterrar

são carcaças rendidas, de asas partidas

numa vida que já só é restos

até do tempo que ainda tem para lhes dar

 

mais mortos que vivos, num constante pesar

eles deixam-se ir, deixam-se levar

no dorso desse tempo que a todos há-de arrastar

mais estes que nem trapos

sem regresso ou volta a dar

 

e assim desfila este capítulo sem história

a seus olhos final, sem glória

lembrado em lápide de néones brilhantes

já sem nada, nem mesmo memória

já nada como dantes

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira (2013)

nasci faz tempo

por migalhas, em 24.02.24

hoje faço anos

nasci faz tempo e nem dei por ele, entretanto

aqui cheguei, qual naufrago

para a missão que me foi atribuída

sem roupa ou noção, logo chorei

como que a prever

 

dei os primeiros passos e fui andando

e nem dei por aquilo que andei

era tudo mais fácil, era um mundo adiante

eram sonhos e ambições

era uma vez, como nas histórias

 

e hoje faz anos que aqui cheguei

o naufrago envelheceu

a ilha como que encolheu

e com ela o tempo

e a distância que falta andar

 

hoje já sei andar, mas tropeço de vez em quando

já sei falar, mas evito-o

já me canso e sinto o avanço

disfarço este aperto e dou por mim a recuar

a recordar

de novo a chorar

será por que nasci faz tempo?

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira (2024)

curso da vida

por migalhas, em 22.02.24

no encantamento do mar revolto

me torno omisso

na fúria de uma natureza animal

me perco

nas malhas de uma rede que me capta a essência

me liberto

na fria rebeldia de um manto eterno

eu descanso

ao mar, ao mar

intrépido oceano que se abre de par em par

eu, homem, me lanço

me entrego, sem receios ou dúvidas

que a vida é um curso de água que desemboca num rio

nele circula por entre vales sem nome

para no mar desaguar

e neste se espraiar e naufragar

morrendo, por fim, nessa fundura infinita

de uma beleza inaudita

assim seja, bendita.

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira (2013)

contra tempo

por migalhas, em 20.02.24

no sepulcral cair da noite

no tumulto que se queda e finda

no silêncio que se apraz agradado

neste fim que aqui jaz agendado

até novo ciclo de tudo de novo

e de nada que se compadece

na orla de um céu que nunca entristece

jamais envelhece

apenas se ergue e deita

se acende e ofusca

na sequência que são os dias e as noites e o tempo

que corre lesto, na pressa de se fazer maior ainda

de tanto que já é e tem

que nem a memória nem ninguém

para lhe dizer basta

são horas, mas de te acalmares

de esse ímpeto furioso refreares e simplesmente apreciares o que são os teus filhos

minutos, segundos

escassas parcelas que de ti se perfizeram

mas que agora somente esperam

por um singelo momento de contemplação

de uma pausa na quietude destas planícies sem fim

onde parar não é morrer

onde tudo se remete à expiação

impassível face ao perdão

impossível

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira (2013)

a minha menina

por migalhas, em 16.02.24

és a minha pequenina, és a minha menina

és sonho feito realidade, és anos que somas à minha idade

marcas tu agora o tempo, és dia, és noite, és meu alento

estás aqui, estás ali, mas é neste peito que vives em permanência

neste desejo que é urgência

de te ver seguir adiante, confiante

orgulhoso de quem tu és

tanto, tudo e mais ainda

a minha menina, a minha pequenina

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira (2013)

Ao retardador, final

por migalhas, em 14.02.24

de início, ferozes

as folhas da vida correm velozes

incentivadas pelo querer e tudo poder

galopam bravas a ânsia desmedida

 

a meio caminho travam o passo

não mais estugado, algo cansado

é hora de abrandar, de pensar

de entender a manta e descansar

 

depois adiante, ao retardador

esmorece a vontade, maior o dissabor

enorme o desejo em recuar

a tempos que se recusam a voltar

 

que o querer rejuvenescer paira a certa altura

entre a terra e o céu a que ascenderemos

corre no curso inverso que é o do tempo

nesse portento de força em contramão

 

que a vida é um fantoche sem jeito

que a reboque do tempo se espreguiça no seu leito

e nele se materializa

nele se realiza

nele se avista tão longe quanto o dia em que se precipita

ela que se julgava infinita

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira (2013)

Ao retardador – génese

por migalhas, em 12.02.24

Ao retardador

As folhas da vida assim avançam, embaladas pela brisa de final de tarde

Duas adiante, uma de quando em vez atrás a recuperar memórias quase perdidas

Sobre um pequeno banco, estrutura de madeira, assento de vide

Um breve e merecido repouso

Um recuo ao que foi

Em tempos que não voltam mais

Senão numa folha que volta atrás

A recuperar o que não quer ver esquecido

No curso inverso do tempo

Força em contramão

Num leito de águas revoltas

Fugaz deleite pousado naquele dente de leão

Que segue por que empurrado

Ele adiante, até que travado

No seu voar encantado

Qual vida que segue perplexa a reboque do tempo

E nele se materializa

Nele se realiza

Nele se avista ao longe

E um dia se precipita num regresso que jamais

Tarde demais

Tudo esquecido

Perdido

Ao retardador

Até que o fim

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira (2013)

Dia Internacional do Riso

por migalhas, em 18.01.24

Sorrir é uma utopia

 

Sorrir é uma utopia

Sorrir de quê?

Lá piada, tem

Saber que agora estou, agora fui

E o que ficou?

Choros? Lágrimas?

Ou meio-sorrisos de idiotas chapados?

Riem-se de quê?

Olhem-se ao espelho e chorem

Chorem por serem o que são

Uns merdas que nunca dão a mão

Que fingem que sim, mas sempre não

Escarninhos, preconceituosos, mal-amanhados

De educação falhados

Uns tristes fados

 

Por isso chorem, que sorrir é uma farsa

Tal e qual o que criam, ou julgam alcançar

Que daqui seguem viagem

não um, mas todos

de mãos a abanar

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira (2023)

no fim

por migalhas, em 02.01.24

acabo de morrer

deixei de olhar, de ver

o meu pénis entesa-se na perspectiva de me sobreviver

é dor, é prazer

num duelo de forças que não permite saber

quem sobrevive, quem no fim irá perecer

 

pesado ficou o ar

assim a terra, fogo e mar

deposta a derradeira vontade

num augúrio de imparável mortandade

coisa cortante, matéria nefasta

que a todos arrasta

a todos dilacera, nunca pela metade

sem credo ou idade

qual canto do cisne

capítulo final

assunto encerrado

pena capital

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira (2013)

desespero

por migalhas, em 29.12.23

desespero

pelo que não vejo, pelo que não sinto

 

desespero

por esta névoa que tudo me oculta

me cala a voz e a visão impede

 

desespero

porque não te entendo, nem quero

porque vivo surdo e mudo e nunca acordado

porque não sinto outro estado que este de viver amarrado

mãos, pés, pensamentos

tantos os tormentos

que em mim habitam enclausurados

 

desespero

pelo que não se vê, não se sente

mas oprime, asfixia

subtrai vida a nascente, vida subtrai a poente

na maré cheia, na maré vazia

sem tréguas ou misericordiosa compaixão

desde a tenra hora, à hora de me unir a este chão

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira (2013)