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TUDO É ILUSÃO, DESDE O QUE PENSAMOS QUE PODEMOS AO QUE JULGAMOS QUE TEMOS.

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Fechar o ano e deitar fora a chave

por migalhas, em 31.12.25

Voltei a esquecer-me dos óculos para conduzir. Vejo tudo baço e acho que talvez nem seja dos globos oculares, mas do coração, que vem vindo a esquecer-se de amar, ultimamente. E também, ultimamente, nasceram-me tantos pelos pelo corpo, que pareço um macaco, como aqueles que se extinguem todos os dias e penso se me vissem nu o que achariam, pensariam: que besta ali vai, feia, agachada ao peso de tamanha imagem. Coincidência ou não, a verdade é que não me incomodo. Aliás, trocava cada pelo deste meu corpo embrutecido pelo retorno de cada espécie que, entretanto, se extinguiu desde o meu nascimento. Como se o facto de ter nascido tivesse contribuído para a extinção de tantas espécies, desde então. Que também sou homem e racional e dotado de tantas coisas, até de pelos, que dizem que nos distingue das outras espécies e, afinal, somos aquele único ser que se há-de levar à auto extinção, independentemente do quão ridículo isso possa parecer. Os peixes com escamas, os pássaros com penas, os automóveis com chassis e as florestas a perderem as folhas e as flores e os frutos, tudo porque são necessárias mais baterias de lítio e óleo de palma para as gorduras e doces que nos hão-de ser outro dos cancros desta sociedade moderna e tão incrivelmente consumista e ridícula, quando coloca na frente dos destinos das maiores nações os mais inacreditáveis líderes, que, ao pé de certos macacos, tanto teriam a aprender. A evolução (?) trouxe-nos até aqui. E nem veio de Uber. Ou, se calhar, sim. Trouxe-nos a este estado mais estúpido da humanidade, em que o Natal deixou de ser uma data celebrada em família, por volta dos finais do mês de Dezembro, para passar a ser uma comparação entre o que eu, logo ali em meados de Setembro, comprei para oferecer ou recebi desta ou daquela pessoa, tantas vezes por obrigação e sem qualquer outro sentido que o de mostrar que também posso ser um primor de ostentação, aos olhos dos que me queiram captar para posts ou stories, a publicar nas mais diversas redes sociais. Não admira que os estados depressivos sejam a cada ano tão mais significativos e fonte brutal de rendimento para aqueles outros que detém acções em banca das maiores e mais poderosas farmacêuticas. Sinais dos tempos, como os degelos, as tempestades, as inundações ou a quantidade de livros escritos pela prolífica Freida McFadden. Talvez por tudo isto, chegando a noite, fique a matutar se faz assim tanto sentido horas e horas de conversa sobre o estado do futebol nacional, pela voz e inteligência de painéis de criaturas reformadas dessa actividade, agora a encher chouriços a qualquer hora e em qualquer canal televisivo, a custo de orçamentos que dariam para amenizar as dificuldades de tantas associações culturais sem fins lucrativos.

 

Regresso à estrada e dou comigo sem os óculos para conduzir, que agora nesta idade me são impostos e me dão aquele ar de macaco todo aperaltado, quase inteligente, não fossem os impropérios que, num tão curto espaço de tempo, distribuo pelos ignóbeis e patéticos outros condutores que parece que conseguiram as respectivas licenças de condução num qualquer passatempo radiofónico a atirar para o pomposo. Somos muitos, somos demais. Em breve, nova pandemia há-de tratar de nivelar os números das populações e dotar este lixuoso planeta de espaço extra para os que consigam pagar os respectivos cuidados de saúde. Os outros, como este vosso macaco peludo, ficar-se-ão pela vã esperança de chegar-se ali à beirinha de um dos quatro cantos do mundo e atirar-se de cabeça para o espaço sideral, quem sabe se para ser recolhido por uma nave alienígena e levado para lá de Bagdad, onde, quiçá, possa recomeçar a sua vida por entre quem ache que tanto pelo no corpo seja uma virtude, vítima de causas naturais, e não um flagelo ditado pelos padrões de uma beleza já gasta e sem aparente razão de ser. LGBT e por aí adiante. Sensibilidades ao rubro. Tudo é um drama, tudo é discutível, tudo isto é o nosso fado. Esta é a era em que o que era, deixou de ser. Igualdade de direitos, punhos erguidos e aí daquele que se cale. É assim que hoje vale. Deixa-me é dormir sobre o assunto, que amanhã estou no turno da manhã e não me posso portal mal. Afinal, é de novo Natal e tenho fé. Mas se ela me faltar, tomo um café e não tarda estamos na Páscoa. Que das palhinhas à cruz é um tirinho e então por este caminho, vai lá, vai. Fui.

 

PS: Ano que vem volto. Mas também posso não. Vou pensar.

 

Miguel Santos Teixeira_2025

homem deste tempo

por migalhas, em 11.06.25

Vestes roupas emprestadas

de outras almas impregnadas

de suor, de pudor

de vestígios de um pó branco avassalador

 

em malgas de restos ressequidos, comes

ou sonhas que o fazes

procuras qualquer coisa que seja

na míngua da vida a que te entregaste

 

já não dormes, já só te encostas

os pés em ferida, as mãos gretadas

o cabelo desgrenhado

a vida em surdina

num espaço incerto e desolado

 

ao sol, ao relento, ao frio intenso

num vão de escada, à mercê da espada

à morte que te convoca em cada esquina

à tua sorte, homem deste tempo.

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira

 

Poema incluído na Antologia Poética "Pela Paz", editado em Maio de 2025.

Pela Paz. Antologia Poética.

por migalhas, em 01.05.25

CapaFrenre PAZ_FINAL (6).jpg

Vem aí novo livro, nova antologia de poesia em que volto a estar presente, desta vez com uma mão cheia de poemas.
Sob um tema cada vez mais pertinente e actual, a Paz serviu de fundo e de motivação aos autores que aqui quiseram deixar o seu contributo, a sua visão, a sua palavra por essa Paz, cada vez mais urgente.
Intitulada “Pela Paz. Antologia Poética”, será alvo de lançamento oficial ao vivo e a cores no dia 27 de Maio, às 16h, no Salão Nobre do Palácio da Independência, (Largo de S. Domingos, 11, Lisboa, mesmo ao lado do Teatro D. Maria II, no Rossio).
Quem quiser juntar-se à festa, será, certamente, muito bem-vindo.
Até lá!

Hoje

por migalhas, em 24.02.25

Hoje estou ainda mais perto.

Cumpri com mais uma jornada de tantos dias e vontades e sonhos e arrelias,

que também as há.

Hoje sinto-me mais além no tempo, percorridos tantos caminhos, reais, mentais,

alguns atalhos, que também os há.

Hoje sei que continuo um percurso, a que não vislumbro o horizonte, mas avanço,

com mais, com menos, com o que me for sendo possível dar e, no processo,

em troca receber.

Hoje, sou mais eu.

Sinto-me mais em sintonia com algo que não sei expressar, mas que me soma mais identidade.

Hoje, com mais idade.

Amanhã, depois e depois, sem pressa, mas a cada dia mais alinhado com um destino que me constrói,

alicerça e desvenda ao mundo.

Assim me vejo e sinto.

Hoje.

sei-lhe o fim

por migalhas, em 14.02.25

De que me serve dar-lhe início

se já lhe sei o fim?

Começa no zero, acaba no nada.

Ou antes ainda, para se precipitar num depois inexistente.

O que antes havia, depois haverá

sobrevivendo a cada novo começo e ao abismo em que cada um se precipitará.

Esta é a contabilidade, a realidade

insignificante e tão, mas tão, vazia

que não vale um sopro, não vale nada

onde começa e onde acaba.

Agora vês-me, agora já não.

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira (2023)

sem culpa e sem idade

por migalhas, em 12.02.25

enquanto dás like àquele outfit

com um emoji avalias aquela receita

e de caminho tiras uma selfie à porta do café chique onde vais amiúde

caem bombas, drones explodem, rajadas de metralhadora despedaçam destinos

sem aviso, sem piedade, sem do trigo separar o joio dos inocentes

dessas crianças que sonhavam ser como tu, linda e feliz nessa selfie que a seguir partilhas com os amigos

amigos vivos, abençoados por estarem do lado de cá

que do outro lado deste mesmo mundo, teu e deles

as crianças que sonhavam ser como tu não têm esse direito

apenas a morte escrita no peito

sem culpa e sem idade

por entre os escombros da sua cidade

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira

 

Poema incluído na Antologia Poética "Pela Paz", editado em Maio de 2025.

Apenas

por migalhas, em 10.02.25

Aqui dormes,

descansas,

sob este sol abrasador que te toca e sente,

assim, indiferente.

Porque dormes e apenas sonhas.

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira (2023)

Cautela

por migalhas, em 07.02.25

tu, que vais formosa e segura

carne exposta aos sete ventos

tem cautela na próxima esquina

dessa rua a que chamas tua

 

é que o mundo mudou

e a cobro da hora de inverno

olhos gulosos seguem essas tuas verdes curvas

esse teu sorriso lindo e inocente

que não sabe nem sonha

o que o espera lá mais à frente

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira (2023)

derradeira voz

por migalhas, em 04.02.25

também sei ser bruto, primário, ordinário

selvagem de duvidosos costados

que afloram a espaços

numa raiva tal, que nem água vai

 

é um estado que me deixa alterado

na hora em que me toma os colarinhos deste cavalheirismo esgotado

para cavalgar a ira que nele se esconde

sem ponta de vergonha, para mal dos meus pecados

 

aguardar já não é solução

a esperança fez as malas, emigrou

esta pólis está inquinada

às mãos sujas de governantes corruptos

num vício crescente de poder maligno

levado à cena em orgias escancaradas

 

mas cuidado, ó ditadores!

que os quase descrentes, no limite

espezinhados e já moribundos

também se elevam, revoltam e sabem ser brutos, primários

neles aflorando a besta feroz, sua derradeira voz.

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira (2023)

Asco

por migalhas, em 16.01.25

Que asco!

Que país este, ao que ele chegou.

Envergonha-me, dispõe-me mal, a mim e a milhões como eu

que num bote sem remos, que afunda a pique

enojados existimos, uns sobre os outros

em vielas e ruas que nem espaço possuem

comprimidos pela carga que pressiona e asfixia

a fiscal, a manipuladora, a ditadora

que se banha numa corrupção activa, a que assistimos de forma passiva

num país que já foi tão enorme

e que agora apenas dorme

ressona alto e arrota as memórias dos banquetes esbanjados com o dinheiro que é do estado

que é nosso

mas que nas mãos porcas e sôfregas das víboras no poder

ao povo deixa neste estado

sem casa, sem comida, sem condições para viver.

 

Vamos a sobreviver

até quando, vá-se lá saber!

Que asco!

Que país este, ao que ele chegou.

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira (2023)