Refugiadas
Seguem-se numa fila silenciosa
Unidas pelo destino
Travessia de vida que parece não ter fim
Sem poiso ou descanso do corpo
Todas por igual, a sofrer do mesmo mal
Arrastam-se, como seres que já morreram
Como trapos que o vento leva a seu belo prazer
Farrapos de gente que de gente já nem memória
Vão por que sim, sem saberem para onde
Que o porquê há muito esqueceram
Fome, sede, angústia
Frio, cansaço, desilusão
Já nem pestanejam, já não pensam
Conformadas em fila seguem
Mães e filhas e filhas sem mães
Desgovernadas
A esta vida agarradas, por pinças
Avançam, mas é para trás que ficam
As memórias, quem eram
as cantigas, com que um dia adormeceram
As mesmas que cantaram de cor
As alegrias, se é que as tiveram
Estas refugiadas sem terra
Sem eira nem beira
Ao Deus dará
houvesse um Deus que lhes apontasse o caminho
© Copyright Miguel Santos Teixeira (2024)