Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

100Nexus

TUDO É ILUSÃO, DESDE O QUE PENSAMOS QUE PODEMOS AO QUE JULGAMOS QUE TEMOS.

facebook

voar

por migalhas, em 11.04.24

voava alto, se pudesse

ia para lá de onde se esquece

e fazia ninho, mas sem me quedar

que o que eu quero é voar

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira (2024)

honestidade

por migalhas, em 08.04.24

a honestidade não se compara à chuva

embora eu a dance sempre que a sinto

a celebre como bênção herdada do fel

da dor que dói de todas as vezes que te minto

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira (2024)

verso sem nexo

por migalhas, em 04.04.24

nas asas daquelas famigeradas linhas

escrevi-te um verso sem nexo

que nunca sequer te vi

nem de longe

menos ainda de perto

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira (2024)

Dia Mundial da Poesia

por migalhas, em 21.03.24

alma de poeta

 

a poesia

na boca do poeta

do ser sofrido ou de coração partido

todo ele por arames

preso às palavras, à sua fúria e encanto

no espanto, na dor, num estado predestinado

uma voz que se convoca

que quando fala, choca

que é gume de faca, de espada

afiada lâmina que ama o sangue e deseja vê-lo jorrar

para depois se deitar a chorar

pobre alma

tão exausta desta vida nefasta

a vida do poeta

a desgraça que o abraça

ele é de nada e nesse nada se eleva

sobe à lua e volta

percorre universos e espaços infindos

habita seres e veste personagens

usa after shave e saias travadas

escreve como vomita e nele tudo é indigesto

vive cansado e cansado de viver, sufoca

com as palavras que verte de um trago

e o deixam ainda mais inconformado

pobre alma

a do poeta

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira (2024)

(in)existente

por migalhas, em 15.03.24

nem sei que restos são estes

que nem ossos, que nem espinhas

sobras de um dia, de todos

que me enchem de uma monotonia

de uma intensa tristeza no vazio que são

como o estômago em fome

como o riso disforme

como nada, que nada se perfaz

e que arrasto preso a correntes

preso nesta existência de nula consistência

que não a previ assim

fria, indiferente, uma assombração pendente

na pele deste fantasma que sou eu

num manto de invisibilidade que me oculta desta selva

bendita sejas pelo mal que fazes

que em mim é o bem que sabes

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira (2013)

ecos colossais

por migalhas, em 11.03.24

o céu fechou-se, cerrou fileiras

as suas pesadas pálpebras

e precipitou-se

sobre os indefesos, amedrontados

 

zangado, antes berrou, soltou toda a sua fúria e estalou brutal na vastidão abissal

ecoando seco e ameaçador

sobre os incautos, pecadores

 

irou-se e tudo alumiou na noite que impôs, então compôs, a seu tempo, compassada, a seu jeito, cerrada

 

e sobre todos se lançou

na brava impetuosidade do seu ser

a todos enlaçou

na prepotência do punho ditatorial

brotando salvas que ressoaram pelos confins do seu reino

qual homenagem fúnebre a um herói nacional

espezinhado a seus pés, impotente

qual castelo de areia

indefeso animal

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira (2013)

Dia Mundial da Mulher

por migalhas, em 08.03.24

femina

 

ela, femina

mãe de todos

deles, delas, das outras mães

carregam a vida, são vida

dão-na, perpetuam a espécie

numa espécie de força avassaladora

nos modos como intentam e se mostram deusas

uma basta por todas, mas todas são o mar inteiro

céu, terra, ar e fogo

que vem lá bem do fundo

de tempos infindos

de peitos sofridos, gargantas roucas

punhos erguidos na luta

nas conquistas, na esperança por outras

nessa mulher que existe em cada um de nós

ela, femina

deusa, nossa mãe.

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira (2024)

tu, que do amanhã nada sei

por migalhas, em 07.03.24

não sei o porquê de seres tu

entre incontáveis figuras

frágeis e tão pequeninas

a brincarem às vidas neste lar pedregoso

a olharem o céu à noite e a depositarem desejos numa singela estrela

a rezarem para que assim, por mim, por este e por aquele

na ilusão de um amanhã a todos omitido

revelado ao minuto, nunca de véspera

 

e logo tu, de entre tantas respirações que se sustêm

como sementes, miraculosamente germinadas

como folhas, de verdes a douradas

num ciclo de vida que nos leva a galope

por entre dias céleres e afazeres sem conta

ele que nunca faz de conta, sempre se perfaz depressa

que a sua missão é essa

passo estugado, olhar adiantado

numa cilada que a todos deixa asfixiados

por ele rodeado, a toda a volta, por todo o lado

a cada espaço mais e mais mirrado

e menos uma hora

e lá se foi outra aurora

 

e tu, de entre todos estes crono serviçais

filhos de uma rota pré determinada

toalha ao chão e nada mais

impassível, num olhar que se demora

eternizado neste que sou agora

que amanhã não sei                              

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira (2013)

nasci faz tempo

por migalhas, em 24.02.24

hoje faço anos

nasci faz tempo e nem dei por ele, entretanto

aqui cheguei, qual naufrago

para a missão que me foi atribuída

sem roupa ou noção, logo chorei

como que a prever

 

dei os primeiros passos e fui andando

e nem dei por aquilo que andei

era tudo mais fácil, era um mundo adiante

eram sonhos e ambições

era uma vez, como nas histórias

 

e hoje faz anos que aqui cheguei

o naufrago envelheceu

a ilha como que encolheu

e com ela o tempo

e a distância que falta andar

 

hoje já sei andar, mas tropeço de vez em quando

já sei falar, mas evito-o

já me canso e sinto o avanço

disfarço este aperto e dou por mim a recuar

a recordar

de novo a chorar

será por que nasci faz tempo?

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira (2024)

contra tempo

por migalhas, em 20.02.24

no sepulcral cair da noite

no tumulto que se queda e finda

no silêncio que se apraz agradado

neste fim que aqui jaz agendado

até novo ciclo de tudo de novo

e de nada que se compadece

na orla de um céu que nunca entristece

jamais envelhece

apenas se ergue e deita

se acende e ofusca

na sequência que são os dias e as noites e o tempo

que corre lesto, na pressa de se fazer maior ainda

de tanto que já é e tem

que nem a memória nem ninguém

para lhe dizer basta

são horas, mas de te acalmares

de esse ímpeto furioso refreares e simplesmente apreciares o que são os teus filhos

minutos, segundos

escassas parcelas que de ti se perfizeram

mas que agora somente esperam

por um singelo momento de contemplação

de uma pausa na quietude destas planícies sem fim

onde parar não é morrer

onde tudo se remete à expiação

impassível face ao perdão

impossível

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira (2013)