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TUDO É ILUSÃO, DESDE O QUE PENSAMOS QUE PODEMOS AO QUE JULGAMOS QUE TEMOS.

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Ao retardador – génese

por migalhas, em 12.02.24

Ao retardador

As folhas da vida assim avançam, embaladas pela brisa de final de tarde

Duas adiante, uma de quando em vez atrás a recuperar memórias quase perdidas

Sobre um pequeno banco, estrutura de madeira, assento de vide

Um breve e merecido repouso

Um recuo ao que foi

Em tempos que não voltam mais

Senão numa folha que volta atrás

A recuperar o que não quer ver esquecido

No curso inverso do tempo

Força em contramão

Num leito de águas revoltas

Fugaz deleite pousado naquele dente de leão

Que segue por que empurrado

Ele adiante, até que travado

No seu voar encantado

Qual vida que segue perplexa a reboque do tempo

E nele se materializa

Nele se realiza

Nele se avista ao longe

E um dia se precipita num regresso que jamais

Tarde demais

Tudo esquecido

Perdido

Ao retardador

Até que o fim

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira (2013)

na enormidade do que é EFÉMERO

por migalhas, em 06.02.24

capa_enormidade.png

Esta é a minha mais recente edição de autor. Um pequeno livro que reúne alguma da obra poética por mim produzida nos últimos anos, devidamente "ilustrada" por outra das áreas artísticas a que me dedico amiúde, a colagem.

Se pretender adquirir um exemplar desta peça de arte única e irrepetível, a mesma tem o custo de 10€ + portes de envio e pode encomendá-la directamente a mim em resposta a este post.

 

Dia Internacional do Riso

por migalhas, em 18.01.24

Sorrir é uma utopia

 

Sorrir é uma utopia

Sorrir de quê?

Lá piada, tem

Saber que agora estou, agora fui

E o que ficou?

Choros? Lágrimas?

Ou meio-sorrisos de idiotas chapados?

Riem-se de quê?

Olhem-se ao espelho e chorem

Chorem por serem o que são

Uns merdas que nunca dão a mão

Que fingem que sim, mas sempre não

Escarninhos, preconceituosos, mal-amanhados

De educação falhados

Uns tristes fados

 

Por isso chorem, que sorrir é uma farsa

Tal e qual o que criam, ou julgam alcançar

Que daqui seguem viagem

não um, mas todos

de mãos a abanar

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira (2023)

desespero

por migalhas, em 29.12.23

desespero

pelo que não vejo, pelo que não sinto

 

desespero

por esta névoa que tudo me oculta

me cala a voz e a visão impede

 

desespero

porque não te entendo, nem quero

porque vivo surdo e mudo e nunca acordado

porque não sinto outro estado que este de viver amarrado

mãos, pés, pensamentos

tantos os tormentos

que em mim habitam enclausurados

 

desespero

pelo que não se vê, não se sente

mas oprime, asfixia

subtrai vida a nascente, vida subtrai a poente

na maré cheia, na maré vazia

sem tréguas ou misericordiosa compaixão

desde a tenra hora, à hora de me unir a este chão

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira (2013)

Projecto/performance "Na alucinação que é cada viagem": Texto 5. Vamos a encerrar

por migalhas, em 27.10.23

Vamos a encerrar

 

E agora vou

e agora vamos, a encerrar

artistas de alma, de coração, eu e ele

eu, o falador, de cola e tesoura na mão

ele, meu irmão, que na guitarra encontrou a sua imensurável paixão

 

Dedilhamos temas e mundos paralelos

cortamos, encurtamos, estendemos, recompomos

não contentes, regravamos, camada sobre camada

nesta terra fértil, neste mar gigante

ao sabor de marés, de ventos e luas

da vida que verte límpida do ventre das ninfas nuas

 

Aqui moramos, mas é noutra realidade que habitamos

eu, alucinado pelas colagens

pelas viagens vividas nas milhentas mensagens

ele, pelas cordas enfeitiçado

as que acima abaixo percorre

numa ânsia, numa fome

que não se explica, que não tem nome

nem precisa

pois responde ao silêncio, à bravura das palavras que nas escarpas mais fatídicas se arriscam a viver

numa força e num querer

que só quem, como eu e ele

pode entender

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira (2023)

Projecto/performance "Na alucinação que é cada viagem": Texto 4. Mar de gente

por migalhas, em 26.10.23

Mar de gente

 

há um mar de tanta gente

gente indiferente, gente impotente

gente imensamente descontente

gente demente

e que mente

com quantos dentes ostenta

que nem oito nem oitenta

nesta praça pública

nesta pública roleta

que ao som da trompeta

tocada a rebate

bate e foge

da mão morta que já nem encontra a porta

entre este mar revolto

de tanta gente dormente

aos céus e à terra temente

consumida por esta cinza inclemente

gente que já nada crê ou sente

hoje, agora, neste momento presente

amanhã, adiante, para todo o sempre

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira (2023)

Projecto/performance "Na alucinação que é cada viagem": Texto 3. Na alucinação que é cada viagem

por migalhas, em 25.10.23

Na alucinação que é cada viagem

 

há uma fuga que se escreve

não planeada, inconsciente

mas que está lá, em cada viagem

em cada ida, a anteceder a partida

que fervilha, ganha vida e é combustível que me inflama de vontade

 

há uma fuga que me enlaça

me arrasta caminho fora, me atira para diante

me faz sonhar com amanhãs perfeitos, lá, para onde vou

de que o check-in é apenas preâmbulo

 

há uma fuga que me alucina

me engana a retina e tolda a vida, deixando-me em pausa

num limbo que visto como roupa de Domingo

tão lindo, tão imaculadamente feliz

tão embevecido com a vista daquele quarto impessoal de hotel

para onde, nem sei

mas é o que sempre quis, desde que aqui cheguei

 

Esta fuga, que me rouba à rotina

Que me distrai de quem sou a cada dia

Chama-se viagem ao mundo das alucinações

Sim, se calhar é uma droga, um alucinogénio à mão de semear

Se tiver dentes ou unhas para o tocar

 

Que depois há o voltar

Pés na terra, mãos ao ar

Que este sou eu

Não há volta a dar

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira (2023)

Projecto/performance "Na alucinação que é cada viagem": Texto 2. O processo

por migalhas, em 24.10.23

O processo

 

Papel, tesoura e cola

assim ou por outra ordem

na desordem que é cada empreitada

na maioria das vezes demorada, lânguida e preguiçosa

que se demora a mostrar ao que vem

 

É matéria-prima que me serve os intentos

de criar uma teia de imagens retalhadas

de imagens fraccionadas, remendadas

que pela minha mente processadas, retornam assim, recriadas

 

É nestas alucinantes deambulações

que empreendo a fuga ao que me é comum

ao tédio da rotina, ao que me fere a retina

em partidas não planeadas, visceralmente desejadas

 

num abraço apertado

com que enlaço cada quadro

cada viagem para lá do universo

vou eu assim, alucinado

em paz com este meu fado

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira (2023)

Projecto/performance "Na alucinação que é cada viagem": Texto 1. Retalhar

por migalhas, em 23.10.23

Retalhar

 

Retalhar

Na mesma proporção, existir

Aos pedaços

Ou por inteiro

Que a soma das partes ainda acrescenta

 

Retalhar

Cortar em fragmentos

Grandes, pequenos, que o tamanho aqui é pormenor

Da dimensão que eu o quiser

 

Parcelar

É vida que se antevê em cada porção

De papel, de cartão

Um imenso mar adiante

Ou então não!

Apenas má sorte e a inevitável morte

Com ela para o caixote!

 

São retalhos

Aquilo que são

Que colados contam outra história

Nem melhor, nem pior

Diferente

Apenas outra

Nascida da lâmina que assim a concebeu

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira (2023)

onde fui

por migalhas, em 25.07.23

Se tudo se fundisse num só

Se céu e terra confluíssem num único ponto, nem perto nem distante

Se a luz tremeluzente desta vela que me alumia fosse foco de inspiração

Ou se o mar que morre na praia fosse seu reflexo  

Que uma caixa não é apenas uma caixa

Pois que ela é liberdade, quando se abre e expande vontade

Qual manto ao vento

Qual desejo ou intento

Qual majestosa força que num sopro se ergue e num respirar se esvai

Que eu aqui nada sou

Se bem que vejo ser

Tudo num instante fugaz

Num bater de asas que revolve o mundo

Aquele onde fui

Um dia há muito tempo atrás

 

© Copyright Migalhas (100NEXUS_2013)