por migalhas, em 02.10.25
Tem gente que diz que sabe
Tem gente que diz que ouviu
Tem gente que não sabe a idade
Daquela gente que diz que viu
Quem sabe assim seja
Quem sabe assim se manifeste
Pois aquilo que mais se almeja
Esconde-se para lá deste azul celeste
© Copyright Miguel Santos Teixeira (2024)
por migalhas, em 26.09.25
De olhos fechados e sem roteiro
sigo o caminho que me conduz à lembrança
essa balança, esse presente
quiçá envenenado, amaldiçoado
pelo que hoje sustenta e me relembra
a toda a hora, a todo o dia
e que chegou a ser alegria
há escassos minutos atrás
que o tempo é quando ele nasce
e pela mão leva a criança
que veloz voará na esperança
até adulta, até velha que nem um trapo
então apenas farrapo
entregue às mãos de uma memória
tão breve quanto esta história
© Copyright Miguel Santos Teixeira (2024)
por migalhas, em 23.09.25
Lá o mar é mais belo
Ainda mais
Lá o céu é mais amplo
Ainda mais
Lá o espaço é mais infinito
Mais ainda
Lá, onde só tu e eu nos revelamos
Ainda mais unos
E a cobro dos demais, nos amamos.
© Copyright Miguel Santos Teixeira (2024)
por migalhas, em 19.09.25
Fim-de-semana à porta
dou a volta ao regresso a casa com uma furtiva visita ao bar
um copo, para começar, que a noite ainda é uma criança
criança que cresce, quantos os brindes que me merece.
Entretanto, já adulta, senta-se alheia ao balcão
tomou o gosto à bebida, quiçá para se furtar à solidão
balanço ao erguer-me, para lhe estender a mão
mas não cedo, não, que cair é para os fracos
ou de quem não fica memória
que em cacos não somam história.
Ainda aguento mais uns quantos
entre risos e conversa de ocasião
olhares desesperados, corpos desamparados
nos despojos do que ficou no colchão.
Mais uma bebedeira, mais um prego no caixão
mais um affair de uma só noite duvidosa
na manhã que se ergue nebulosa, ruidosa
sem nomes ou outras escusadas intimidades.
Não mais que um “até qualquer dia”
a boca seca, a mente vazia
que já não me lembro de onde te trouxe
ou aquilo que, então, sentia.
© Copyright Miguel Santos Teixeira (2024)
por migalhas, em 16.09.25
Finalmente, fim-de-semana!
Pausa na rotina, laboral, asfixiante, brutal.
Com sábado no horizonte, posso, finalmente, relaxar de papo para o ar, cerrar as pálpebras e, em sonhos, viajar.
Divagar, descansar, mas não em demasia, que, a cobro dessa letargia, também se morre nestes dias.
© Copyright Miguel Santos Teixeira (2024)
por migalhas, em 14.09.25
A que sabe o amor?
Nesta época ou em qualquer outra
és a estrela, daqui te alcanço
com o olhar te sigo, com os lábios te beijo
junta-te a mim, neste ensejo primário que me conquistou
a visão de ti aí
fugaz luz que alumia e pelas trevas me guia
não fosse esse amor
e o que seria de mim
© Copyright Miguel Santos Teixeira (2025)
por migalhas, em 12.09.25
Nas contas deste velho Rosário
não entra em conta a minha dor
que é diversa da da minha vizinha
ou de demais gente assim mesquinha
Nas contas deste velho Rosário
não encontro resposta às minhas preces
não há espaço ao mais singelo consolo
nem luz que me alumie o caminho
Nas contas deste velho Rosário
vejo portas que se fecham
portadas cerradas
um sem número de barricadas
que calam o direito à indignação
Nas contas deste velho Rosário
já não se assiste à discussão
sequer se ouve a insatisfação
desiste assim, o pecador
subjugado ao peso dessa altivez
como se de uma ditadura
que lhe abafa a voz de vez
Nas contas deste velho Rosário
tudo o que era, morreu.
© Copyright Miguel Santos Teixeira (2023)
por migalhas, em 08.09.25
quem desdenha dessa dor que em ti se entranha
mas que escondes num sorriso pardacento
é quem não te sabe
é quem te inventa e te tenta
te segreda a ilusão disfarçada
como essa tua dor tão clara e tão óbvia
que teimas em recusar
não a maquilhes, não a penteis
não a cubras de adereços sem alma
que ela ainda assim fala
as palavras que mais custam a ouvir
na verdade de quem sabe
aquilo que te esforças em ocultar
de dia ao sol, à noite ao luar.
© Copyright Miguel Santos Teixeira (2023)
por migalhas, em 04.09.25
a luz seguiu-te
desde que aquela porta atravessaste
rumo à noite escura
à brandura da fúria que transportaste
num fôlego vi-te partir
e nem me mexi
deixando-te apenas ir
sem malas, sem bagagem
só a tua imagem
na tremura da chama desta nossa aventura
num breve bater de asas
© Copyright Miguel Santos Teixeira (2023)
por migalhas, em 11.06.25
Vestes roupas emprestadas
de outras almas impregnadas
de suor, de pudor
de vestígios de um pó branco avassalador
em malgas de restos ressequidos, comes
ou sonhas que o fazes
procuras qualquer coisa que seja
na míngua da vida a que te entregaste
já não dormes, já só te encostas
os pés em ferida, as mãos gretadas
o cabelo desgrenhado
a vida em surdina
num espaço incerto e desolado
ao sol, ao relento, ao frio intenso
num vão de escada, à mercê da espada
à morte que te convoca em cada esquina
à tua sorte, homem deste tempo.
© Copyright Miguel Santos Teixeira
Poema incluído na Antologia Poética "Pela Paz", editado em Maio de 2025.