TUDO É ILUSÃO, DESDE O QUE PENSAMOS QUE PODEMOS AO QUE JULGAMOS QUE TEMOS.

24
Set 07

Lá fora a chuva voltava a mostrar aquilo de que era capaz. Intensa, sonora no seu embate com pedras e folhas que recebiam agraciadas cada gota pesada. A parte. As várias partes que, juntas, perfaziam aquele manto cerrado que se abatia sem ponta de misericórdia sobre cada elemento a si exposto. Elementos da natureza em confronto directo, com clara vantagem para o que se precipitava das alturas a mando de um santo a quem chamam Pedro. Os caudais de rios e ribeiras vizinhos avolumavam-se assustadoramente, prestes a banharem para lá das margens a que se deveriam, por norma, limitar. As zonas ribeirinhas, essas eternas vítimas dos primeiros exageros de pluviosidade, davam mostras de nova repetição de histórias antigas. De memórias que sempre se renovavam de cada vez que a água era assim, em excesso avassalador. De cada vez que resolvia mostrar a sua fúria e provar, a quem ainda duvidasse, que era a ela que deviam veneração, pois ela tudo podia e a ninguém devia explicações ou justificação alguma sobre aquilo a que se propunha. Ultimamente parecia estar de facto enfurecida com algo. Zangada, irada, a responder a troco de alguma que lhe haviam feito e à qual, certamente e a ver pela vingança, não achara a mínima piada. Mas o quê? De que se queixava ela? Bramavam já exaustas as populações, incapazes de entender por que eram elas constantemente açoitadas, vergastadas, fustigadas por semelhante castigo, numa pena da qual não conheciam o crime que lhe estivera na origem. O isolamento adivinhava-se. Mais meia hora com esta intensidade e de novo estariam sem possibilidade de contacto terrestre com o resto do mundo. Terras deslizavam em cascatas de lama que tudo levavam na frente, barreiras sempre inúteis eram facilmente derrubadas face à força em crescendo daquela reunião de águas das mais variadas proveniências. As ruas deixavam de o ser, as casas eram invadidas na sua privacidade, o “salve-se quem puder” era agora palavra de ordem entre os que adiavam a partida até perto dos limites possíveis. As equipas de salvamento haveriam de voltar a resgatá-los e a adiar uma vez e outra o que parecia querer ser inevitável um dia. Rés-do-chão algum era poupado à imagem de pertences vários boiando, de móveis, antes pesados, agora facilmente arrastados pela casa rumo a uma mudança de posições involuntária. E os prejuízos. Esses sempre consequência de cada nova intempérie. Incalculáveis, invariavelmente incalculáveis. Tudo se perdia para de novo se vir a recuperar. Um ciclo que se fechava, abrindo portas a outro cujo desfecho não se previa muito diferente do seu antecessor. Era assim a vida de quem por aqui a resolvera fazer. Numa espécie de fardo a que estavam destinados desde o dia em que ali se instalaram. Uma cruz que teriam de carregar sempre e para sempre, penosamente, sempre tementes a ela, à sua ira implacável, à sua faceta mais punitiva.

publicado por migalhas às 11:00

Bolas! Deves estar c saudades do inverno.....
Ana a 24 de Setembro de 2007 às 15:17

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