TUDO É ILUSÃO, DESDE O QUE PENSAMOS QUE PODEMOS AO QUE JULGAMOS QUE TEMOS.

19
Abr 07

Pela nesga de espaço deixada na parede por aquela estreita abertura, constantemente atravessada por pratos, travessas, talheres, todos usados de refeições recentes, consegui distinguir-lhe o tónus da pele. Braços fortes, mãos a condizer, escravos daquele tom escuro que a levou ali, aos bastidores da vida que se vive passada a espessura daquela parede que lhe serve de muro. Fosse o seu tom de pele outro e estaria ela ali, na face obscura da existência? Pois que deste lado de cá, não vejo senão caucasianos, seja a servir, seja a beneficiar desse serviço simpático, acolhedor, interesseiro no seu sentido comercial. Quero crer que a cor aqui não interferiu na sua escolha para todo o dia levar as mãos negras ao fundo daquele alguidar de água acastanhada, para dele recolher facas, garfos, colheres. Que não esteve na base da sua selecção para lavar cada travessa gordurosa, cada prato ainda com resquícios do que terá sido banquete com que nunca se irá deliciar. Ali escondida da vida, repõe a ordem inicial de cada prato, travessa, talher. Volta a ressuscitá-los para nova série de tarefas que, incansáveis como ela, desempenham sem contestação. Pessoas entram, pessoas saem e ela ali se dedica à missão para que um dia nasceu. Mal sabia ela. Quem sabe seja feliz com o simples facto de todos os dias ali poder sentir-se útil. Mas a troco de quê? De um mísero pagamento, sempre escasso ao fim de cada mês? Sem uma palavra de apreço, de motivação, pois que não se concebe nenhuma possível face às tarefas que desempenha. Olhei-a por breves instantes e pensei no que será a sua existência. Nunca a tinha observado e nem sequer desconfiava da sua presença naquele minúsculo espaço. Ou da sua essencial tarefa para o normal desempenho do restaurante que serve. Talvez ao fim do dia saia da toca e sonhe em viver por instantes do lado de cá. Ou simplesmente regresse a casa sozinha e lá repita o que todo o dia fez, mas para os outros. Até pode ser que seja feliz, mas não pude deixar de pensar se será realmente assim. Se aquilo que ali presenciei terá sido apenas mais um capítulo, mais uma vida, mais uma alma aguardando por melhores dias.

publicado por migalhas às 19:25

Pois é, é triste constatarmos q nem damos pela presença de muita gente q desempenha uma tarefa para nós..... por isso faço questão, por exemplo, de cumprimentar e agradecer ao empregado que me traz o café, de dar os bons dias à Sra q lava a escada, etc. às vezes é o suficiente para alegrarmos o dia de alguém.
Ana a 20 de Abril de 2007 às 16:20

Realmente a vida é uma constante lição. Quantas vezes nos lamentamos do (muito) que temos, esquecendo o quão previligiados somos. Estou certo que nesse dia, escreveste headlines e bodycopy's com muito mais prazer!
;o)
Abraço!
Marco a 20 de Abril de 2007 às 19:31

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