TUDO É ILUSÃO, DESDE O QUE PENSAMOS QUE PODEMOS AO QUE JULGAMOS QUE TEMOS.

24
Abr 06

Locais antes povoados, por milhentos pés pisados, jazem hoje esquecidos, por todos abandonados. Quem os viu, repletos de vida, animação, festa e alegria, não entende como podem ser agora apenas uma ténue imagem do passado. Olhá-los na sua tristeza, ar infeliz de quem se viu remetido a uma insignificância antes julgada impossível, é sentir um nó no estômago, um aperto no coração, uma sensação de perda difícil de explicar. Estruturas que mantêm a sua solidez, mas que perderam a altivez de então, como num passe de mágica barata. Repousam agora como fantasmas, que sob uma bruma ausente se escondem dos olhares que antes se deslumbravam com a sua presença. Os dias de glória já lá vão, bem como o apelo de que eram portadores. Esbatidas as horas de reboliço e procura incessante, resta-lhes agora a brisa do mar ou um vento mais forte que lhes corrói o tutano, expondo os primeiros sintomas de uma demência que se sente. Vergam-se à evidência de que não mais viverão dias de excelência, dias de glória, dias em que foram grandes, deuses e senhores que no seu seio reuniam multidões e delas o seu consenso. Agora apenas estão. Ao abandono, ocupando o espaço físico que lhes foi atribuído e sobre o qual viveram o que nunca mais experimentarão. Como num imenso cemitério, são lápides sem qualquer referência, corpos sem identificação, restos mortais isolados, não mais que despojos de dias que não voltam mais. Meras sombras reflectidas no chão poeirento, clamam por justiça num grito mudo que se confunde com o vento. Há quem jure ouvir-lhes clamar de quando em vez, no breu assustador que de si se apossou. De guincharem a morte anunciada e dela se tentarem abstrair, num derradeiro esforço de se imporem face ao estado moribundo que já denotam e de onde lhes é agora vedada a saída. Açoitados pelo frio de um fim de tarde de inverno, cada estrutura, cada peça, solta à sua maneira o queixume de quem não quer morrer sofrendo, de quem não planeara este o seu destino. Dá dó vê-los vergar ao peso do correr do tempo. Sem que nada o fizesse crer, ali vão ficar, doentes até morrer.

publicado por migalhas às 17:10

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