TUDO É ILUSÃO, DESDE O QUE PENSAMOS QUE PODEMOS AO QUE JULGAMOS QUE TEMOS.

29
Dez 05
Bom era que em certos períodos da nossa vida nos fosse permitido ausentar. Desaparecer, nem que fosse por um instante efémero, como tudo o resto. Cortar a ligação que nos prende ao mundo visível como um cordão umbilical e durante algum tempo abstrairmo-nos do que somos e, por conseguinte, do que nos rodeia e enlaça como uma teia. Vaguear pelo limbo apenas das recordações boas, das memórias doces e por lá ficar até ao limite do possível. Ser implica estar. Estar implica agir. É-nos pedido que sendo, ajamos. Que marquemos presença, definindo território. Mas quantas vezes não queremos ser, estar, agir ou mesmo sentir. Apenas preenchidos por uma vontade férrea em partir, sem a preocupação premente de logo pensar em regressar. Dominados por uma força que não controlamos e nos obriga a desfrutar do momento em que somos relegados para fora do círculo de todos os dias. Numa viagem por um espaço e tempo indefinidos, que não se sentem mas, sequiosos, sugam-nos mente, corpo e alma, deixando-nos vazios e por norma leves, como uma folha caduca que baila ao sabor da brisa que passa a ser nosso único alento. Podia ser apenas e só um momento. Que embora breve fosse apaziguador e nos fizesse regressar à terra de pazes feitas com quem somos ou nos exigem que sejamos. Bastaria que o mundo parasse de rodar, de girar sobre o seu eixo e tudo se imobilizasse em resposta aos nossos desejos. E que, retomado o seu ritmo, nos encontrasse então já renascidos para a vida que nos segue e exige presença constante a cada segundo que passa. Recauchutar a vida, é o que se pede. Para que ela se prolongue sem ser um fardo, mas sempre um prazer. Para que os dias não se arrastem, antes se anseiem novas alvoradas. Para que a estada seja um longo passeio pelo parque e nunca uma corrida furiosa e sofrida. Parar é preciso. Moderar a avidez com que se deseja tudo a todo o momento. Não somos de ferro, mas mesmo que o fôssemos arriscaríamos a enferrujar um dia. Desde que nos acendemos que o mais certo é um dia apagarmo-nos. Não nascemos com interruptor, mas devemos calcular pausas e cumpri-las. Porque é necessário, porque é essencial. Às vezes largar amarras, libertarmo-nos, é quase uma exigência. Como o é o respirar, o alimentar, o amar. Não fosse a existência um equilíbrio, que só não é perfeito porque assim não o equacionamos.
publicado por migalhas às 15:09

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