TUDO É ILUSÃO, DESDE O QUE PENSAMOS QUE PODEMOS AO QUE JULGAMOS QUE TEMOS.

23
Mar 06
De há uns tempos a esta parte, tenho vindo a aperceber-me de forma ainda mais intensa de que os meus dias são sempre iguais. Quer dizer, não o são integralmente, todas as suas 24 horas, mas são-no na sua grande parte. Todos os dias acordo já com sono, pois voltei a deitar-me na véspera para lá da uma da manhã, horário que não consigo evitar por força do banho e alimentação da minha filha. Sigo para a casa de banho pé ante pé, para não acordar as duas mulheres com quem partilho agora o meu quarto, e lá chegado vejo-me ao espelho com aquele mau aspecto recorrente. O que se segue é um dejà vú continuado, que se prolonga para a área da cozinha, onde como qualquer coisa a correr para tentar sair de casa a horas de evitar o maior afluxo de trânsito. Nunca consigo. Mal saio e ando meia dúzia de metros, já estou a curtir a fila que se perde de vista e que quase me faz perder a compostura. Praguejar já não adianta, suspirar também não e já nem a música me serve de consolo. Apenas me embala o início de mais um episódio que se repete há temporadas demasiadas. Depois ouço as notícias do trânsito. Mas aquilo é alguma cassete gravada que todos os dias colocam há hora certa para nos massacrar?
“Na marginal, trânsito condicionado em Paço de Arcos, Alto da Boa Viagem e recta do Dafundo”.
Sempre igual, nunca falha. De tal forma, que já protagonizo um irrepreensível número de play back no momento em que a locutora debita aquelas palavras, sempre repetidas a cada dia. Será que ao fim-de-semana dizem o mesmo? Mas aí não fazia sentido. Pois sábado e domingo, mesmo assim, ainda são um pouco diferentes do resto dos outros 5 dias, que existem apenas para nos lembrar que a vida é essencialmente uma repetição de lances uma vez experimentados e para sempre revividos. Depois da hora, hora e pouco, de tortura até ao Parque das Nações – e não, nem sequer é para visitar o Oceanário ou assistir a um espectáculo no Pavilhão Atlântico – ainda tenho de ter estofo para andar às voltinhas que nem uma mosca a quem se arranca uma asa, para tentar a sorte em forma de lugar para a viatura. Estacionado, quase sempre a cinco minutos de caminhada do local físico de trabalho, dirijo-me à minha secretária onde repito os tiques, os métodos e os processos de sempre, a que acrescento os mesmos olhares para as pessoas do costume e onde aguardo pelas 19h00, esperançado de que possa sair em direcção a uma estrada livre de trânsito que me leve de regresso a casa em cinco minutos. Cinco minutos depois - mais hora, menos hora -, vou directo à minha mais recente perda de tempo - o ginásio, onde tenho de recuperar o joelho enfermo - e que me ocupa a parte final do dia até perto das dez. Depois é o duche rápido, um jantar a correr - e pouco isso mesmo mal desfrutado - e toca a tratar do banho e refeição da pequena Sara. Findo este processo, é de novo uma da manhã, ei, e depois são duas da manhã, ei, e é assim, desta forma doce, que acaba… ou começa um novo dia? Novo, disse eu? Em quê?

publicado por migalhas às 11:21

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