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Um outro campeonato

por migalhas, em 02.08.04
Decorreu durante a passada semana - em Gotemburgo, na Suécia - o segundo campeonato do mundo de futebol dos sem-abrigo, também denominado de futebol de rua. Organizado pela Rede Internacional dos Jornais de Rua - instituição com mais de 50 membros de 32 países, entre os quais Portugal, representado pela revista “Cais” – contou com a participação de 28 selecções, mais 10 do que na primeira edição da prova. Iniciativa louvável, esta reúne as selecções dos sem-abrigo dos diversos países mundiais, proporcionando um torneio à imagem daquele que, de 4 em 4 anos, a UEFA leva a cabo, este com uma ligeira variante. Pois destina-se a atletas profissionais pagos a peso d'ouro e, consequentemente, ao abrigo de todos os luxos e exageros daí resultantes. Diferenças à parte, soube que a selecção nacional - também presente - se estreou com uma derrota por 2-3 frente aos seus congéneres ingleses. É caso para dizer que só mesmo num campeonato de futebol de rua é que os arruaceiros ingleses levam a melhor sobre nós. Mas adiante. Para quem não esteja identificado com esta vertente pobre do futebol de alta competição, é de todo natural que proceda a conjunturas sobre quem é o seleccionador de cada país participante ou como são eleitos os sem-abrigo mais dotados para a prática do velho "soccer". Também eu julgava que havia um olheiro - tal e qual acontece com os clubes de nomeada – cuja função era a de andar por ruas e ruelas observando a técnica de cada um dos pobres desfavorecidos. Que os apanhava nas suas comuns disputas por um lugar melhor ou por aquele banco de jardim tão concorrido e testava aí a técnica com que se esquivam ao adversário ou a velocidade com que dele fogem. Mas não, nada disso. Existe de facto um responsável pela triagem dos mais de 50 sem-abrigo que aderiram a um torneio de pré-selecção e de onde saíram 14 eleitos. Destes apenas 8 viajaram até Gotemburgo, 4 como titulares e os outros 4 como suplentes. E se para lá voaram, devem-no em grande parte ao apoio incondicional da revista “Cais” que, uma vez mais, se revelou decisiva no apoio àqueles que são constantemente ignorados e ostracizados pela nossa sociedade. Outra dúvida que povoava a minha cabeça, era a de saber se a Suécia - país que se tem revelado um digno exemplo de como deve ser uma sociedade civilizada – veria com bons olhos uma invasão das suas ruas e avenidas por alegres atletas habituados a viverem ao relento. Se os suecos - e as belas das suecas altas e louras – iriam à bola com a organização de um evento destas características no seu território. Mas a realidade é outra. Existe de facto alojamento e alimentação para os atletas, tudo devidamente assegurado pela organização do Mundial. Mas se consegui esclarecer estas minhas dúvidas, de todo normais face à novidade do evento e consequente falta de informação disponível, já uma outra permanece sem resposta. Tratando-se de um campeonato para os sem-abrigo, poderá a selecção anfitriã reclamar para si o estatuto de ser a única a "jogar em casa"? Embora não me pareça de todo justo para as demais participantes, a verdade é que lhes assiste esse direito. Digo eu. À hora que escrevo estas palavras, desconheço qual o desempenho dos nossos rapazes. No entanto, acredito que não se tenham contentado com o lugar secundário a que já estão habituados no seu dia-a-dia. Pois lá porque não têm um tecto, não significa que não ambicionem por um lugar ao sol, mas este de que se orgulhem. Em resumo, que tenham seguido o exemplo daqueles que na primeira edição deste torneio – realizado na Austrália - conseguiram o feito de abandonar as ruas e arranjar um emprego que lhes trouxe uma outra dignidade. Por incrível que possa parecer, muitos foram contratados por clubes para alinharem pelas suas equipas e outros para as orientarem como treinadores principais ou como adjuntos. Que esta bola de neve sirva de lição a todos aqueles que vêem no futebol um cancro maligno da nossa sociedade. Ou a todos os outros que nem a janela do carro abrem, quando nos semáforos alguém lhes solicita a sua contribuição, por via da revista “Cais”. Aqui ficam os meus parabéns para todos os envolvidos neste projecto, pois trata-se de uma iniciativa que, no mínimo, dá que pensar. Mais que não seja por revelar a existência de quem ainda dedique algum do seu tempo – e dinheiro, porque não dizê-lo - aos mais desfavorecidos, neste caso aqueles que todas as noites ao relento sonham com uma vida mais digna.