TUDO É ILUSÃO, DESDE O QUE PENSAMOS QUE PODEMOS AO QUE JULGAMOS QUE TEMOS.

28
Out 04
Sente-se no ar uma onda de revivalismo. Mais do que isso, nota-se a todos os níveis que a mesma é já uma realidade ou o princípio assumido de que o processo é irreversível. Como uma sensação de nostalgia, que aos poucos toma de assalto, não só os que tiveram o prazer de viver nas décadas a que a mesma onda diz respeito, mas igualmente as gerações de hoje, que, estranhamente, parecem identificar-se muito mais com estas tendências repescadas do que seria de esperar. É certo que, para eles, tudo é novidade e por isso tomam-nas como tal. Sem se aperceberem sequer que estão claramente a contradizer-se, pois aquilo que agora adoptam como inovador, mais não é do que o estilo que tanto criticaram, e criticam, nos seus progenitores - nos cotas - e que não têm qualquer problema em apelidar de "quadrado". Basta entrar em algumas das actuais cadeias de roupa produzida em série e assistir às vestimentas que lá se vendem, tidas como o último grande grito da moda. Não querendo dizer mal, aquelas indumentárias, aqueles acessórios, aqueles modelos, em nada diferem dos mesmos com que a minha mãe aparece vestida nas fotos da sua juventude. E não fica por aqui, este regresso ao passado. Pela noite fora, é assistir aos bares e discotecas que aderem em força às temáticas que fazem reviver velhos e saudosos temas que nos encheram de alegrias em plenos anos 70 e 80. Até a própria indústria automóvel parece querer aliar-se a esta onda de revivalismo, criando veículos cujo design em tudo nos deixa uma sensação nítida de que estamos a recuar no tempo. Também ao nível dos media é notória esta febre revivalista, ao ponto de se criarem canais televisivos cuja temática da sua programação versa exclusivamente as séries ou as sitcoms que foram líderes de audiência em anos como os 70, 80 ou 90. Saudosos anos de ouro, os anos 80 são aqueles que também na música mais parecem ter marcado toda uma geração que hoje não se cansa de tentar revivê-los, dê por onde der. Variedade e qualidade, em géneros tão díspares como a new wave, o ska blue beat, o hard rock, o heavy metal, a pop, o punk, o disco sound, os ditos neo-clássicos ou o próprio aparecimento do rock português, tudo contribuiu, e contribui, para que essa época jamais possa cair no esquecimento de quem a viveu e não só. De tal forma assim é, que a própria indústria discográfica - não querendo perder esta clara oportunidade de negócio - aposta massivamente na reedição de grandes clássicos de então. Em alguns casos foram até mais longe, apostando mesmo no ressurgimento de muitos artistas e grupos que então fizeram furor e lideraram os tops, permitindo-lhes uma segunda oportunidade com renovados lançamentos, agora em formato CD. Por muito estranha e fora de contexto que a época de 80 possa parecer aos jovens de hoje, é indiscutível que serviu de motor de arranque para grande parte daquilo que hoje se ouve, vê ou usa. E por muito que isto lhes custe ouvir, não serão os anos que hoje vivemos que irão marcar quem quer que seja. Pelo menos não o farão com a mesma intensidade, nem tão pouco serão ricos e repletos em surpresas ou originalidade como os que se viveram há pouco mais de duas décadas atrás. Nem sequer deixarão aquela marcante sensação de saudade que só os que tiveram o privilégio de por lá ter passado conseguem hoje sentir. Embora difícil de explicar, esta é seguramente uma sensação única, que jamais as recentes gerações irão sentir. Quanto a isso, não tenho qualquer tipo de dúvida. Não sou velho, não me sinto velho, só acho que época como aquela tão depressa não haverá outra.
publicado por migalhas às 12:53

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