TUDO É ILUSÃO, DESDE O QUE PENSAMOS QUE PODEMOS AO QUE JULGAMOS QUE TEMOS.

03
Dez 04
E se ao fim de todo este tempo, viesse agora a descobrir que afinal eu não sou realmente eu. Como se toda a vida tivesse sido um outro eu que não este eu que eu julgava ser. Soa a confusão, mas não o é. Quanto muito pode ser esquisito ou insólito, mas não confuso. Aliás, tudo se resume à confrontação do meu eu actual - aquele que eu julgava ser - com aquele outro que afinal sempre fui, mas que desconhecia ser. Será que poderia refazer toda a minha vida vivida até agora sob a pele falsa do outro eu? Ou teria apenas a possibilidade de continuar a partir daqui, mas agora sob uma nova roupagem, sob uma nova identidade, sob uma nova personalidade? Mas iria a personalidade mudar? Afinal de contas eu continuava a ser o velho eu de sempre, só que agora renascido. Iria eu ter consciência dessa diferença? Iria eu dar por ela, no meu dia-a-dia, na minha vida mundana? Ou de um momento para o outro pura e simplesmente me transformava, tal e qual um super-herói que troca as vestes do ser banal e igual a tantos outros pelas do personagem dotado de super poderes? É realmente uma questão que me persegue. Principalmente desde que dou comigo a protagonizar situações que até agora eram novidade para mim. Ainda um dia destes, sem que ninguém o fizesse supor, estava eu a tentar movimentar-me em pleno coração de uma Baixa apinhada de gente, quando de repente me salta a tampa! Sem mais nem senão, eis que começo a furar por entre a multidão e entro na primeira cabine telefónica que encontro pela frente. Entro é uma força de expressão, pois já lá vão os tempos em que essas preciosidades eram umas simpáticas casinhas vermelhas que possuíam telhado, porta e tudo. Mas a verdade é que tal não me passou pela cabeça. E movido por um instinto que até então desconhecia, eis que dispo a roupa que trazia sobre o pêlo - e porra! Se fazia frio naquele dia - e descubro, para meu grande espanto, que por baixo da dita se escondia um fardamento ridículo de um pretenso super-herói que existia em mim e que eu simplesmente ignorava. Vi-me, de um momento para o outro, rodeado de gente parva que apontava na minha direcção e ria à gargalhada. Os miúdos corriam para mim e puxavam-me o fato que assim saía do lugar dando uma imagem distorcida do herói que ali se materializara. Ainda tentei fazer entender àquela gente que tinha uma missão - que por acaso também desconhecia - e que os meus intentos eram os de salvar o mundo - a começar por Portugal - de todos os vilões. Ao que ainda riram com mais vontade. De repente, senti-me como se fosse um daqueles comediantes que agora estão muito na moda, dos que estão sempre em pé, a dizerem piadas. Em plena Baixa de Lisboa, rodeado de uma multidão que noutros tempos estaria a trabalhar, mas que agora se passeia como forma de passar o tempo que lhes sobra por estarem desempregados, até que a ideia parecia ser boa. A indumentária - escolhida não faço ideia por quem - pelo menos tinha uma vantagem clara: chamava a atenção. À distância, diria mesmo. As tonalidades rosa choque e verde lima combinadas de forma muito discutível, a capa em tons de roxo e uma mascarilha laranja, compunham o ramalhete. Ainda tentei averiguar quais os super poderes que me haviam sido concedidos, sem no entanto criar grandes expectativas quanto aos mesmos. Depressa conclui que não era invisível - o que tinha dado imenso jeito naquela altura -, não voava - nem mesmo baixinho! -, não conseguia trepar às paredes, não possuía visão de raio X, não conseguia pegar em grandes pesos - mas também sempre tive problemas de coluna, por isso... -, não vertia fogo por nenhum orifício do meu corpo e nem mesmo esse, o corpo, sofria qualquer tipo de alteração digna de constar - por mínima que fosse - no compêndio das alterações físicas ditas insólitas. O que parecia funcionar como a grande arma de que agora era claro detentor, era o debitar de texto e de palavras que disparava a uma velocidade - essa sim insólita - que não andaria muito longe daquela com que qualquer pistola automática cospe as suas munições. E a cada nova deixa que me saía - com a maior das naturalidades, como se sempre assim tivesse sido - a multidão que me rodeava gargalhava em uníssono criando um alarido tal que cada vez atraia mais e mais gente ao local onde me encontrava. Não sei se era isto que me estava destinado, se era este o outro eu escondido que nunca tinha tido o prazer de conhecer. Mas a verdade é que é graças a ele que hoje encho salas de espectáculos em actuações que parecem nunca chegar para tanta procura. O pior vai ser quando acordar amanhã de manhã. Será que ainda serei este novo eu, cheio de sucesso e de fama? Ou voltarei a ser o outro, já velho e sem surpresas, que até então se passeava em mim, usando o meu corpo apenas como veículo da sua existência? Logo se vê. Chegada a hora logo verei se ainda faço rir os outros ou se tudo isto foi apenas uma brincadeira pegada. Pois quem ri por último, ri atrasado!
publicado por migalhas às 20:24

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