TUDO É ILUSÃO, DESDE O QUE PENSAMOS QUE PODEMOS AO QUE JULGAMOS QUE TEMOS.

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Dez 04
E se ao fim de todo este tempo, viesse agora a descobrir que afinal eu não sou realmente eu. Como se toda a vida tivesse sido um outro eu que não este eu que eu julgava ser. Soa a confusão, mas não o é. Quanto muito pode ser esquisito ou insólito, mas não confuso. Aliás, tudo se resume à confrontação do meu eu actual - aquele que eu julgava ser - com aquele outro que afinal sempre fui, mas que desconhecia ser. Será que poderia refazer toda a minha vida vivida até agora sob a pele falsa do outro eu? Ou teria apenas a possibilidade de continuar a partir daqui, mas agora sob uma nova roupagem, sob uma nova identidade, sob uma nova personalidade? Mas iria a personalidade mudar? Afinal de contas eu continuava a ser o velho eu de sempre, só que agora renascido. Iria eu ter consciência dessa diferença? Iria eu dar por ela, no meu dia-a-dia, na minha vida mundana? Ou de um momento para o outro pura e simplesmente me transformava, tal e qual um super-herói que troca as vestes do ser banal e igual a tantos outros pelas do personagem dotado de super poderes? É realmente uma questão que me persegue. Principalmente desde que dou comigo a protagonizar situações que até agora eram novidade para mim. Ainda um dia destes, sem que ninguém o fizesse supor, estava eu a tentar movimentar-me em pleno coração de uma Baixa apinhada de gente, quando de repente me salta a tampa! Sem mais nem senão, eis que começo a furar por entre a multidão e entro na primeira cabine telefónica que encontro pela frente. Entro é uma força de expressão, pois já lá vão os tempos em que essas preciosidades eram umas simpáticas casinhas vermelhas que possuíam telhado, porta e tudo. Mas a verdade é que tal não me passou pela cabeça. E movido por um instinto que até então desconhecia, eis que dispo a roupa que trazia sobre o pêlo - e porra! Se fazia frio naquele dia - e descubro, para meu grande espanto, que por baixo da dita se escondia um fardamento ridículo de um pretenso super-herói que existia em mim e que eu simplesmente ignorava. Vi-me, de um momento para o outro, rodeado de gente parva que apontava na minha direcção e ria à gargalhada. Os miúdos corriam para mim e puxavam-me o fato que assim saía do lugar dando uma imagem distorcida do herói que ali se materializara. Ainda tentei fazer entender àquela gente que tinha uma missão - que por acaso também desconhecia - e que os meus intentos eram os de salvar o mundo - a começar por Portugal - de todos os vilões. Ao que ainda riram com mais vontade. De repente, senti-me como se fosse um daqueles comediantes que agora estão muito na moda, dos que estão sempre em pé, a dizerem piadas. Em plena Baixa de Lisboa, rodeado de uma multidão que noutros tempos estaria a trabalhar, mas que agora se passeia como forma de passar o tempo que lhes sobra por estarem desempregados, até que a ideia parecia ser boa. A indumentária - escolhida não faço ideia por quem - pelo menos tinha uma vantagem clara: chamava a atenção. À distância, diria mesmo. As tonalidades rosa choque e verde lima combinadas de forma muito discutível, a capa em tons de roxo e uma mascarilha laranja, compunham o ramalhete. Ainda tentei averiguar quais os super poderes que me haviam sido concedidos, sem no entanto criar grandes expectativas quanto aos mesmos. Depressa conclui que não era invisível - o que tinha dado imenso jeito naquela altura -, não voava - nem mesmo baixinho! -, não conseguia trepar às paredes, não possuía visão de raio X, não conseguia pegar em grandes pesos - mas também sempre tive problemas de coluna, por isso... -, não vertia fogo por nenhum orifício do meu corpo e nem mesmo esse, o corpo, sofria qualquer tipo de alteração digna de constar - por mínima que fosse - no compêndio das alterações físicas ditas insólitas. O que parecia funcionar como a grande arma de que agora era claro detentor, era o debitar de texto e de palavras que disparava a uma velocidade - essa sim insólita - que não andaria muito longe daquela com que qualquer pistola automática cospe as suas munições. E a cada nova deixa que me saía - com a maior das naturalidades, como se sempre assim tivesse sido - a multidão que me rodeava gargalhava em uníssono criando um alarido tal que cada vez atraia mais e mais gente ao local onde me encontrava. Não sei se era isto que me estava destinado, se era este o outro eu escondido que nunca tinha tido o prazer de conhecer. Mas a verdade é que é graças a ele que hoje encho salas de espectáculos em actuações que parecem nunca chegar para tanta procura. O pior vai ser quando acordar amanhã de manhã. Será que ainda serei este novo eu, cheio de sucesso e de fama? Ou voltarei a ser o outro, já velho e sem surpresas, que até então se passeava em mim, usando o meu corpo apenas como veículo da sua existência? Logo se vê. Chegada a hora logo verei se ainda faço rir os outros ou se tudo isto foi apenas uma brincadeira pegada. Pois quem ri por último, ri atrasado!
publicado por migalhas às 20:24

Nunca sabemos verdadeiramente quem somos... e principalmente depois de descobrirmos que ainda somos capazes de ser "despidos" de princípios, de preconceitos, de ideias feitas... por coisas boas que nos vão acontecendo quando já pensamos que nada mais mudaria em nós... E de super herói, quem sabe não gostaríamos nós todos de ter um pouco?... gostei da imaginação fértil... dellll
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(mailto:eee@sapo.pt)
Anónimo a 5 de Dezembro de 2004 às 13:03

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