TUDO É ILUSÃO, DESDE O QUE PENSAMOS QUE PODEMOS AO QUE JULGAMOS QUE TEMOS.

15
Dez 04
Findo o banho matinal, tudo parecia envolto na normalidade de que sempre se reveste este momento diário. Puxei da toalha que repousava no respectivo toalheiro e coloquei-a sobre os ombros, secando-me de seguida. Foi então que, ao preparar-me para abandonar o espaço da banheira, assisti estupefacto à insólita separação do meu braço esquerdo do corpo a que sempre pertencera. Pelo menos desde que tenho noção do meu corpo como um todo, constituído por uma cabeça, tronco e alguns membros, dos quais o tal braço que agora se tornara autónomo. Não totalmente, pois não apresentava vida própria. Apenas se separara do corpo e ali repousava a meus pés como uma mera peça isolada. Sem reacção possível, fiquei a olhá-lo fixamente e a pensar que raio havia proporcionado semelhante coisa. Seria do shampoo? Mas para isso teria caído a cabeça e não um dos braços. Seria do gel de banho? Olhei para o rótulo e pude comprovar a quantidade exagerada de químicos que são adicionados ao que supostamente deveria ser apenas um líquido de limpeza com um certo e determinado aroma. Até que poderia ser do gel de banho, mas já o usara tantas vezes. Por que raio é que só agora iria causar este efeito? E seria de pensar que atrás deste membro outros se lhe seguiriam e começariam a cair que nem tordos? Tremi. Não muito, pois a trepidação poderia eventualmente acelerar este estranho processo de queda e isso eu não queria. Voltei a tremer e então descortinei que o fazia não tanto pela situação em si, mas pelo frio de estar ainda como viera ao mundo. Dirigi o braço que me restava na direcção da roupa e foi quando este também caiu a meus pés, tal e qual um fruto maduro cai do ramo onde cresceu. Era agora um homem desmembrado e a única imagem que me ocorreu foi a dos homens de acção que o meu filho frequentemente mutilava por puro gozo. Nessa altura percebi a falta que fazem os membros superiores. Os dois braços ali repousavam inertes, um dentro e outro fora da banheira, e aí sim, comecei a ficar nervoso. A situação começava a tomar contornos preocupantes e disso me apercebi ainda mais quando me lembrei de que estava sozinho em casa. Mesmo que quisesse ajuda, não haveria ninguém para me socorrer. Fiz uso dos dentes e depois de grandes malabarismos lá consegui vestir as calças. Mas tal e qual uma contaminação que se propaga rápida e de forma fulminante, depressa senti que perdera um outro membro, desta vez uma das pernas. À medida que saltitava sobre a única perna de que agora era possuidor, a outra escorregava por dentro das calças para em breve ficar pelo caminho, juntando-se assim aos restantes membros que, como ela, me haviam deixado sem aviso prévio. O objectivo agora era o de conseguir alcançar o telefone e contactar a minha mulher para a avisar da situação. Uma vez fora da casa de banho, tentei chegar ao corredor mas sem sucesso. E isto porque o último dos meus membros - se exceptuarmos aquele outro que assim é tratado mas que não sei se entra para a contabilidade dos seus pares - se juntou à maioria silenciosa e resolveu igualmente deixar-me. Tê-los-ia eu tratado assim tão mal durante o tempo em que convivemos como um todo ao ponto de agora me deixarem desta forma? Afinal de contas eram carne da minha carne e sempre tentara dar-lhes apenas o melhor. Nem a minha mulher - que tratava bem pior do que a eles - me havia deixado. Com óbvias dificuldades lá ia arrastando o que restava do meu corpo, neste caso a cabeça e o tronco, mas sentia que era um esforço escusado. Não havia como sair do sítio onde ficara sem a última perna e por muito que tentasse não iria muito mais longe. Eu que era uma pessoa completa, como muita gente gostava de frisar, via-me agora espalhado pela casa em vários pedaços. Que humilhação!

Continua...
publicado por migalhas às 13:06

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