TUDO É ILUSÃO, DESDE O QUE PENSAMOS QUE PODEMOS AO QUE JULGAMOS QUE TEMOS.

28
Dez 04
Aquela torneira perseguia-me impiedosamente desde há uns meses a esta parte. Continuamente, ela insistia no ritmo ininterrupto com que deixava escapar gota após gota em direcção ao lavatório. Com tal força a fechara da última vez, que já nem conseguia abri-la sem o recurso ao alicate. Mas ainda assim, a fuga era visível e, mais desesperante do que isso, bem audível. Tal e qual a tortura que os nazis infligiam aos seus prisioneiros de guerra nas celas onde os abandonavam à sua sorte, aquele gotejar constante depressa iria contribuir de igual forma para a decadência da minha sanidade mental. Munido de uma completa caixa de ferramentas, onde nada parecia faltar, e de uma vontade de ferro em resolver um assunto que se prolongava há tempo demasiado, fiz-me ao inimigo, farto que estava das diversas tentativas feitas "a desenrascar" e que nada haviam conseguido. Primeiro com uma ligeira apertadela, depois com uma apertadela maior e, já quase em desespero, uma outra ainda maior. Seguiu-se a fase dos panos e dos trapos velhos como forma de absorverem a água que, de tanta, passou rapidamente a necessitar de um "up-grade" em forma de balde. Por fim, já nem o balde sustinha a cascata que se fazia notada por toda a casa, num som que ecoava já bem para além desta e que preenchia por completo a minha caixa craniana, 24 horas por dia, dia após dia. Alicates, chaves de parafusos, martelo, berbequim, de tudo fiz uso até conseguir estancar aquela fuga que parecia agora definitivamente obra do passado. Deitei-me nessa noite e pela primeira vez em muitos meses consegui ouvir outra coisa que não o gotejar constante e ritmado daquela velha torneira. O monstro parecia ter adormecido. Ao contrário de mim, que agora despertara para outros sons que já quase esquecera que existiam. Pude voltar a apreciar as entusiásticas discussões dos vizinhos de cima, o ranger das molas da cama e as respectivas manifestações sonoras de prazer emitidas pelos vizinhos do lado ou mesmo o chinfrim despropositado, mas constantemente repetido, pelos homens responsáveis pela recolha do lixo, que se faziam transportar num veículo que, a várias centenas de metros de distância, já se fazia claramente notado. Nessa noite, voltei a não conseguir pregar olho. Ou melhor, estava a começar a querer pegar no sono, quando a vizinha do lado deu início ao seu duche matinal. Seguiram-se-lhe os saltos altos da vizinha de cima a passearem pelo soalho de madeira, as crianças do terceiro esquerdo em gritaria pela escada abaixo, o cão do vizinho de baixo num ladrar continuado, em resumo, fui interrompido pela sonora alvorada do prédio onde habito. Senhor de umas olheiras que pareciam ter-se apossado de mim em definitivo, dirigi-me ao lavatório para passar um pouco de água no rosto. Tentei abrir a torneira e esta não colaborou. Ainda na véspera tinha ficado como nova... Dei um torção no manípulo com um pouco mais de força e, para algum espanto meu, fiquei com o mesmo na mão. Soltara-se do resto do corpo da torneira, que agora jorrava um jacto de água abundante pela sua parte superior. Tentativas de deter aquele curso de água foram algumas, mas todas sem resultados práticos. Corri à escada, onde no contador geral da água julgava cortar o mal pela raíz, mas também aqui as coisas correram pelo pior. Agora eram dois os manípulos que segurava nas mãos encharcadas de tanto contacto com a água. O monstro acordara e trouxera amigos. Telefonei para o piquete das urgências que num tempo recorde de três horas conseguiram dar com a minha morada. Claro que, quando lá chegaram, já eu substituíra as galochas pelo colchão de praia e o excesso de água caía em cascata pelas janelas em direcção à rua, agora também ela parcialmente inundada. Em breve corria um curso de água apreciável junto àquele prédio de habitação, numa radical transformação de cenário de todo impensável há algumas horas atrás. Esse mesmo curso de água - que entretanto crescera de caudal e era já considerado rio - viria a ser aproveitado para criar uma área de lazer com inúmeros espaços verdes adjacentes. Foram criadas margens artificiais com terra para ali propositadamente transportada e em ambas fora plantada relva e árvores em abundância, que cresceram viçosas graças à existência do elemento água que, por ali, nunca abundara. O prédio valorizou imenso e cada um dos respectivos apartamentos foi avaliado no dobro do que antes valia. O meu, em particular, passou a funcionar como fonte de origem dessa mesma água, de onde continuou a cair em cascata por ordem expressa do presidente da câmara. Aquilo que deveria ter sido uma simples avaria numa torneira já gasta pelo tempo, com a subsequente fuga de água de que quase sempre se revestem estes casos, tornou-se numa inédita e insólita obra pública de que a câmara foi a principal beneficiária. Em breve, os pequenos barcos a remos que de início faziam a travessia de uma margem para a outra, ou as simpáticas gaivotas que a câmara propositadamente comprara para o efeito, deram lugar a navios de grande porte que agora faziam daquele canal um atalho que poupava aos seus armadores não só tempo como muito e muito dinheiro. Em pouco tempo, a câmara local concorria ao prémio de Autarquia do Ano que, por unanimidade, arrecadou, em resultado desta grandiosa proeza de incalculável utilidade para toda a comunidade. Também eu não fui esquecido, tendo sido agraciado pelo senhor Presidente da República, em pessoa, com uma ordem distinta entregue apenas aos responsáveis por feitos cujas dimensões físicas e humanas estão para além do impensável. Com a indemnização que me foi paga por ter de abandonar o meu ex-apartamento - agora transformado em central hidroeléctrica - abandonei aquela cidade - a que fora recentemente promovida - e assentei arraiais a uns bons quatrocentos e tal quilómetros a sul da mesma. Comprei um apartamento em segunda mão, mesmo no centro desta simpática e pacata vila, e segui a minha vida, agora mais sossegado e longe da confusão que se gerara à minha volta sem que ninguém a tivesse chamado. Voltei a dormir as noites por inteiro - algo que não experimentava há já bastante tempo - e tudo parecia ter voltado à normalidade até que há umas noites atrás fui acordado por um som familiar. Um gotejar constante e ritmado anunciava uma pequena fuga de uma qualquer torneira a necessitar de urgente arranjo. A sensação de um "dejá vu" sonoro apossou-se da minha pessoa. Ainda tentei abstrair-me daquele som velho conhecido, som esse que nem a almofada fortemente comprimida contra os ouvidos conseguiu abafar. Já irritado, levantei-me e fui direito ao cantinho da despensa onde guardara a caixa das ferramentas. Desta vez não iria "desenrascar", mas sim resolver desde logo a situação. Afinal de contas, não deveria ser nada de muito complicado. Apenas o gotejar próprio de uma torneira já muito usada e gasta pelo tempo.
publicado por migalhas às 19:48

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