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TUDO É ILUSÃO, DESDE O QUE PENSAMOS QUE PODEMOS AO QUE JULGAMOS QUE TEMOS.

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Tempo (in)visível

por migalhas, em 24.11.23

De cada dia existe uma parcela que me escapa

Um par de horas

 

(quase sempre mais, dois pares, talvez até três)

 

que me são omissas, que em permanência não lhes chego sequer a sentir o sabor

São horas que passam na minha ausência, mas que contam tanto como as outras no acumular de todas as que um dia se me irão somar

 

Horas que se adicionam às de uma vida, mas que as não vejo ou sinto como horas

São quase sempre horas nocturnas, horas adormecidas em que também eu me embalo rumo ao paralelo mundo dos sonhos

Nessas horas é o silêncio quem ergue a sua voz e do alto da sua solenidade acrescenta tempo ao tempo que me perfaz

 

E quando acordo

 

(na manhã seguinte a essas horas que nem as vivi, sequer senti, apenas se perfizeram porque são essas as suas ordens)

 

sou eu mais essas horas por companhia, por sombra que me segue e acompanha e acrescenta camadas de tempo ao tempo que já somei, bem cimentadas na pessoa que sou e de que só as rugas e toda a degradação deste meu ser

 

(que são consequência sua)

 

me fazem saber que passaram por mim

 

(também elas passaram por mim)

 

mesmo sem lhes ter chegado a sentir o sabor

um leve trago desse existir amargo

que me soma tempo sem permissão

que me acelera o passo para o outro lado

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira (2013)