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TUDO É ILUSÃO, DESDE O QUE PENSAMOS QUE PODEMOS AO QUE JULGAMOS QUE TEMOS.

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Projecto/performance "Na alucinação que é cada viagem": Texto 5. Vamos a encerrar

por migalhas, em 27.10.23

Vamos a encerrar

 

E agora vou

e agora vamos, a encerrar

artistas de alma, de coração, eu e ele

eu, o falador, de cola e tesoura na mão

ele, meu irmão, que na guitarra encontrou a sua imensurável paixão

 

Dedilhamos temas e mundos paralelos

cortamos, encurtamos, estendemos, recompomos

não contentes, regravamos, camada sobre camada

nesta terra fértil, neste mar gigante

ao sabor de marés, de ventos e luas

da vida que verte límpida do ventre das ninfas nuas

 

Aqui moramos, mas é noutra realidade que habitamos

eu, alucinado pelas colagens

pelas viagens vividas nas milhentas mensagens

ele, pelas cordas enfeitiçado

as que acima abaixo percorre

numa ânsia, numa fome

que não se explica, que não tem nome

nem precisa

pois responde ao silêncio, à bravura das palavras que nas escarpas mais fatídicas se arriscam a viver

numa força e num querer

que só quem, como eu e ele

pode entender

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira (2023)

Projecto/performance "Na alucinação que é cada viagem": Texto 4. Mar de gente

por migalhas, em 26.10.23

Mar de gente

 

há um mar de tanta gente

gente indiferente, gente impotente

gente imensamente descontente

gente demente

e que mente

com quantos dentes ostenta

que nem oito nem oitenta

nesta praça pública

nesta pública roleta

que ao som da trompeta

tocada a rebate

bate e foge

da mão morta que já nem encontra a porta

entre este mar revolto

de tanta gente dormente

aos céus e à terra temente

consumida por esta cinza inclemente

gente que já nada crê ou sente

hoje, agora, neste momento presente

amanhã, adiante, para todo o sempre

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira (2023)

Projecto/performance "Na alucinação que é cada viagem": Texto 3. Na alucinação que é cada viagem

por migalhas, em 25.10.23

Na alucinação que é cada viagem

 

há uma fuga que se escreve

não planeada, inconsciente

mas que está lá, em cada viagem

em cada ida, a anteceder a partida

que fervilha, ganha vida e é combustível que me inflama de vontade

 

há uma fuga que me enlaça

me arrasta caminho fora, me atira para diante

me faz sonhar com amanhãs perfeitos, lá, para onde vou

de que o check-in é apenas preâmbulo

 

há uma fuga que me alucina

me engana a retina e tolda a vida, deixando-me em pausa

num limbo que visto como roupa de Domingo

tão lindo, tão imaculadamente feliz

tão embevecido com a vista daquele quarto impessoal de hotel

para onde, nem sei

mas é o que sempre quis, desde que aqui cheguei

 

Esta fuga, que me rouba à rotina

Que me distrai de quem sou a cada dia

Chama-se viagem ao mundo das alucinações

Sim, se calhar é uma droga, um alucinogénio à mão de semear

Se tiver dentes ou unhas para o tocar

 

Que depois há o voltar

Pés na terra, mãos ao ar

Que este sou eu

Não há volta a dar

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira (2023)

Projecto/performance "Na alucinação que é cada viagem": Texto 2. O processo

por migalhas, em 24.10.23

O processo

 

Papel, tesoura e cola

assim ou por outra ordem

na desordem que é cada empreitada

na maioria das vezes demorada, lânguida e preguiçosa

que se demora a mostrar ao que vem

 

É matéria-prima que me serve os intentos

de criar uma teia de imagens retalhadas

de imagens fraccionadas, remendadas

que pela minha mente processadas, retornam assim, recriadas

 

É nestas alucinantes deambulações

que empreendo a fuga ao que me é comum

ao tédio da rotina, ao que me fere a retina

em partidas não planeadas, visceralmente desejadas

 

num abraço apertado

com que enlaço cada quadro

cada viagem para lá do universo

vou eu assim, alucinado

em paz com este meu fado

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira (2023)

Projecto/performance "Na alucinação que é cada viagem": Texto 1. Retalhar

por migalhas, em 23.10.23

Retalhar

 

Retalhar

Na mesma proporção, existir

Aos pedaços

Ou por inteiro

Que a soma das partes ainda acrescenta

 

Retalhar

Cortar em fragmentos

Grandes, pequenos, que o tamanho aqui é pormenor

Da dimensão que eu o quiser

 

Parcelar

É vida que se antevê em cada porção

De papel, de cartão

Um imenso mar adiante

Ou então não!

Apenas má sorte e a inevitável morte

Com ela para o caixote!

 

São retalhos

Aquilo que são

Que colados contam outra história

Nem melhor, nem pior

Diferente

Apenas outra

Nascida da lâmina que assim a concebeu

 

© Copyright Miguel Santos Teixeira (2023)

Que a vida

por migalhas, em 06.10.23

que a vida é um fantoche sem jeito

que a reboque do tempo se espreguiça no seu leito

e nele se materializa

nele se realiza

nele se avista tão longe quanto o dia em que se precipita

ela que se julgava infinita

 

© Copyright Migalhas (100NEXUS_2013)

Que ser humano

por migalhas, em 04.10.23

que ser humano é viver asfixiado por esta corda bamba

por este ábaco que nos inunda de idade

por essa areia fina que nos precipita a queda

nos afunila a vida

nessa ampulheta que nos é guarida

princípio, meio, casa partida

 

© Copyright Migalhas (100NEXUS_2013)

Tempo sem senso

por migalhas, em 02.10.23

são parcelas de um tempo que se esvai

num tom particular, comum a todos

que um só olhar nunca diz tudo

nem voz alguma perdura, sequer se instala

como uma lenda ou mito ambíguo

que de concreto nada fala

num espaço que se crê contínuo

confinado a esta pequena mala

 

© Copyright Migalhas (100NEXUS_2013)