Um poema cresce inseguramente na confusão da carne, sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto, talvez como sangue ou sombra de sangue pelos canais do ser.
Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência ou os bagos de uva de onde nascem as raízes minúsculas do sol. Fora, os corpos genuínos e inalteráveis do nosso amor, os rios, a grande paz exterior das coisas, as folhas dormindo o silêncio, as sementes à beira do vento, - a hora teatral da posse. E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.
E já nenhum poder destrói o poema. Insustentável, único, invade as órbitas, a face amorfa das paredes, a miséria dos minutos, a força sustida das coisas, a redonda e livre harmonia do mundo.
- Em baixo o instrumento perplexo ignora a espinha do mistério. - E o poema faz-se contra o tempo e a carne.
- Sim, sei. Mas pensei que tinhas dito que o almoço tinha sido óptimo.
- Sim, e foi. Mas o que é que isso tem a ver?
- Então como é que pode ter sido óptimo se meteu chocos? Eu da última vez que me lembro de ter tido um choco fiquei piurso!
- Quê?
- Sim, daquela vez que choquei com aquele paspalho que se esqueceu de arrancar no semáforo. Foi um choco e peras! Passei-me!
- Ah, um choque. Como quando chocaste com esse tal gajo.
- Exacto, foi o que eu disse. E tu dás também um choco e ficas todo contente? ‘tás pior.
- Eu não dei nenhum choque, eu comi chocos ao almoço, entendes? E estavam muita bons.
- Comer chocos? E bebeste para lá da conta, também.
- Então e porquê?
- Rapaz, um choco, estás a ver?
- Sim…
- Há vários tipos de chocos. Uns mais fortes, outros menos. Como quando sem querer chocas com uma pessoa na rua, por exemplo. Ou quando metes as mãos numa tomada e apanhas um choco daqueles que até te pelas, ‘tás a ver? Ou então como aquele que dei naquele paspalho, quando o meu carro chocou com o dele. Chocos, entendes?
- Isso são choques. Choques, queres tu dizer. O que eu comi foram chocos, aquela cena tipo lulas, sabes?
- Tipo lulas? A única coisa tipo lula que conheço é quando alguém amanda uma daquelas escarretas enormes, que um gajo até diz: caganda lula, sim senhor! Foi isso que almoçaste?
- Que nojo, oh pá! Que nojo de conversa.
- Tu é que falaste nisso, das lulas. Vou beber café, queres?
- Sim, traz-me um café cheio e um guardanapo.
- Não precisas, tens aí papel de cozinha.
- Não, o bolo, um guardanapo, sabes quais são? Aqueles assim, em forma de… guardanapo.
- ‘tás a ver! Lá ‘tás tu outra vez, sempre em choco comigo. És lixado, pá.