TUDO É ILUSÃO, DESDE O QUE PENSAMOS QUE PODEMOS AO QUE JULGAMOS QUE TEMOS.

06
Out 11

No bairro de Alfama os eléctricos amarelos cantavam nas
Subidas.
Havia duas prisões. Uma delas era para os gatunos.
Eles acenavam através das grades.
Eles gritavam. Eles queriam ser fotografados!

"Mas aqui", dizia o revisor e ria baixinho como um afectado
"aqui sentam-se os políticos". Eu vi a fachada, a fachada, a fachada
e em cima, a uma janela, um homem,
com um binóculo à frente dos olhos, espreitando
para além do mar.

A roupa pendia no azul. Os muros estavam quentes.
As moscas liam cartas microscópicas.
Seis anos depois, peguntei a uma dama de Lisboa:
Isto é real, ou fui eu que sonhei ?

Tomas Tranströmer
(Tradução por Luís Costa)

publicado por migalhas às 21:37

PÁSSAROS MATINAIS (1966)

 

Desperto o automóvel
que tem o pára-brisas coberto de pólen.
Coloco os óculos de sol.
O canto dos pássaros escurece.

 

Enquanto isso outro homem compra um diário
na estação de comboio
junto a um grande vagão de carga
completamente vermelho de ferrugem
que cintila ao sol.

 

Não há vazios por aqui.

 

Cruza o calor da primavera um corredor frio
por onde alguém entra depressa
e conta como foi caluniado
até na Direcção.

 

Por uma parte de trás da paisagem
chega a gralha
negra e branca. Pássaro agoirento.
E o melro que se move em todas as direcções
até que tudo seja um desenho a carvão,
salvo a roupa branca na corda de estender:
um coro da Palestina:

 

Não há vazios por aqui.

 

É fantástico sentir como cresce o meu poema
enquanto me vou encolhendo
Cresce, ocupa o meu lugar.

 

Desloca-me.
Expulsa-me do ninho.
O poema está pronto.

publicado por migalhas às 13:38

DESDE A MONTANHA (1962)

 

Estou na montanha e vejo a enseada.
Os barcos descansam sobre a superfície do verão.
«Somos sonâmbulos. Luas vagabundas.»
Isso dizem as velas brancas.

 

«Deslizamos por uma casa adormecida.
Abrimos as portas lentamente.
Assomamo-nos à liberdade.»
Isso dizem as velas brancas.

 

Um dia vi navegar os desejos do mundo.
Todos, no mesmo rumo – uma só frota.
«Agora estamos dispersos. Séquito de ninguém.»
Isso dizem as velas brancas.

publicado por migalhas às 13:36

A ÁRVORE E A NUVEM (1962)

 

Uma árvore anda de aqui para ali sob a chuva,
com pressa, ante nós, derramando-se na cinza.
Leva um recado. Da chuva arranca vida
como um melro ante um jardim de fruta.

 

Quando a chuva cessa, detém-se a árvore.
Vislumbramo-la direita, quieta em noites claras,
à espera, como nós, do instante
em que flocos de neve floresçam no espaço.

publicado por migalhas às 13:34

HISTÓRIAS DE MARINHEIROS (1954)

 

Há dias de inverno sem neve em que o mar é parente de zonas montanhosas, encolhido sob plumagem cinza, azul só por um minuto, longas horas com ondas quais pálidos linces, buscando em vão sustento nas pedras de à beira-mar.

 

Em dias como estes saem do mar restos de naufrágios em busca de seus proprietários, sentados no bulício da cidade, e afogadas tripulações vêm a terra, mais ténues que fumo de cachimbo.

 

(No Norte andam os verdadeiros linces, com garras afiadas e olhos sonhadores. No Norte, onde o dia vive numa mina, de dia e de noite.

 

Ali, onde o único sobrevivente pode estar junto ao forno da Aurora Boreal escutando a música dos mortos de frio).

publicado por migalhas às 13:31

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