Quarta-feira, 28 de Julho de 2010

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

São 24 histórias, cada qual de um género diferente, uma por cada hora de um qualquer dia que se queira apenas feito de histórias. Neste “feito de histórias“, volume primeiro, encontra-se de tudo um pouco: ele é comédia, drama, acção, non sense, mas acima de tudo viagens e devaneios próprios de quem não encara este mundo como uma coisa chata e parada. Seja para quem pretende passar um bom bocado, seja para quem quiser ficar incomodado, seja para quem não tenha mais nada para fazer e, por isso, se sinta entediado, este é o livro que não vai adiantar absolutamente nada, seja em que situação for. Caso contrário, não teria dado gozo nenhum escrevê-lo e, muito menos, partilhá-lo convosco.

 

Já disponível em formato papel ou PDF/ePUB (gratuitamente) em http://www.bubok.pt/libro/detalles/1217/contame-historias--volume-1



publicado por migalhas às 22:43
Terça-feira, 27 de Julho de 2010

No início nunca se sabe. Aliás, do início, nada se sabe. Apenas que rolam os dedos nas teclas e deles se espera algo, do género mais uma moeda, mais uma viagem. Talvez algo insólito, mas isso é-o quase sempre. Talvez macabro, um curioso desfilar de linhas que em nada fazem sentido e que apontam para uma estrada que circula bem pelo coração de uma densa área florestal. Como que golpeada por uma afiada lâmina, tal densidade de majestosas árvores vive agora cortada quase que pela metade por esta massa de asfalto escuro que no seu cerne se intrometeu. A vegetação não gostou da ousadia, das máquinas que dias a fio por aqui andaram, tudo enchendo de fumo, barulho ensurdecedor e aquele cheiro, que desses dias ainda como que persiste nas suas folhas que chegaram a pensar iriam perder o verde que sempre lhes foi natural. Arvoredo, vegetação abundante, a rasteira, a trepadeira, todo o indício de natureza que ali sempre habitou e entre si coabitou, estava irada, revoltada com tamanha afronta. Agora bem pelo meio do que era apenas silêncio, chilrear de toda a espécie de pássaros, vento ritmado nas copas das frondosas árvores, num retrato semelhante ao paraíso por tantos desenhado, corria uma via que consigo trazia mais fumo, mais sons estranhos e assustadores, mais sobressalto e até morte. Morte de quantos animais incautos que, indiferentes às bruscas mudanças por ali operadas, apostavam as suas existências nesse troço de alcatrão para as perderem neste novo jogo do qual ainda não conheciam as regras. A natureza no seu todo estava em fúria. Algo teria de ser feito para evitar esta escalada de efeitos nefastos para a antes tranquila área verdejante que apenas conhecia a paz então reinante. Como tentáculos poderosos estendidos à distância, as raízes das mais altas árvores trataram de perfurar o chão asfaltado provocando-lhe vincos, de início à flor da pele, para adiante se espraiarem profundos a causar dano maior. Não era da idade, isso não, nem tão pouco do calor. Atribuíram até à má qualidade do alcatrão usado naquele empreendimento, mas nem isso. Eram antes as forças da natureza já em retaliação. Seguiram-se as trepadeiras e o mato denso a lançarem-se sem medo àquela ferida no seu âmago aberta para tentarem sará-la rápido e reporem a verdade do que havia sido um corpo imaculado, um corpo inviolado. Durante muitos dias, meses, dizem que anos passaram, o duelo foi titânico, o duelo foi entre as máquinas, que regressaram, e a natureza, que fez uso de quantas armas possuía para lhes fazer frente. Hoje, aquele é um espaço esquecido. Um espaço retomado pelo que em tempos foi virgem e inexplorado. Hoje de regresso está a calma. Ou talvez um inimaginável epílogo fruto de tudo o que foi usado no combate aniquilar ao que não pode ser aniquilado. Pois se uma máquina se estraga e, naturalmente, segue o seu rumo para a sucata, já na natureza nada se perde, tudo se transforma. E foi isso que sucedeu: transformação. Ali se recriou um vale encantado, daqueles que povoaram a terra há tantos e tantos milhões de anos de que já nem há memória nem ouvir contar. E agora era vê-los, Terópodes, Saurópodes, Ceratopsídeos, Estegossauros, Anquilossauros, Ornitópodes, os Beatles, os Rolling Stones, todos eles, os maiores e mais bizarros animais que já alguma vez habitaram a face da terra de novo regressados a ela, coabitando entre si, numa ilusória paz, pois que também muitos se devoravam mutuamente, mas ainda assim a demonstrarem mais pacificidade do que a que os antecedera e que se iniciara com uma simples ferida incutida bem no coração daquela densa área florestal. O tempo tratara de resgatar a tranquilidade de outrora. E para que não restassem dúvidas de que seria algo duradouro, para ficar mesmo, tratou de colocar tudo a zeros. Do princípio, qual génesis que tinha agora por obrigação fazer daquele o primeiro de muitos outros elos que, unidos entre si, iriam, tão só, protagonizar o maior de todo os feitos: o renascer, em todo o seu esplendor, da toda poderosa mãe natureza. E em fundo, a soar junto com o chilrear do Arqueopterix, do Microraptor, do Dilong ou mesmo do Sinosauropterix, a Sinfonia nº 9 em Ré Menor, Op.125, de um outro dinossauro que nem o facto de ter ensurdecido cedo evitou que se tornasse num ser bem mais genial do que muitos que sempre foram dotados de excelente audição no decurso das respectivas vidas.

 

"Alegria bebem todos os seres
No seio da Natureza:
Todos os bons, todos os maus,
Seguem seu rastro de rosas.
Ela nos deu beijos e vinho e
Um amigo leal até à morte;
Deu força para a vida aos mais humildes
E ao querubim que se ergue diante de Deus!"


Excerto do verso da Ode à Alegria, de Friedrich Schiller, utilizado por Ludwig van Beethoven.



publicado por migalhas às 15:25
Quarta-feira, 21 de Julho de 2010

Decerto não seria assim que usualmente via as coisas, analisava as situações, para depois tomar as decisões, fossem as mais acertadas ou, ainda sem o saber, as menos apropriadas. Olhei em redor e tudo me parecia maior. Eu era mínimo, disso eu tinha a certeza. Ao pé de mim, um habitante de Lilliput era um gigante de proporções astronómicas. Eu era tão pequeno que haveria ainda de ser descoberta a lente capaz de me observar. Eu era assim, naquele instante em que vi as coisas de um outro ângulo, de um modo que nunca antes havia experimentado. E como eu mais ninguém. A solo, único ser minúsculo e sem aparente importância à face daquele prato de esparguete à Bolonhesa. Quem me haveria de contar, e decerto então não iria acreditar, que no dia de hoje, logo no dia de hoje, iria acabar rodeado de molho de tomate a meias com carne picada que, mais tarde vim a saber, antes era soja granulada. As dores de parto não paravam, nem sequer abrandavam, e eu mortinho por nascer, por sair daquele invólucro vegetariano para me fazer à vida e, quem sabe, refrescar-me num qualquer lago ou simplesmente saciar-me com uma imperial fresquinha acabada de tirar. Fechei os olhos. Cerrei-os mesmo, com toda a força que me era então possível e gritei. Pela face correram-me lágrimas apressadas em, também elas, se fazerem à sua vida, cumprindo com a sua missão de expressarem aquele meu momentâneo sentir. De tudo um pouco me ocorria, num cocktail de felicidade a que juntara tristeza e êxtase em doses q.b., uma pitada de desilusão e ¾ de uma colher de sopa de esperança em que tudo isto terminasse afinal como nunca deveria sequer ter começado: como um sonho. Estava calor, disso me recordo. A cama fazia uma cova no preciso sítio onde me acolhera nas últimas horas. Os lençóis empapados e eu de ar desgrenhado, frente a frente comigo mesmo naquele espelho barato de casa de banho, comprado às presas no IKEA. Olhei a janela, o que lá fora se respirava, e logo se me entranhou aquele odor agoniante a McDonald’s. Antes a Bolonhesa, que a Marselhesa eu já conheço desta revolução que me apanhou sem aviso e me deixou neste estado, desgraçado. Ainda me tentei a regressar à cama, mas para quê? Ali já nada me esperava. Ela partira e nem uma nota, um mísero bilhete a avisar-me de que fora à sua vida, na qual não mais me incluía. Chorei, como um puto do liceu que leva uma carga de porrada de uns quantos gandins e no processo fica sem a mochila, os ténis de marca e o relógio que o pai lhe oferecera no último aniversário. Também ali perdera tudo. O Verão, toda e qualquer estação, as modas e as viagens feitas em modo excursão. Não mais me ouviriam cantar “A Portuguesa”, isso não. Olhei a sanita, tampa aberta, águas calmas aguardando a mija da manhã e em vez desta todo eu me lancei de um trago na sua profundidade. Fui pelo cano, pode dizer-se. Mas nem deixei mensagem, ou uma singela nota a referi-lo. Fui e nada mais.



publicado por migalhas às 13:21
Quarta-feira, 07 de Julho de 2010

7 De Julho de 2004. Eram precisamente 16:58 desse longínquo dia de Verão, quando se deu aqui, neste espaço, a edição do meu primeiro post. Hoje, 7 de Julho de 2010, 6 anos depois, e na precisa hora em que me estreei, aqui retorno para relembrar este percurso que já conta alguma coisa. Ou que tem vindo a contar, pois aqui me expresso para quem seja que sinta curiosidade ou prazer em seguir os meus mais diversos devaneios. São coisas minhas tornadas vossas. Uma espécie de diário pessoal, mas a que todos podem ter acesso, assim o desejem. E hoje que sobre este meu espaço decorrem 6 longos anos, apenas desejo que daqui por outros tantos continue a celebrar este meu espaço de escrita, de divulgação, de desabafo, de partilha. Aos que por cá passam, o meu obrigado e continuem. Assim como eu prometo continuar.



publicado por migalhas às 16:58
Terça-feira, 06 de Julho de 2010

havia um mundo inclinado

um outro palco, um outro estrado

onde tudo se via enviesado

qual rampa que subindo custa e descendo assusta

 

era um mundo do outro lado

de um espelho, de um lago, isso ninguém sabia

apenas que era a descer para uns

de trepar para outros

 

então alguém se lembrou de coxear

perna longa em baixo, em cima a encurtada

num equilíbrio que repôs a verdade

a custo de início, para depois mais à vontade

 

e o hábito ganhou seguidores

uns quantos cépticos, outros desconfiados

que o tempo tratou de converter

nos mais aficionados

 

tanto, que gerações se seguiram

já com a adaptação ao mundo inclinado

duas pernas, é certo

mas uma mais curta, a solucionar esse estado até então empenado

 

e a inclinação daquele mundo

coisa estranha aos olhos de quem só via aplanado

a seu tempo se solucionou nas linhas tortas daquela ideia coxa

iludindo um estado desde então instalado

agora um pouco mais endireitado



publicado por migalhas às 09:49
TUDO É ILUSÃO, DESDE O QUE PENSAMOS QUE PODEMOS AO QUE JULGAMOS QUE TEMOS.
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