TUDO É ILUSÃO, DESDE O QUE PENSAMOS QUE PODEMOS AO QUE JULGAMOS QUE TEMOS.

14
Jan 08

Alvorar com os livros, inspirá-los, expirá-los, respirá-los, querer ser uno com cada um, com todos, pele da nossa pele, carne da nossa carne. Adormecer junto a eles, nos seus braços que são as páginas e sentir cada abraço sussurrado de histórias mil que só eles dizem, só eles contam, como contam. A sua nobreza, figura respeitosa, o que em si reúnem, factos, memórias, ideias loucas ou coisas tão poucas e ainda assim de pasmar. As linhas, as sequenciais linhas de texto, a perfilar cada letra como numa parada em dia de festa. São elas que se unem para nos maravilhar, se amotinam, se revoltam, fazem-nos seus aliados, fiéis seguidores. São a ordem e a desordem, são o que querem ser, ganham vida e para a eternidade exigem viver. E nós olhamos, embevecidos, cada nova associação, cada nova palavra que se perfaz dessa vontade de partilhar e gritar ao mundo o que lhe vai lá dentro, a essência do escritor. O papel, a sua textura, o suave toque que nos acaricia os dedos enquanto canta músicas de embalar com que nos deixamos enlevar. É fácil viver-se para os livros. Amá-los como se ama uma pessoa, entendê-los, respeitá-los, expressar-lhes o nosso sentir mais profundo, apaixonado, irado, tudo partilhado. Ninguém se divorcia de um livro. A relação, mesmo breve, é para a vida. E de cada um resta sempre um pouco que nos completa, que nos acrescenta parcelas, nos ensina a crescer, nos distrai o viver. A vida, a vivida e a que eles contam, que nos narram de formas e por conteúdos tão diversos, que embelezam ou cruamente nos expõem, já só a imagino fluida nas suas páginas. Extensões dos braços e mãos que as tornaram possíveis, tentáculos das mentes que as sonharam, rodovias por onde circula a nossa imaginação, aqui sem regras, apenas ela, solta, na liberdade de um vasto prado em flor, a estender-se para todo o norte, e para o sul, e para este, e oeste, até um horizonte, vários, tantos como os que acenam a norte, a sul, a este e a oeste. Todos inalcançáveis, todos. Mesmo os que não o são. Um epílogo é prólogo e um prólogo se faz epílogo a cada hora, a cada novo ouvinte das melodias que entoam e que confundo com o canto dos pássaros, à solta na liberdade de um vasto prado em flor. Imortais páginas, tantas, a impossível morte anunciada de uma resma delas escritas, senhoras de sete vidas, todas as vidas paridas, as possíveis e as outras também. Sei-os, aos livros, para lá de mim, de toda a gente. Sei que daqui por milhentas luas, continuarão a contar, a falar a outros o que um dia lhes saboreei e me fez o viver tão mais apetecível. E nada, nem ninguém, os fará calar. Vozes que folheiam a vida com todo o cuidado e, como sequiosos vampiros, tragam-lhe o suco que depois dão apenas a provar. Um livro é um sábio mentor que nos inicia no vício ilusório de querer o que jamais se pode ter. E mesmo exposto, cínico insinua-se a cada anoitecer, para nos sossegar com as boas-noites até novo amanhecer.

publicado por migalhas às 15:48

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