TUDO É ILUSÃO, DESDE O QUE PENSAMOS QUE PODEMOS AO QUE JULGAMOS QUE TEMOS.

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Mai 07

Aquele não era um livro normal. Tinha páginas, é verdade, algumas páginas, era em cartão grosso, tinha bonecos, letras e até um enredo. Por isso, facilmente se podia confundir com qualquer outro livro seu colega. Mas não. Este livro era definitivamente diferente. E porquê? Questionam-se quantos me lêem. Por que para além destas características de todo banais num comum livro, este possuía ainda algo mais que o tornava original. Tinha da capa à sua derradeira página um buraco razoável, por onde se podia entrar e sair da história sempre que se pretendesse. Como assim? Voltam vocês a perguntar. Muito simples: basta meter a mão no buraco e entramos na história, sendo que para dela sair basta retirar a mão do mesmo buraco. Mais simples que isto nem imaginado. Mas se julgam que toda a estranheza deste livro de cartão termina aqui, na sua estrutura física, desenganem-se. Tal vai mais além e intromete-se mesmo no enredo desta história, também ela bastante curiosa. E se olhada assim, inadvertidamente e sem a devida atenção, bem que poderia passar despercebida e facilmente se confundir com uma banal história de um cãozinho que se perde e pelo caminho encontra vários novos amigos que o conduzem de regresso a casa. História simples, sem grandes recursos a artifícios literários, pois que se destina a crianças. Mas nem tudo é o que realmente aparenta e prova disso mesmo é esta história tida como simples. Ou onde é que já se viu um cão de cara suja, por exemplo? Sim, cara. Normal, é um cão possuir focinho. Que até pode estar – e normalmente até está e muito – sujo. Pacífico, até aqui. Mas... cara? Os cães não têm cara! Pelo menos os que conhecemos, do nosso contacto do dia-a-dia. Mas vão lá dizer isso a uma criança, que este cão não tem uma expressão... facial! Se tem! E passeia-a alegremente ao longo das aventuras com que recheia cada página desta sua odisseia. E eu que era capaz de apostar que aquilo era, de facto, um focinho. Um cão com focinho, como todos os outros que até então conhecera. Mas isso foi até ser confrontado com a argumentação daquela pequenita, a dona do livro, que, talvez por isso, o sabia de trás para a frente. Embora não vice-versa, pois aí o enredo mudava de figura e todo um novo mundo de possibilidades se tornava viável, bastando para tal apelar à imaginação que estava muito para além do que era explícito nas páginas do livro. A imaginação fértil de uma criança, para quem quase tudo ainda representava novidade e que lhe servia de matéria-prima para compor os seus próprios desenlaces. Fiquei a saber depois, que todos os livros que possuía eram especiais, diferentes. Em todos eles, mesmo naqueles em que não existia um buraco físico na sua estrutura, facilmente se entrava na história para dela se sair, assim que fosse esse o desejo. Em todos se vivia a magia de cada nova situação, a cada novo virar de página. Mesmo que as figuras se mantivessem e os diálogos fossem sempre os mesmos. Mesmo assim, a história teimava em nunca o ser. Transfigurando-se a cada nova leitura. Passei a ler cada história na sua companhia e a descobrir que não eram necessários muitos livros, apenas imaginação, a fluir livremente. Criatividade para ver para além do óbvio, do imediato. Aprendi tudo isso da forma mais improvável. Ou não tanto assim. Pois é com as criança que podemos aspirar a uma segunda oportunidade. A recuperar o que entretanto perdemos, em todo o nosso processo de crescimento, de nos tornarmos adultos, mais e mais complicados e com cada vez menos tempo e paciência para recorrermos à imaginação que, assim, se acomoda e estagna, se não solicitada. Redescobri o prazer de uma boa história. De muitas e boas histórias, sempre improvisadas, sempre novas. A magia está de volta! E à minha Sara o devo. A ela e aos seus 17 meses de inocência e encanto no seu estado mais puro.  

publicado por migalhas às 17:27

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