TUDO É ILUSÃO, DESDE O QUE PENSAMOS QUE PODEMOS AO QUE JULGAMOS QUE TEMOS.

18
Abr 06

Era domingo de Páscoa e Bernardo andava excitadíssimo à procura daquele sumo de que lhe haviam falado na escola. Do sumo que se bebia nesta época de paz e amor entre todos os cristãos devotos. Nem na despensa, nem no frigorífico, nada. Mariana, por seu turno, procurava no roupeiro do seu quarto a cruz que a mãe lhe havia pedido para colocar à mesa durante a refeição que os aguardava na sala grande, apenas usada nesta altura do ano para receber o senhor padre naquele que era o tradicional almoço de Páscoa da família Alcobia. Com a comida a arrefecer no tacho e o senhor padre desesperado face ao correr do tempo, que insistentemente confirmava no seu relógio de pulso com a ajuda daqueles óculos de lentes grossas e de dedadas preenchidas, Isabel resolveu procurar os seus dois filhos. A Bernardo foi encontrá-lo na cave remexendo por entre a garrafeira do pai, na esperança vã de que repousasse ali o tal de sumo pontífice, aquele que deve beber-se durante a Páscoa. Já Mariana, despejara todo o conteúdo do seu guarda-fatos e espalhara-o pelo espaço da cama e alcatifa do seu quarto, na mesma esperança vã do irmão em encontrar o que tão afincadamente procurava: o crucifixo com a imagem do Senhor. À falta de outra utilidade, usara-o em tempos para pendurar um conjunto saia casaco que, entretanto, deixara de lhe servir e, lembrava-se agora, oferecera àquela instituição de caridade que de quando em vez apelava à boa vontade dos que têm a mais para darem aos que têm a menos. Sem sumo pontífice nem crucifixo em casquinha com que decorar a mesa, Isabel recorreu a um dos seus trabalhos em barro há muito esquecidos na cave e que fizera em tempos, também por alturas da Páscoa. Este simulava a adoração de Cristo por uns quantos fiéis chorosos que o olhavam pendurado na cruz em sofrimento. De regresso à sala, acompanhada dos seus dois petizes, Isabel colocou a peça de barro no espaço que deveria ser ocupado pelo tradicional crucifixo e deu início à refeição. Não sem antes o senhor padre proceder à oração que agradecia os alimentos que ali se preparavam para degustar e com os quais contavam amainar a fome que deles se apossara há mais de uma hora atrás. Finda a oração, seguiu-se uma azáfama e um tráfego aéreo acima daquela mesa que mostrava claramente o apetite que a todos atacava por igual. Nem o senhor padre parecia querer controlar as boas maneiras recomendáveis, dando mostras de uns ímpetos animalescos que repetidamente atribuía ao apetite voraz aliado ao adiantado da hora. Munido de faca e garfo, nem ligou ao que prega na freguesia e que defende que a primazia deve ser dada às senhoras e crianças presentes. Qual quê. Naquele momento de aflição, era mais: os ratos são os primeiros a atirarem-se à comida do Alcobia. Isabel e Tomás Alcobia, seu esposo, estavam atónitos com a falta de postura do padre. Que nojeira ele fazia em seu redor. Por sorte havia a Mercedes, a mulher-a-dias. Que, no dito seguinte, haveria de recolher os despojos daquela refeição quando viesse fazer a faxina à sala e voltar a fechá-la até ao próximo ano. O que ninguém previra, nem mesmo o retirado professor Zandinga, era que aquela fosse a derradeira refeição do senhor padre, até então tão empenhado em levá-la a bom porto, entenda-se, às suas entranhas. Apanhado de surpresa por um pedaço de galinha do campo que se alojou onde não era suposto, impedindo-o de respirar, o senhor padre fraquejou. Esbugalhou os olhos e levou ambas as mãos à garganta tentando impedir o inevitável. Na génese de todo aquele aparato, estivera algo com que não contara e que precipitara a sua morte: a imagem da queda do Senhor da cruz, bem na frente dos seus olhos. Este, igualmente incrédulo face aos modos do santo padre, resolvera atirar-se do alto da cruz que ocupara de forma precária até então, vindo a cair redondo sobre o tampo da mesa, o que lhe provocou algumas fracturas expostas. Ainda tossiu e esperneou, mas nada do que lhe fizeram de seguida o fez voltar à vida. Nem a ele, nem ao  senhor padre. Em tom de remate final, Mariana ainda teve tempo de comentar: com pregos Alcobia, nada disto acontecia!

publicado por migalhas às 10:39

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