TUDO É ILUSÃO, DESDE O QUE PENSAMOS QUE PODEMOS AO QUE JULGAMOS QUE TEMOS.

29
Dez 05
"Não há ninguém tão rico que não tenha nada para receber e ninguém tão
pobre que não tenha nada para dar."

Sir Charles Chaplin
publicado por migalhas às 16:21

Bom era que em certos períodos da nossa vida nos fosse permitido ausentar. Desaparecer, nem que fosse por um instante efémero, como tudo o resto. Cortar a ligação que nos prende ao mundo visível como um cordão umbilical e durante algum tempo abstrairmo-nos do que somos e, por conseguinte, do que nos rodeia e enlaça como uma teia. Vaguear pelo limbo apenas das recordações boas, das memórias doces e por lá ficar até ao limite do possível. Ser implica estar. Estar implica agir. É-nos pedido que sendo, ajamos. Que marquemos presença, definindo território. Mas quantas vezes não queremos ser, estar, agir ou mesmo sentir. Apenas preenchidos por uma vontade férrea em partir, sem a preocupação premente de logo pensar em regressar. Dominados por uma força que não controlamos e nos obriga a desfrutar do momento em que somos relegados para fora do círculo de todos os dias. Numa viagem por um espaço e tempo indefinidos, que não se sentem mas, sequiosos, sugam-nos mente, corpo e alma, deixando-nos vazios e por norma leves, como uma folha caduca que baila ao sabor da brisa que passa a ser nosso único alento. Podia ser apenas e só um momento. Que embora breve fosse apaziguador e nos fizesse regressar à terra de pazes feitas com quem somos ou nos exigem que sejamos. Bastaria que o mundo parasse de rodar, de girar sobre o seu eixo e tudo se imobilizasse em resposta aos nossos desejos. E que, retomado o seu ritmo, nos encontrasse então já renascidos para a vida que nos segue e exige presença constante a cada segundo que passa. Recauchutar a vida, é o que se pede. Para que ela se prolongue sem ser um fardo, mas sempre um prazer. Para que os dias não se arrastem, antes se anseiem novas alvoradas. Para que a estada seja um longo passeio pelo parque e nunca uma corrida furiosa e sofrida. Parar é preciso. Moderar a avidez com que se deseja tudo a todo o momento. Não somos de ferro, mas mesmo que o fôssemos arriscaríamos a enferrujar um dia. Desde que nos acendemos que o mais certo é um dia apagarmo-nos. Não nascemos com interruptor, mas devemos calcular pausas e cumpri-las. Porque é necessário, porque é essencial. Às vezes largar amarras, libertarmo-nos, é quase uma exigência. Como o é o respirar, o alimentar, o amar. Não fosse a existência um equilíbrio, que só não é perfeito porque assim não o equacionamos.
publicado por migalhas às 15:09

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