TUDO É ILUSÃO, DESDE O QUE PENSAMOS QUE PODEMOS AO QUE JULGAMOS QUE TEMOS.

27
Set 05
Pára, arranca. Pára, arranca. Engreno a primeira, avanço escassos centímetros no alcatrão quente e quando me preparo para desenvolver uma segunda, nova paragem. Paro. Espero. Quase desespero. Olho pelos vidros corridos até acima, para melhor desfrutar do fresco artificial proporcionado pelo providencial ar condicionado, e lá fora observo outros e outras como eu: à beira de atingirem o desespero. Os olhares são quase de súplica, de entediante impotência face ao impasse do momento, repetido vezes e vezes em doses já quase a roçar os limites do humanamente tolerável. As filas de veículos estendem-se para lá do que a vista alcança. O calor abrasador vê-se em ondas de ar quente que se libertam do asfalto ou dos tejadilhos e capôs de cada carro, proporcionando uma imagem distorcida e trémula do que está para diante deles. No rádio, as notícias sobre a situação do trânsito não são animadoras. Entre outras coisas, dão conta de filas intermináveis em ambos os sentidos. As avarias acumulam-se. De quando em quando, um novo carro encosta à berma e mostra o frenesim dos seus quatro piscas, orgulhosos em alertar para um sobreaquecimento tornado realidade. Para esses condutores, a hora é de desespero efectivo. A ténue linha que lhes permitia estar ainda do lado de cá, esbate-se nesse momento e coloca-os nas mãos da pré-loucura. Passo por eles e olho-os com alguma compaixão. Pobres coitados. Se fosse comigo… nem é bom pensar nisso. Avanço mais uns centímetros e consigo meter uma segunda. Ainda não é desta que a terceira tem oportunidade de se evidenciar. Volto a parar. Olho à volta. Tudo em meu redor beneficia de uma aura doentia, como se o céu estivesse a escassos centímetros das nossas cabeças, fazendo pressão sobre os veículos contra o alcatrão amolecido pela extrema temperatura. 30 minutos certos para percorrer uma distância ridícula. Nem um quilómetro perfiz neste pára e arranca da última meia hora. Dá que pensar no que será daqui por mais uns aninhos. Prevejo que não muitos. Pois que a situação já se encontra insustentável que chegue, mas com a tendência para piorar, obviamente. Penso na minha filha. Que irá ela encontrar quando tiver idade para conduzir ou quando tiver independência para possuir um carro seu? Haverá então espaço nas povoadas vias de circulação automóvel para o crescente número de veículos que se antevê? Não estarão elas já saturadas de movimento ou há muito rebentado pelas costuras? Ou será que nessa altura já nem são necessárias vias físicas para se circular? Ouço buzinar. Um espaço relativamente deserto de carros preenche o campo de visão imediatamente à minha frente. Engreno a primeira e avanço. Avanço até conseguir atingir as quatro das cinco mudanças de que disponho. Volto a abrandar, esperançado de que não seja necessário retomar o ponto morto. Esperança vã. Agora sei que é irremediável o meu atraso. Saí com uma antecedência que julguei suficiente para chegar uns minutos antes da hora marcada. Mas agora vejo ser impossível sequer cumpri-la. Lembro-me do filme “Um dia de raiva” e dá-me vontade de imitar o personagem interpretado por Michael Douglas. Fantástico desempenho aquele. Olho a estrada à minha frente e não vejo senão carros parados. Inanimados. Como todos nós. Impotentes face ao exagero de tráfego acumulado. Aqui me encontro eu. Naufragado num mar de chapa, de gente fatigada, sem ânimo, com tanto para fazer e no entanto tão pouco tempo. Olho em frente e não descortino solução. Apenas sei que não vou cumprir um horário combinado com tanta antecedência. Algo que devia deixar-me chateado. E, no entanto, isso não acontece. Limito-me a olhar a estrada à minha frente, preparado para arrancar suavemente ao sabor de uma primeira. Como se houvesse alternativa.
publicado por migalhas às 17:24

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