TUDO É ILUSÃO, DESDE O QUE PENSAMOS QUE PODEMOS AO QUE JULGAMOS QUE TEMOS.

21
Set 05
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Lá do fundo, bem do seu fundo distante que apenas por dedução me permitia assumi-lo, um ruído surdo fazia-me chegar um parecer que quase diria imaginado. Enorme, deslumbrante, abissal na sua imponência em forma e feitio, aquele espaço imperturbável impunha o respeito dos grandes empreendimentos da humanidade. A que se juntava o misticismo, o receio pelo desconhecido, a vénia com que, inconscientemente, lhe louvávamos a postura grave e ainda assim serena. A reverência implícita, a submissão que o simples olhar determina como uma regra a que livremente nos sujeitamos, o temor a que o silêncio circundante nos verga. Não é nova esta sensação, como nova não é a estrutura que o propícia. Olhar o seu abismal fim do topo deste vertiginoso ponto de partida, mexe com a mais bem implantada estrutura. Não há alicerce que não balance, coração que não dispare ou olhar que não se aguce, com laivos bem perceptíveis de espanto nele espelhado, de cada vez que o contemplamos com a exigida deferência. A descida que nos arrasta para as entranhas da terra húmida e à qual nos entregamos, embora sempre receosos das suas intenções, em pouco tempo nos leva às trevas, que no seu ventre experimentamos como algo nunca antes sentido. Se a espiral nos persegue desde os passos que iniciámos muitos metros acima, já a labiríntica visão de grutas plenas de desconhecido apenas ali nos confronta. Depois é o tremor que se apodera dos nossos corpos, as lembranças do tempo que se quedou naquelas paredes ressudadas, o peso incontornável da história dos Cavaleiros Templários que ali se aventuraram e que em cada esquina nos persegue como assombrações desejosas de se materializarem. A cada passo uma nova baforada de ar quente é expelido, para de peito feito logo se digladiar com o frio mórbido que lhe dá as boas-vindas. Mas como tudo o que se inicia também esta obra mágica ganha um epílogo digno do que a antecedeu. Acatamos como seus servos, cada ordem sua em prosseguir. Não que o receio nos possibilite voltar atrás, pelo que nos consciencializamos de que é a seu mando que seguimos os caminhos tantas e tantas vezes trilhados no passado. Sempre adiante. Pois o relevo continuado e sem mácula que nos cobre a pele por todo, não se deve somente às amplitudes térmicas vividas momentos antes. Uma vez no exterior, voltamos a experimentar o toque sedoso dos raios quentes do sol que sempre soube que o voltaríamos a olhar com este mesmo ar: de uma saudade que não admitimos mas com que sonhámos mesmo sem querer. Desde que olhámos o fundo daquele poço profundo, que nos toca antes mesmo de lhe sentirmos o bafo cavernoso só ao da morte comparável.
publicado por migalhas às 18:05

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