TUDO É ILUSÃO, DESDE O QUE PENSAMOS QUE PODEMOS AO QUE JULGAMOS QUE TEMOS.

15
Set 05
Na orla da ilha, naquele ponto em que a areia branca e fina como pó se banhava no mar chão de um turquesa quase impossível, um caixote feito de tábuas de madeira, agora encharcadas, repousava. Chegara ali a mando da maré, que agora recuara para lhe consentir algum espaço que lhe permitisse finalmente descansar. Repousar da viagem que fizera à deriva de um mar, ora revolto, ora calmo e imperceptível, e que de tão longa já nem sabia os crepúsculos matutinos a que assistira. Agora ali, estática, imóvel, parecia começar a querer demarcar o seu território ainda recente, aconchegando-se mais e mais na fina areia de cada vez que a suave ondulação a tocava como a querer reclamar o que fora seu durante tantos e tantos dias a fio. O sol lançava as primeiras chispas de um calor prestes a repetir-se tórrido e a cada nova investida contribuía para que aquela madeira sofrida experimentasse os primeiros momentos de secura. Como caixote, poucos atractivos possuía. Era igual a tantos outros, com a diferença de que este era viajado. Origem não se lhe conhecia, mas aqui encontrara o seu destino a que não fora alheio o extenso oceano com as suas correntes e marés. Numa praia que muitos apelidariam de paradisíaca mas que nem por isso conhecia outra vida senão a da farta vegetação do seu interior ou da fauna que por ali se dera e que hoje reinava num exclusivo a que não se adivinhava termo. Tirando estes elementos privilegiados, apenas o mar tinha acesso ao seu espaço físico. Embora confinado ao limite do seu contorno, para lá do qual não se aventurava ou, se o fazia, era em virtude da fúria com que, por vezes, Neptuno contra ela impelia as suas vagas. Vista pelo olhar acutilante das gaivotas que aqui e ali pontuavam os céus com os seus bailados acrobáticos, a ilha desenhara uma mancha escura na clareza do mar que a circundava, numa forma circular quase perfeita. Do lado norte agreste, com as suas falésias escarpadas, revelando-se mais bela para sul de onde se destacava a exclusiva ligação suave com o mar vizinho: a praia. Única porta de entrada possível, por onde, sem pedir licença, o caixote de madeira se introduzira e agora se propunha a ficar. Do areal albino brotavam de forma desordenada alguns rochedos dispersos, que davam ao seu todo a ideia de um rosto vítima de acne que lhe roubava a hipótese de brilhar em pleno. Também algumas palmeiras se vergavam sob o peso do sol majestoso que, por ali, era dono e senhor a tempo quase inteiro. Na área da praia reinava uma calma difícil de descrever. Nada nem ninguém alguma vez experimentara tamanha brandura, tamanha serenidade. Um estado virgem que, desconhecido de qualquer humano, se mantinha como último bastião ou derradeiro reduto dos tempos em que o mundo era ainda uma noção recente. Talvez aí repousasse a razão de aqui ter finalizado a sua longa viagem. Um caixote, algo tão simples como um caixote de tábuas de madeira incertas que talvez em tempos tenha sido de alguma beleza, que representasse, como um ícone, a única prova da humanidade a que fora dada permissão para aqui permanecer. Como os outros privilegiados. Que, no seu coração, no seu âmago, desfrutavam já das dádivas deste templo sagrado. Tudo o resto com origem no animal homem era aqui, neste genuíno paraíso, impedido de atrever-se. As forças da natureza haviam há muito assumido o governo deste pedaço de céu na terra e só uma força maior – que sabemos não existir – as poderiam destronar. O caixote de madeira, tosco, gasto e desprovido de toda a beleza e utilidade que um dia tivera, terminara aqui a sua longa travessia. Aqui permaneceria, enquanto a ilha o quisesse. Ou até que o devolvesse ao mar ou este o reclamasse e ganhasse a contenda que o opunha ao areal. Estava agora entregue a outros. Como sempre estivera. Não era novidade. Para ele, para toda a humanidade.
publicado por migalhas às 12:39

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