TUDO É ILUSÃO, DESDE O QUE PENSAMOS QUE PODEMOS AO QUE JULGAMOS QUE TEMOS.

03
Jun 05
As primeiras linhas de Junho, agora paridas do ventre das ideias, esvoaçam livres no papel que as acolhe, linha a linha, numa cumplicidade que relação alguma ousa imitar. Por fim libertas do seu longo cativeiro, da gaiola onde se detinham receosas do mundo, fazem-se à vida em todo o seu esplendor.
Como um puzzle, que se constrói peça a peça, também estas frases, mais do que um mero esboço, são agora uma realidade assente na formação de palavras, na conjugação não arbitrária de letras que, uma após outra, se empenham na forma e efeito do discurso escrito. Como um grito que nos abandona numa viagem apenas de ida para nos servir de alívio, mesmo que momentâneo, ou da mesma forma que a serena paz serve de epílogo à mais voraz das tempestades, a palavra é, indiscutivelmente, um purgante da alma. Uma força da natureza tão rebelde quanto mais trela lhe dermos. Pois que o crivo somos nós e é sabido como este pode ser apertado e estreito no momento da verdade. E porque a força da palavra é enorme e indomável, a ela é permitido perdurar no tempo, indiferente ao desfilar das gerações ou às mutações do mundo. Lado a lado, de braço dado com Cronos que, por muito injusto que possa ser, é a nós e só a nós, arquitectos dessa mesma palavra, que concede um prazo, estipula uma validade, num Dharma pré-definido a que somos alheios. Será esse nosso destino traçado, e para o qual não fomos nem sequer consultados, razão de alguma da nossa ira? Ou motivo de força extra, incentivo divino para espremermos o que nos foi concebido e desfrutar cada dia como se fosse o último? Seja qual for a razão, ou mesmo a nossa decisão, a palavra, essa, será nossa companheira a toda a hora e em cada acto. Como uma confissão a que sozinhos, ou num ombro amigo, nos permitimos, de forma a partilhar o que nos vai cá dentro. Pois é sabido que, não exteriorizado, o nosso eu mais profundo pode ser causa de caos ou desgraça pessoal. Pelo sim, pelo não, em caso de urgência, ou à falta do tal ombro conselheiro, o recurso à palavra pode aplacar a fúria, a desilusão, a incerteza, ou até conter alguma exaltação extrema. Pode ser o libertar de um pássaro há muito enclausurado ou o colocar de uma trela curta a um animal sempre habituado à liberdade plena. É o que nós quisermos que seja e está na ponta de uma caneta, de um lápis ou ao alcance de umas quantas teclas de um teclado de computador. Um caso típico em que, indiferentemente do meio, o fim será sempre o mesmo: desabafar por via da palavra.
publicado por migalhas às 17:51

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