TUDO É ILUSÃO, DESDE O QUE PENSAMOS QUE PODEMOS AO QUE JULGAMOS QUE TEMOS.

17
Mai 05
Esta manhã aconteceu-me algo caricato. Aliás, agora que penso bem no assunto, posso mesmo dizer, por experiência própria, que se trata de um fenómeno recorrente a que nos sujeitamos diariamente sem sequer dar muito conta dele. A pedido da minha mulher, dirigi-me a uma farmácia onde deveria comprar três exemplares de uma determinada marca específica de escova de dentes. Após uma procura no stock existente, fui confrontado com o facto de só terem de momento um exemplar. “Da parte da tarde já temos mais”, apressou-se o farmacêutico a comunicar-me de forma prestável e solícita. É claro que perante tão escassa oferta, e necessitando eu de três, não me fiz rogado, tendo aceite a única ali disponível. Como não gosto de deixar as coisas pela metade - que neste caso era mais por um terço - resolvi visitar uma outra farmácia a caminho de casa. Lá chegado, fiz o mesmo pedido. Nova procura entre as existentes em stock e novamente sou brindado com o último dos exemplares, devidamente rematado pela justificação “da parte da tarde somos capazes de já ter mais”. Mas porquê apenas da parte da tarde? Eu queria era que tivessem sido capazes de ter já, agora, neste momento em que aqui vim, o que eu queria e não da parte da tarde. Será que se eu ali fosse da parte da tarde, arranjaria de certeza as duas escovas de que necessitava? Ou iriam dizer que “talvez amanhã já fossem capazes de ter mais”? Fico sem saber. Assim como fico sem saber porque é que, se só tinham um exemplar daquele artigo, não se preocuparam em pedir mais e assim evitar defraudar o cliente? Felizmente necessitava apenas de três escovas daquelas. Agora imaginem que tinha uma encomenda de 10! Teria eu de percorrer 10 farmácias da nossa vila de Oeiras? Se pensar que cada uma apenas possui um exemplar daquela escova, faz sentido o meu raciocínio, certo? Isto passou-se numa farmácia, mas o fenómeno é extensível a muitos outros sectores do nosso comércio. Veja-se o caso, também ele típico, dos restaurantes. Quantas e quantas vezes chego a um restaurante para almoçar, peço o que está na lista como prato do dia e recebo como resposta “esse já não temos”! Já não têm? Então estou num restaurante, à hora de almoço - logo hora de servirem o que têm na lista - e já não têm? Então para que é que serve um restaurante, se à hora das refeições já não têm aquilo que colocam na lista? Não é para isso que existem os restaurantes? Se calhar só servem salada de atum com feijão frade ou pataniscas de bacalhau com arroz de feijão à hora do pequeno-almoço. Única forma de entender como, chegada a hora de almoço, estes e outros pratos do dia já tenham acabado. Será que não estavam a contar com clientes para aquele dia, àquele almoço? Então para quê darem-se ao trabalho de abrirem, escreverem uma lista, em resumo, de existirem? Será que o gozo todo está em criar expectativas nos esfomeados clientes e depois brindá-los com vários baldes de água fria? Talvez. Mas não fica por aqui. Fui aos correios enviar duas cartas registadas. Pedi ao balcão se me disponibilizavam os respectivos impressos, ao que o funcionário me respondeu “de quantos é que precisa”? Então querem lá ver que estes impressos, que em tempos estavam expostos fora do balcão para que as pessoas os preenchessem antes de serem chamadas pelo seu número e assim evitarem esperas inúteis, agora também são racionados? Apeteceu-me perguntar ao senhor se era ele que os pagava, para estar a contabilizá-los daquela forma. A fazer-me lembrar o que em tempos acontecia num mini-mercado de um certo aldeamento turístico no Algarve, onde os produtos eram extra-taxados de uma forma estúpida, mas para nos cederem um mísero saco de plástico, de qualidade duvidosa, para os transportar, era quase necessário pedir por favor. Até ao dia em que acordei menos bem-disposto e logo por azar calhou-me a mim lá ir comprar o pão. Verdade se diga, a partir de então denotou-se um menor apego aos ditos sacos, ao ponto de hoje este ser já um assunto do passado. Em conclusão, assiste-se um pouco por todo o lado ao síndrome da “dose única”, como eu lhe chamo. Um fenómeno recorrente da nossa praça que se não for devidamente confrontado com a contestação generalizada de todos nós, terá certamente tendência para alastrar a níveis insuportavelmente ridículos. E depois quem é que vai sofrer com tudo isto?
publicado por migalhas às 12:14

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