TUDO É ILUSÃO, DESDE O QUE PENSAMOS QUE PODEMOS AO QUE JULGAMOS QUE TEMOS.

05
Abr 05
Os dias já estão bem maiores. A diferença é notória e a ela se deve a recente mudança horária. Anda tudo bem mais feliz e contente, pois parece que os dias levam vantagem em relação à noite. O que me deixa preocupado, atendendo à minha condição de ser anormal. Anormal, diga-se, em relação aos demais humanos e aos olhos deles. Pois que eu não me considero como tal. O que realmente faz de mim um ser diferente, para escolher um termo mais simpático, é o facto de eu ser um vampiro e, como tal, imortal. Uma chatice, se querem saber. Principalmente neste período da Primavera/Verão em que a duração dos dias se sobrepõe claramente à das noites. E como é durante o escurinho, ou se quiserem, ao abrigo da intensidade luminosa do sol, que eu sorvo o suco da vida e me passeio alegremente por aí, é natural que fique preocupado pelo número escasso de horas em que posso fazê-lo com tranquilidade. Até porque é sempre aborrecido estar a preparar-me para afinfar uma dentadinha num suculento pescoço de dama, quando entra de rompante nos seus aposentos - não o marido ciumento, isso nunca - mas os primeiros raios desse temível astro rei que vos brinda a vós com a sua luz e calor, mas a mim me atrapalha por via desses mesmos atributos. Obriga-me a adiar o festim e, muitas das vezes, a sair de calças na mão, sem ter sequer tido oportunidade de terminar o servicinho. É desagradável, acreditem. Até já tentei usar uns óculos de sol de marca - que há quem diga que é meio caminho andado para serem realmente bons -, mas nem isso deu qualquer resultado. Por conseguinte, vejo-me obrigado a passar grande parte do tempo naquele mausoléu húmido, cheio de verdete e com um intenso cheiro a bafio, ansioso pela chegada - cada vez mais tardia - da penumbra, que me permita sair para a rua e, por umas escassas horas, tentar saciar este meu incontrolável apetite por sangue de jovens donzelas ainda virgens. E já que falo nelas - nas virgens, entenda-se - aproveito para referir que também neste particular vou tendo cada vez mais dificuldades em me safar. Ainda me lembro de há coisa de um século atrás, para não ir muito mais longe, em que a abundância de donzelas por estrear era de tal modo, que até chegava a aborrecer. Aquilo era cada tiro, cada prato. Mas hoje, 100 míseros anitos depois, vá-se lá encontrar uma jovem com essas, cada vez mais raras, características. Por isso, desenganem-se aqueles que pensam que a vida de vampiro é uma maravilha. Não é. Isso vos garanto. E se ainda tiverem dúvidas, depressa as dissipo com mais este pequeno, mas decisivo, pormenor: não nos é permitido saborear alho. Sim, tal e qual como vêem naquelas produções hollywoodescas de baixo orçamento, em que a nossa classe tem sido tão mal retratada. Agora imaginem um suculento bife - mal passado, em sangue de preferência - sem o imprescindível acompanhamento de um delicioso molho à base de alho. Conseguem imaginar? Pois eu não. E mesmo assim, por cá vou tendo de andar atormentado a cada dia por esse castigo em forma de desejo que, sei-o bem, nunca irei poder satisfazer. Posto isto, tudo isto que aqui vos expus, ainda acham que vida de vampiro é canja? Regresse depressa o Inverno e as suas longas e escuras noites. Ao menos isso.
publicado por migalhas às 11:59

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