TUDO É ILUSÃO, DESDE O QUE PENSAMOS QUE PODEMOS AO QUE JULGAMOS QUE TEMOS.

26
Nov 04
Enquanto se deslocava rapidamente num voo elegante e rasante às calmas águas daquele extenso lago, o peixe alado fitava o horizonte. Sabia que para lá daquela linha fictícia repousava a resposta que ele tanto procurava. Sabia-o com a mesma certeza que uma mãe sabe que jamais se libertará do filho que gerou, com a mesma certeza de que é a morte que remata cada vida. E embora já por muitas outras vezes tivesse tido a oportunidade de fazê-lo, nunca o concretizara realmente. De todas elas algo lhe invalidara o ensejo. O desejo era grande, a vontade suprema, mas sentia que, no último instante, algo o demovia das suas intenções. Por isso, nunca o conseguira antes. Bater asas e levantar voo sem receio do que pudesse vir a encontrar para além daquela linha que se desenhava lá longe e que delimitava claramente o mar profundo do céu imenso, fora um passo a que só agora dera forma. Não queria partir sem antes saber o que o trouxera. Qual o propósito de, sendo um peixe, poder bater asas e voar. Teria sido ele um ser especial? Dotado de características que só aos eleitos são permitidas? Tinha de sabê-lo, agora que se preparava para a partida final, aquela que o haveria de levar a uma outra dimensão. Por isso batia as asas com o mesmo vigor com que se solta um último fôlego antes de abraçar a luz. Não desfaleceria sem antes saber ao que viera. Porque viera. E porque viera assim, diferente dos demais que conhecera da sua espécie. Sempre ouvira dizer que se lhe fosse permitido voar, então deveria ter sido pássaro. Em contrapartida, se era para viver debaixo de água, sob a pressão do extenso oceano, então deveria ter sido peixe. E ele? Ele que se adaptava a ambos os meios ambientes, por mais antagónicos que fossem? Seria ele um peixe? Um pássaro? Um peixe pássaro ou um pássaro peixe? A ansiedade de querer saber fazia-o acelerar a sua corrida que agora era também uma corrida contra o tempo. O pouco tempo que ele sabia esperá-lo. Sentia-o e sabia-se a partir aos poucos, a cada novo bater de asas que o levava um pouco mais longe. Na esperança de descobrir a resposta à pergunta que insistentemente o perseguia desde os primeiros segundos da sua vida, cerrou os olhos e sonhou. Em má hora o fez. Pois um pinheiro mais alto e curiosamente localizado na sua rota de colisão, proporcionou um estrondoso embate que lhe valeu uma visão idílica, decorada com estrelas, cometas, planetas e outras manifestações próprias de quem acaba de colidir violentamente com um tronco que, inadvertidamente e por escassos momentos, se interpôs no caminho. Travado o seu ímpeto, o seu avanço, rodopiou, vacilou e protagonizou uma queda de uma altura bastante considerável, que só terminou no momento em que se entranhou nas águas profundas e gélidas do lago. Terá mesmo perdido os sentidos que logo recuperou ao tocar o manto frio que o aguardava alguns metros abaixo. Ao contrário de um pássaro, que seguramente se teria afogado em poucos segundos, nadou ágil por entre a corrente, logo retomando o rumo a que se propusera. Ainda mal refeito do que lhe acontecera, foi no entanto acometido de uma outra visão. Esta menos dolorosa e em forma de esclarecimento. Sem querer, tinha descoberto a razão, a resposta que há tanto tempo procurava. Porque sendo peixe, voava e porque sendo pássaro, nadava. Acabara de ser salvo exactamente devido a essas suas características insólitas. Se não as possuísse, ter-se-ia finado com toda a certeza. Mas não. Fora salvo e agora sabia porque nascera assim. Finalmente fizera-se luz na sua mente. Um dia – que fora este – ser-lhe-iam úteis as características de que era único possuidor. Tão úteis, que iriam ao ponto de lhe poupar a própria vida. E descobrira-o apenas no momento em que tinha de ser. No momento que estava marcado no seu mapa da vida. E não noutro qualquer ou quando ele quisesse, por muito que quisesse. Aliás, como tudo aquilo que procuramos em vida. Por muito que procuremos ou queiramos descortinar, não adianta forçar. Pois as coisas têm um tempo para acontecer e só no momento próprio se tornarão realidade. Para tudo há um momento na vida. Talvez por isso a vida seja, tão só, um acumular de muitos e diversificados momentos.
publicado por migalhas às 10:46

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