TUDO É ILUSÃO, DESDE O QUE PENSAMOS QUE PODEMOS AO QUE JULGAMOS QUE TEMOS.

27
Set 04
Regressei recentemente a um cantinho que durante muitos anos partilhei com os amigos de então e que hoje, passada mais de uma década, revisito com saudade. O lugar em questão está hoje mais votado ao esquecimento e já não se sente o calor do convívio que ali se viveu durante muitos e atribulados dias daqueles loucos anos 90. Os namoros, os amigos, os interesses, as escapadelas que todos ali dávamos para estarmos apenas juntos e partilharmos o prazer das respectivas companhias. Desses tempos ficaram algumas fotos nas paredes - fotos essas que o tempo degradou - e muitas outras provas da presença de cada um naquele que era o nosso espaço por excelência. Ali se formou o nosso grupo de rock, ali se compuseram inúmeros temas, ali nos juntámos em sessões que se prolongavam noite dentro e onde improvisávamos horas a fio apenas pelo prazer da companhia e da música que tanto nos unia e preenchia. Hoje olho aquelas paredes recheadas de recordações, de datas inscritas que o tempo não apagou, de pensamentos escritos, de fotografias que me fazem viajar ao passado e pelo passado e sinto uma nostalgia que me preenche e alegra. Porque foram tempos que não se repetirão, porque foram tempos de loucura própria de quando se é mais novo, porque foram tempos que deixaram uma saudade difícil de apagar. Mas essencialmente porque a maioria daqueles com quem partilhei aquele espaço ainda hoje se mantêm por perto e com eles continuo a lidar dia após dia. A amizade mantém-se, cresceu mesmo e se perpetuará no tempo, desta vez para o futuro que sei será um prolongamento do que hoje ali recordo com saudade. Muitos planos ali se traçaram, objectivos, desejos, sonhos. Se não se realizaram - se calhar nem 10 % dos mesmos - pouco importa. Pois na época eram essas ambições de quem é novo e tem sonhos que nos moviam. Que nos faziam caminhar e nos serviam de motivação. Foram horas de conversa que nos mantiveram unidos, ajudaram a criar laços inquebráveis e contribuíram para o cimentar da nossa amizade. Ao voltar àquele local, hoje praticamente esquecido, sinto que muitas e muitas histórias ali se contaram, ali se viveram e só lamento que as paredes não me as possam recordar uma a uma. Ficaram os vestígios desses tempos bons que não mais hão-de voltar. Tempos de loucuras próprias de quem começava a abraçar uma vida de mais responsabilidade e que já então sabia haveria de apagar aos poucos o que ali se vivera. Hoje já ninguém ali se desloca. O que não quer dizer que não se sinta ainda, aqui e ali, o vibrar de tudo aquilo que então se viveu. Eu voltei. E ao fazê-lo, voltei igualmente a sentir um estranho arrepio, uma estranha sensação que há muito julgara esquecida. Um sorriso acompanha cada nova espreitadela a cada fotografia que, embora perdida na memória do tempo, continua bem viva na minha memória e na daqueles que as protagonizaram. Eles hoje já não frequentam este local. Mas se cá voltassem e o olhassem como eu voltei a olhar, iriam sentir que nada mudou, que a amizade perdurou e que tudo o que ali se viveu jamais se perderá. Porque foram dias únicos que preencheram os nossos corações e nos fizeram felizes então, como ainda o fazem hoje. Tanto tempo passado.
publicado por migalhas às 00:06

Setembro 2004
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4

5
6
7
8
9
11

12
14
16
18

19
21
23
24
25

26
29


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

subscrever feeds
facebook
mais sobre mim
pesquisar
 
blogs SAPO