Domingo, 29 de Maio de 2011

pelas frinchas desta porta entra o ar arreliado, que não se querendo sozinho lá fora faz deste que aqui tento suster seu aliado.

entra à socapa, sem modos educados, isento que se julga de pedir permissão.

acha-se dono e senhor de todo o espaço, mesmo o que julgava apenas meu.

entra, que não o consigo reter lá fora, para vasculhar, para conjurar com este que aqui me serve de provisão. atento retenho o que segredam, o que congeminam, que não posso privar de respirar e por isso este ar é-me essencial.

os dois a um canto e eu a fazer-me despercebido.

de um lado, o mais pesado, bafiento, aquele que aqui vive comigo.

do outro, um mais respirável, afável, mas desgostoso por não poder ser um todo continuado, isolado de toda a sua vastidão por portas, janelas e todas as demais fronteiras que a toda a hora se interpõem e o impedem de se tornar, por fim, uno.

felizmente para ele o mundo tem frinchas, tem passagens, fissuras, todo o género de escapatórias por onde ele se intromete e sem medos tudo faz para se completar.

e da mesma forma que se intromete por entre estas paredes que julgava só minhas, também se faz convidado a visitar aquelas outras que entre si guardam tantos outros seus parentes, uns mais pobres que outros, mas que lhe são família a que se quer reunir.

e se ali o ar que se lhe deu, ali estava ele; e se acolá o ar de poucos amigos, ele acolá estava; e se naquele outro canto morava um ar arreliado ou um ar atento, encavacado, enfadado, atarefado ou até mesmo um ar de rock (que em tempos tão bem serviu de impulso à carreira de um conhecido músico da nossa praça), fosse qual fosse, a todos se apresentava e por entre todos eles se imiscuía e tentava a tal união, aquela que faz a força.

às conquistas recentes do ar do campo - puro, limpo, o mais saudável, dizem -, do ar do mar - também ele muito recomendado pelos médicos, ou pelo seu iodo ou pela sua intensa capacidade de regenerar, e, nessa perspectiva, o intenso e inigualável cheiro da maresia - ou, já num extremo totalmente oposto, do ar da cidade - poluído, espesso, quase irrespirável, um ar de cortar à faca –, seguir-se-iam incursões constantes por espaços alheios, única forma de se apropriar dos poucos membros, órgãos, parcelas, o que fosse, que sabia seus e que de nada serviam dispersos, desunidos, tresmalhados, cada um a fazer por si, em oposição ao que, unos, num todo imensurável, poderiam fazer, ser, a dar ares de coisa enorme, arrebatadora.

pela parte que me toca, apenas não prescindo do ar que me enche os pulmões.

é pouco, bem sei, mas por ora suficiente.

dizem-me que ando cá com um ar, que mais pareço um morto vivo.

é da falta de praia, defendo-me.

que assim que se puser um tempo em condições, que se desfizer este já quase eterno ar de chuva, abandono este buraco e ponho-me ao fresco.

quem sabe uma mudança de ares me faça bem, me anime.

que isto tem todo o ar de quem nos próximos tempos vai estar sem fôlego e eu com falta de ar é que não posso.

por causa do coração, sabem.

 

inédito de migalhas (100NEXUS_2011)



publicado por migalhas às 15:03
fixe!!!
ana a 29 de Maio de 2011 às 17:56

TUDO É ILUSÃO, DESDE O QUE PENSAMOS QUE PODEMOS AO QUE JULGAMOS QUE TEMOS.
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