TUDO É ILUSÃO, DESDE O QUE PENSAMOS QUE PODEMOS AO QUE JULGAMOS QUE TEMOS.

27
Jul 10

No início nunca se sabe. Aliás, do início, nada se sabe. Apenas que rolam os dedos nas teclas e deles se espera algo, do género mais uma moeda, mais uma viagem. Talvez algo insólito, mas isso é-o quase sempre. Talvez macabro, um curioso desfilar de linhas que em nada fazem sentido e que apontam para uma estrada que circula bem pelo coração de uma densa área florestal. Como que golpeada por uma afiada lâmina, tal densidade de majestosas árvores vive agora cortada quase que pela metade por esta massa de asfalto escuro que no seu cerne se intrometeu. A vegetação não gostou da ousadia, das máquinas que dias a fio por aqui andaram, tudo enchendo de fumo, barulho ensurdecedor e aquele cheiro, que desses dias ainda como que persiste nas suas folhas que chegaram a pensar iriam perder o verde que sempre lhes foi natural. Arvoredo, vegetação abundante, a rasteira, a trepadeira, todo o indício de natureza que ali sempre habitou e entre si coabitou, estava irada, revoltada com tamanha afronta. Agora bem pelo meio do que era apenas silêncio, chilrear de toda a espécie de pássaros, vento ritmado nas copas das frondosas árvores, num retrato semelhante ao paraíso por tantos desenhado, corria uma via que consigo trazia mais fumo, mais sons estranhos e assustadores, mais sobressalto e até morte. Morte de quantos animais incautos que, indiferentes às bruscas mudanças por ali operadas, apostavam as suas existências nesse troço de alcatrão para as perderem neste novo jogo do qual ainda não conheciam as regras. A natureza no seu todo estava em fúria. Algo teria de ser feito para evitar esta escalada de efeitos nefastos para a antes tranquila área verdejante que apenas conhecia a paz então reinante. Como tentáculos poderosos estendidos à distância, as raízes das mais altas árvores trataram de perfurar o chão asfaltado provocando-lhe vincos, de início à flor da pele, para adiante se espraiarem profundos a causar dano maior. Não era da idade, isso não, nem tão pouco do calor. Atribuíram até à má qualidade do alcatrão usado naquele empreendimento, mas nem isso. Eram antes as forças da natureza já em retaliação. Seguiram-se as trepadeiras e o mato denso a lançarem-se sem medo àquela ferida no seu âmago aberta para tentarem sará-la rápido e reporem a verdade do que havia sido um corpo imaculado, um corpo inviolado. Durante muitos dias, meses, dizem que anos passaram, o duelo foi titânico, o duelo foi entre as máquinas, que regressaram, e a natureza, que fez uso de quantas armas possuía para lhes fazer frente. Hoje, aquele é um espaço esquecido. Um espaço retomado pelo que em tempos foi virgem e inexplorado. Hoje de regresso está a calma. Ou talvez um inimaginável epílogo fruto de tudo o que foi usado no combate aniquilar ao que não pode ser aniquilado. Pois se uma máquina se estraga e, naturalmente, segue o seu rumo para a sucata, já na natureza nada se perde, tudo se transforma. E foi isso que sucedeu: transformação. Ali se recriou um vale encantado, daqueles que povoaram a terra há tantos e tantos milhões de anos de que já nem há memória nem ouvir contar. E agora era vê-los, Terópodes, Saurópodes, Ceratopsídeos, Estegossauros, Anquilossauros, Ornitópodes, os Beatles, os Rolling Stones, todos eles, os maiores e mais bizarros animais que já alguma vez habitaram a face da terra de novo regressados a ela, coabitando entre si, numa ilusória paz, pois que também muitos se devoravam mutuamente, mas ainda assim a demonstrarem mais pacificidade do que a que os antecedera e que se iniciara com uma simples ferida incutida bem no coração daquela densa área florestal. O tempo tratara de resgatar a tranquilidade de outrora. E para que não restassem dúvidas de que seria algo duradouro, para ficar mesmo, tratou de colocar tudo a zeros. Do princípio, qual génesis que tinha agora por obrigação fazer daquele o primeiro de muitos outros elos que, unidos entre si, iriam, tão só, protagonizar o maior de todo os feitos: o renascer, em todo o seu esplendor, da toda poderosa mãe natureza. E em fundo, a soar junto com o chilrear do Arqueopterix, do Microraptor, do Dilong ou mesmo do Sinosauropterix, a Sinfonia nº 9 em Ré Menor, Op.125, de um outro dinossauro que nem o facto de ter ensurdecido cedo evitou que se tornasse num ser bem mais genial do que muitos que sempre foram dotados de excelente audição no decurso das respectivas vidas.

 

"Alegria bebem todos os seres
No seio da Natureza:
Todos os bons, todos os maus,
Seguem seu rastro de rosas.
Ela nos deu beijos e vinho e
Um amigo leal até à morte;
Deu força para a vida aos mais humildes
E ao querubim que se ergue diante de Deus!"


Excerto do verso da Ode à Alegria, de Friedrich Schiller, utilizado por Ludwig van Beethoven.

publicado por migalhas às 15:25

Julho 2010
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9
10

11
12
13
14
15
16
17

18
19
20
22
23
24

25
26
29
30
31


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

facebook
mais sobre mim
pesquisar
 
blogs SAPO