TUDO É ILUSÃO, DESDE O QUE PENSAMOS QUE PODEMOS AO QUE JULGAMOS QUE TEMOS.

22
Set 05
Passeava eu descontraidamente pela rua algo deserta, quando me deparei com uma massa disforme, mas compacta, que me obstruía o caminho. Primeiro pensamento: contorno-a e vou à minha vida; segundo: paro e analiso-a; terceiro: salto-lhe por cima e aterro do outro lado, seguindo o meu caminho. Tivesse eu sido um pouco mais atento na observação e certamente me aperceberia de que passar-lhe por cima dificilmente podia ter sido sequer equacionado. E porquê? Porque aquela massa de uma coloração rósea, forma arredondada, embora irregular, mas de uma dimensão apreciável, invalidava obviamente essa opção, impossibilitando-a. Ainda que tentasse o salto, mesmo tomando algum balanço, aterraria certamente sobre parte da sua superfície que se espraiava mais e mais, numa viscosidade que crescia à medida que se confrontava a céu aberto com os raios de sol abrasadores. Cheguei a pensar tratar-se de uma enorme pastilha elástica inadvertidamente jogada para o chão. Mas só se tivesse sido pertença de um qualquer ser gigantesco, o que me pareceu pouco provável. Olhei em redor e subitamente já nenhuma das opções era viável. Aquela massa espessa tomara por completo conta de toda a calçada e já nem à volta conseguiria passar por ela. Toquei-lhe ao de leve com as pontas dos dedos e estes colaram-se-lhe de imediato, originando uma imediata reacção de repulsa, de nojo. Ainda assim, pensei em levar a ponta dos dedos à boca para me tentar aperceber do que tinha ali à minha frente, impedindo-me de prosseguir com a minha vida. Seria doce, salgado, azedo? Não o fiz. Mas também porque me vi na obrigação de tomar uma decisão célere que permitisse a minha imediata sobrevivência. Vindo não sei de onde, um enorme sapato, ou melhor, a sua gigantesca sola, preparava-se para aterrar bem em cima de mim, não fosse o providencial aviso resultante da sua súbita interposição entre a luz emanada pelo sol e o pedaço de calçada que se preparava para pisar. Precisamente aquele onde eu me encontrava, fazendo contas à vida que quase perdia sem sequer dar conta. Corri veloz para um dos lados e fi-lo dando o máximo que me era permitido, atendendo à largura daquele inesperado objecto. Um voo final para o asfalto, como medida preventiva face ao perigo eminente, revelou-se uma decisão acertada. Ao estremecer o chão em seu redor, pude constatar que pouco mais de uns escassos milímetros haviam afastado aquele pesado bloco achatado do meu corpo, agora estendido ao comprido no asfalto quente. Depressa me ergui, para olhar convenientemente aquela ameaça à minha integridade física, e não só. Com a mão em forma de pala - devidamente colocada um pouco acima dos meus olhos agredidos pela intensidade do clarão que o intenso sol sobre mim desferia – de forma a proporcionar alguma sombra que me permitisse olhá-lo bem de frente – se é que assim o posso dizer -, foi com indescritível admiração que me apercebi da realidade dos factos. Ou seja, estivera a uma distância mínima de ser esmagado pelo pé de… uma pessoa adulta! O tal gigante que, momentos antes, considerara uma enorme improbabilidade, bem ali, na minha frente. Sacudi as roupas sem nunca dele desviar o olhar e com o mesmo segui-o até onde me foi possível. Em breve, outros como ele se lhe juntaram e não tardou que a rua, antes deserta, fosse agora percorrida cima abaixo por uma multidão de seres enormes, entre os quais eu me movia com compreensível dificuldade. Tornara-me pequeno, insignificante, um ser digno da mítica Lilipute, a cidade dos nossos tempos de criança que então povoava o nosso imaginário. Pois que agora, tornara-se uma cruel realidade para a qual não me mostrava minimamente preparado. Mesmo escondido, depressa me apercebi dos enormes perigos que corria face a seres antes inofensivos, agora ávidos da minha tenra carne. Pássaros, ratos, formigas, baratas, tudo se me apresentava obstáculos difíceis de contornar. Como a enorme pastilha que momentos antes despoletara todo este episódio. Estava agora na presença de uma enorme estante de livros - de uma casa a que acedera através de um saco com compras - e após me certificar da ausência de cães ou de gatos nas redondezas, trepei ao mais alto que consegui e descansei finalmente, permitindo-me algum tempo para pensar. No que fazer, essencialmente. Em como me safar daquele imbróglio em que me encontrava sem sequer imaginar como, nem porquê. De repente, fui assaltado por um sobressalto. Alguém entrara na sala e não querendo comprometer a minha camuflagem, resolvi abrigar-me no interior de um livro que se me apresentava entreaberto. Entrei apenas para me esconder, mas em breve percorria as suas linhas de texto até me fixar numa bela imagem que o ilustrava. Quando voltei a mim, só sei que me encontrava no coração de uma bela floresta, carregando no braço uma cesta com uma espécie de lanche, envergando um estranho vestido vermelho com capuz e encaminhando-me na direcção de uma casinha que mais parecia saída de um qualquer livro para crianças. Não liguei. Retomei o andamento e segui com a minha vida.
publicado por migalhas às 19:01

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