TUDO É ILUSÃO, DESDE O QUE PENSAMOS QUE PODEMOS AO QUE JULGAMOS QUE TEMOS.

22
Jan 08

Enlevados os campos olham-me num estado sonhado. De resto, nem nada. A erva que calco, a planície matizada que me foge ao olhar e entra no céu, por ele dentro, permissivo à sua ofensiva que se faz natural, eu é que os confundo. E quando os vejo, a esta distância, já os dois se fundiram e um é o outro e já os confundo. Daqui onde estou tenho esta vista abrangente, de onde vejo tudo o que é urgente, a calma dos prados, um voar assobiado, o espreguiçar compassado de cada pétala, um reino inteiro ensonado. Tudo o resto são criaturas paradas no tempo parado e frondosas árvores que se posicionam como senhoras do seu espaço e o expandem, em raízes silenciosas que avançam sorrateiras, quais toupeiras matreiras, a infiltrarem-se em campo alheio e a apossarem-se dele. Eu é que as confundo e na abrangente visão, tomo-as por bravos cavaleiros que avançam destemidos, lutando apenas pelo que dita o seu coração. Um pestanejar apressado e ei-los regressados, semblantes carregados, uns e outros que se arrastam, pesadas as espadas, ainda mais as armaduras. Confundo-os com seres derrotados, de uma brutal guerra regressados, cansados de tão derrotados. Olhares suplicantes nos olhos encovados, um, todos, ensanguentados, tantos ensanguentados que deixam vermelhos os verdes prados, carregados do que deram por uma causa que não os quis e os atirou para a derrota, a que carregam e arrastam cansados, derrotados. São sombras e sabem que o são. Viveram as trevas e voltaram para as contar. Sabem agora o que eu também sei, quando julgo enlevados os extensos prados, ao olharem-me naquele estado sonhado. Pois que de resto, nada. Nem ninguém. Tudo eram rosas, na hora em que tudo se permitia. Mas na hora que se seguiu, malfadado o destino que nos benzeu, somos todos sem excepção ignorados, vista grossa ao nosso estado, tudo, todos, a inteira nação que nos acolheu. A nação que os nossos nomes gritou, o nosso hino entoou e quando nos olhou, foi daquele modo meloso, enlevado, num estado que não era sonho então, mas ser e estar esperançado, numa mão cheia de muitas coisas, coisas boas, e não a derrota vestida por estes guerreiros derrotados, semblantes carregados, uns e outros que se arrastam, pesadas as espadas, ainda mais as armaduras, nem assim resistentes às agruras. É isso que vejo. De perto, de longe, a vista é esta e já a confundo. A vista daqui, dali, superficial ou a que vai matreira como a raiz toupeira e vê mais e mais fundo.

publicado por migalhas às 11:02

Mt bonito, parabéns!
Ana a 22 de Janeiro de 2008 às 11:45

Janeiro 2008
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5

6
7
8
9
11
12

13
15
16
17
19

20
21
23
25
26

27
29
30
31


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

facebook
mais sobre mim
pesquisar
 
blogs SAPO