TUDO É ILUSÃO, DESDE O QUE PENSAMOS QUE PODEMOS AO QUE JULGAMOS QUE TEMOS.

19
Dez 07

(Cont.) Algo que depressa ganhou o voto de concordância também do velho de barbas brancas, que, alertado por um restolhar mínimo, mas ainda assim suficiente para o despertar daquele breve dormitar, se deparou com algo inédito, até para si. Anos de testemunhos curiosos, invejável currículo em situações caricatas, mas nada como aquilo a que agora assistia incrédulo. Animados pelo despertar do intruso de ar simpático e bonacheirão, seis pijamas de flanela, casaco e respectivas calças com motivos variados, mas todos alusivos ao Natal, moviam-se como loucos à sua volta, mangas dadas, numa verdadeira roda-viva de animação e claro entusiasmo. Nada de receios pela presença daquela figura desconhecida (ou talvez nem tanto assim), mas uma perceptível vontade em lhe expressar a alegria própria de quem há muito aguardava a sua visita e nunca tivera esse breve prazer. Apercebendo-se da felicidade que, inadvertidamente, levara àquela mansão - há demasiado tempo esquecida -, logo interiorizou que, mesmo vazios de qualquer conteúdo físico, aqueles seres que ali o receberam de mangas abertas, numa clara manifestação de boas-vindas, obrigatoriamente passariam a ser incluídos na sua rota de visitas. Dito e feito! Daí em diante, todos os anos, na véspera de Natal, os espíritos que povoam aquela casa encantada vestem os seus pijamas de flanela com motivos natalícios e recebem o Santa num ambiente de grande animação e euforia. Ali ceiam, ali convivem, brincam, se dão por todo e de forma genuína, repondo a aura festiva que antes habitara aqueles amplos salões, aquela enorme área hoje entregue a estes entusiastas perpetuadores de um espírito que teimam em preservar, recusando-se a desistir da verdadeira essência do Natal. E foi assim, de forma totalmente ocasional e inesperada, que esta meia dúzia de travessos seres retomaram uma tradição que ainda hoje perdura e à qual não se prevê epílogo. Que recuperaram a verdadeira amizade, a compreensão, a tolerância, atributos que vinham perdendo a sua força em favor de um outro espírito - esse bem mais materialista e nefasto -, que ganhava assim forma e poder a cada novo Natal. A mansão assombrada - que a ser fiel a toda a luz e alegria que emanava mais se deveria adjectivar como “assolarada” - foi assim responsável pelo renascer do velho Natal, do espírito de outrora, o genuíno, aquele que lhe estivera na origem. E agora, é vê-lo. A cada novo ano com redobrado brilho, renovada animação, como que saído de um qualquer programa de face lifting, tipo “extreme makeover”, para mostrar ao mundo que nem tudo tem obrigatoriamente de perder o seu fundo. Que evoluir não pode, nem deve, ser sinónimo de denegrir. Seja a imagem, o conteúdo ou o verdadeiro espírito. O mesmo onde reside aquela réstia do melhor que cada um de nós ainda possui. FIM

publicado por migalhas às 10:54

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