Segunda-feira, 24 de Abril de 2006

Locais antes povoados, por milhentos pés pisados, jazem hoje esquecidos, por todos abandonados. Quem os viu, repletos de vida, animação, festa e alegria, não entende como podem ser agora apenas uma ténue imagem do passado. Olhá-los na sua tristeza, ar infeliz de quem se viu remetido a uma insignificância antes julgada impossível, é sentir um nó no estômago, um aperto no coração, uma sensação de perda difícil de explicar. Estruturas que mantêm a sua solidez, mas que perderam a altivez de então, como num passe de mágica barata. Repousam agora como fantasmas, que sob uma bruma ausente se escondem dos olhares que antes se deslumbravam com a sua presença. Os dias de glória já lá vão, bem como o apelo de que eram portadores. Esbatidas as horas de reboliço e procura incessante, resta-lhes agora a brisa do mar ou um vento mais forte que lhes corrói o tutano, expondo os primeiros sintomas de uma demência que se sente. Vergam-se à evidência de que não mais viverão dias de excelência, dias de glória, dias em que foram grandes, deuses e senhores que no seu seio reuniam multidões e delas o seu consenso. Agora apenas estão. Ao abandono, ocupando o espaço físico que lhes foi atribuído e sobre o qual viveram o que nunca mais experimentarão. Como num imenso cemitério, são lápides sem qualquer referência, corpos sem identificação, restos mortais isolados, não mais que despojos de dias que não voltam mais. Meras sombras reflectidas no chão poeirento, clamam por justiça num grito mudo que se confunde com o vento. Há quem jure ouvir-lhes clamar de quando em vez, no breu assustador que de si se apossou. De guincharem a morte anunciada e dela se tentarem abstrair, num derradeiro esforço de se imporem face ao estado moribundo que já denotam e de onde lhes é agora vedada a saída. Açoitados pelo frio de um fim de tarde de inverno, cada estrutura, cada peça, solta à sua maneira o queixume de quem não quer morrer sofrendo, de quem não planeara este o seu destino. Dá dó vê-los vergar ao peso do correr do tempo. Sem que nada o fizesse crer, ali vão ficar, doentes até morrer.



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Sexta-feira, 21 de Abril de 2006

21 de Abril do ano da graça de 1500. A hora exacta não se sabe, mas é neste preciso dia que, pela primeira vez, o navegador português Pedro Álvares Cabral avista terras de Vera Cruz. Aquele que é hoje conhecido por Brasil e que tem uma Lula à frente dos seus destinos. Ao que isto chegou em pouco mais de 500 anos. Dos nativos pelados, dos índios, a uma lula. E pensar que foi tudo resultado de um acaso. A descoberta, entenda-se. Pois esta só se efectivou graças a um inadvertido desvio de rota, que originalmente deveria ter levado a armada em que seguiam à longínqua Índia. E olhem lá o desvio! Da Índia, para a costa oriental da América do Sul! Afinal esta coisa de que os tugas não sabem conduzir, já vem muito de trás! É, a bem dizer, uma tradição que vem de longe. Assim como aquele licor, de seu nome Constantino, também reclamava para si, em tempos que já lá vão. Hoje é pois dia de festa para os nossos irmãos do outro lado do Atlântico. E acho bem que nos agradeçam. Pois se não fossemos nós, ainda hoje andavam de tanga na praia, a beber água de coco e a dançar ao som de ritmos primários. Hum… mas não é isso que eles continuam a fazer, passados pouco mais de 5 séculos? Se calhar espertos são eles. Pois que esta coisa de evoluir e de acompanhar o progresso, só trás mesmo é dores de cabeça e aborrecimentos. A gente que o diga. Vamos mas é imitá-los, largar tudo e rumar à praia. Venha o sol, que vontade de o aproveitar não falta. Hoje, como há 500 anos atrás.



publicado por migalhas às 10:46
Quinta-feira, 20 de Abril de 2006

A cantora norte-americana Whitney Houston voltou a ser internada numa clínica no Arizona, Estados Unidos, devido ao consumo de drogas. Viciada em heroína e «crack», esta que já foi considerada uma das 50 personalidades mais belas do mundo, arrasta-se hoje pelas ruas da amargura, agarradinha ao que parece ser a sua única bóia de salvação, salvo seja. A acompanhá-la, mais uma ex-figura grande da música, que parece igualmente ter encontrado outros interesses no mundo duvidoso das drogas. Falo de George Michael, que sofre de uma forte dependência de haxixe a que se entrega para crises enormes de depressão que, um dia destes, ainda acabam mal. Mas será que esta gente, a quem nada falta – fama, dinheiro, sucesso, popularidade, o diabo a sete -, não encontra nada melhor para fazer do que autodestruir-se? Será que não lhes custou a atingir os patamares que em tempos já ocuparam? Ou não terão gostado e daí entregarem-se a esta outra forma de suicídio? Seja como for, parece-me que ambos possuem ainda algumas das capacidades que antes demonstraram e que lhes pode permitir ainda o regresso à ribalta. Muita gente agradecia. Até por que faz pena ver-se desperdiçar talentos, quando eles nunca são demais no contributo que possam dar para um mundo melhor, mais positivo e não de degradação, que é aquilo com que, infelizmente, estes dois artistas hoje nos presenteiam.



publicado por migalhas às 11:50
Quarta-feira, 19 de Abril de 2006

Com o mundial de futebol cada vez mais próximo, também a loucura – sempre associada à tribo do futebol – parece crescer de tom. Que o diga o mais recente grito em merchandising, agora disponibilizado por algumas empresas alemãs na Internet. À primeira vista parece tratar-se de algo inofensivo, mas depois de se saber o conteúdo, a coisa muda um pouco de figura. Trata-se de uma colecção de bonecos de vudu especialmente concebida para adeptos mais fanáticos – e aqui é que a coisa se complica -, de seu nome «Foo Too Kit», e em que cada pack é composto por uma réplica em pano de uma das muitas estrelas presentes no mundial, a que se junta um conjunto de agulhas. Segundo as ditas empresas, os adeptos podem colar os emblemas das selecções adversárias nos bonecos e praticar a magia negra. Pois, pois. Se pensarmos que em África, Brasil e sabe-se lá em que demais países, esta prática é levada muito a sério por especialistas para lá de competentes e com resultados deveras impressionantes, parece que já estou a ver os fervorosos adeptos a recorrerem a esta prática para, pura e simplesmente, aniquilarem quem se interpuser entre a sua selecção e o sucesso final na prova. Inocentes ou a fazerem-se passar por tal, os responsáveis por este tráfico de magia negra sugerem que estes bonecos se usem apenas em situações específicas em que o perigo eminente ronde as respectivas balizas. Ou seja, quando um jogador adversário estiver prestes a marcar um golo ou o guarda-redes pronto para defender uma bola com destino marcado para o fundo das suas redes, espetar uma agulha na perna ou nas mãos do boneco, consoante o caso, e o jogador cairá por relva, falhando os seus intentos. Tratando-se de fanáticos, ainda por cima aquecidos pela excitação do momento, parece que já estou a vê-los lá em casa a espetar agulhas por tudo o que é área visível dos bonecos adversários. E nem vão usar as agulhas que vêm com o pack. Passarão logo às agulhas de croché, daquelas enormes que vazam um olho a quem não as manejar com algum cuidado. E andarão pelos quintais dos vizinhos a roubar galinhas pretas para as esventrar e espalhar o seu sangue numa tigela junto com as vísceras de umas quantas ratazanas, as pernas de uns morcegos roubados ao seu sono, uns pozinhos de perlimpimpim e sabe-se lá que mais. Quantos jogadores terminarão as suas carreiras, e quiçá as suas vidas, neste mundial? Quantos serão apelidados de coxos, sem culpa própria que se lhes possa atribuir? Prevê-se um torneio, no mínimo, diferente. Uma vez que teremos selecções literalmente a ficarem pelo caminho ou vítimas de baixas de vulto nas suas fileiras. Resumindo, o que acontecer neste mundial de futebol, das falhas aos sucessos, será exclusivamente obra de terceiros, que não os senhores de preto. Ou pelo menos, daqueles que usam o apito. Ah, resta dizer que o dito kit é vendido a cerca de oito euros cada, o que, multiplicado por 20 – o número aproximado de jogadores por comitiva – até justifica o investimento. Mais que não seja, por que em causa está o prestígio de vencer um campeonato do mundo, certo?



publicado por migalhas às 11:23
Terça-feira, 18 de Abril de 2006

Era domingo de Páscoa e Bernardo andava excitadíssimo à procura daquele sumo de que lhe haviam falado na escola. Do sumo que se bebia nesta época de paz e amor entre todos os cristãos devotos. Nem na despensa, nem no frigorífico, nada. Mariana, por seu turno, procurava no roupeiro do seu quarto a cruz que a mãe lhe havia pedido para colocar à mesa durante a refeição que os aguardava na sala grande, apenas usada nesta altura do ano para receber o senhor padre naquele que era o tradicional almoço de Páscoa da família Alcobia. Com a comida a arrefecer no tacho e o senhor padre desesperado face ao correr do tempo, que insistentemente confirmava no seu relógio de pulso com a ajuda daqueles óculos de lentes grossas e de dedadas preenchidas, Isabel resolveu procurar os seus dois filhos. A Bernardo foi encontrá-lo na cave remexendo por entre a garrafeira do pai, na esperança vã de que repousasse ali o tal de sumo pontífice, aquele que deve beber-se durante a Páscoa. Já Mariana, despejara todo o conteúdo do seu guarda-fatos e espalhara-o pelo espaço da cama e alcatifa do seu quarto, na mesma esperança vã do irmão em encontrar o que tão afincadamente procurava: o crucifixo com a imagem do Senhor. À falta de outra utilidade, usara-o em tempos para pendurar um conjunto saia casaco que, entretanto, deixara de lhe servir e, lembrava-se agora, oferecera àquela instituição de caridade que de quando em vez apelava à boa vontade dos que têm a mais para darem aos que têm a menos. Sem sumo pontífice nem crucifixo em casquinha com que decorar a mesa, Isabel recorreu a um dos seus trabalhos em barro há muito esquecidos na cave e que fizera em tempos, também por alturas da Páscoa. Este simulava a adoração de Cristo por uns quantos fiéis chorosos que o olhavam pendurado na cruz em sofrimento. De regresso à sala, acompanhada dos seus dois petizes, Isabel colocou a peça de barro no espaço que deveria ser ocupado pelo tradicional crucifixo e deu início à refeição. Não sem antes o senhor padre proceder à oração que agradecia os alimentos que ali se preparavam para degustar e com os quais contavam amainar a fome que deles se apossara há mais de uma hora atrás. Finda a oração, seguiu-se uma azáfama e um tráfego aéreo acima daquela mesa que mostrava claramente o apetite que a todos atacava por igual. Nem o senhor padre parecia querer controlar as boas maneiras recomendáveis, dando mostras de uns ímpetos animalescos que repetidamente atribuía ao apetite voraz aliado ao adiantado da hora. Munido de faca e garfo, nem ligou ao que prega na freguesia e que defende que a primazia deve ser dada às senhoras e crianças presentes. Qual quê. Naquele momento de aflição, era mais: os ratos são os primeiros a atirarem-se à comida do Alcobia. Isabel e Tomás Alcobia, seu esposo, estavam atónitos com a falta de postura do padre. Que nojeira ele fazia em seu redor. Por sorte havia a Mercedes, a mulher-a-dias. Que, no dito seguinte, haveria de recolher os despojos daquela refeição quando viesse fazer a faxina à sala e voltar a fechá-la até ao próximo ano. O que ninguém previra, nem mesmo o retirado professor Zandinga, era que aquela fosse a derradeira refeição do senhor padre, até então tão empenhado em levá-la a bom porto, entenda-se, às suas entranhas. Apanhado de surpresa por um pedaço de galinha do campo que se alojou onde não era suposto, impedindo-o de respirar, o senhor padre fraquejou. Esbugalhou os olhos e levou ambas as mãos à garganta tentando impedir o inevitável. Na génese de todo aquele aparato, estivera algo com que não contara e que precipitara a sua morte: a imagem da queda do Senhor da cruz, bem na frente dos seus olhos. Este, igualmente incrédulo face aos modos do santo padre, resolvera atirar-se do alto da cruz que ocupara de forma precária até então, vindo a cair redondo sobre o tampo da mesa, o que lhe provocou algumas fracturas expostas. Ainda tossiu e esperneou, mas nada do que lhe fizeram de seguida o fez voltar à vida. Nem a ele, nem ao  senhor padre. Em tom de remate final, Mariana ainda teve tempo de comentar: com pregos Alcobia, nada disto acontecia!



publicado por migalhas às 10:39
Segunda-feira, 17 de Abril de 2006
E pronto. Lá se foi mais uma Páscoa. 3 dias e meio que passaram a voar, mas que, ainda assim, se saldaram por um resultado bastante mais positivo do que a sexta-feira chuvosa deixava antever. Uma pausa que serviu essencialmente para pôr em dia as novidades relativas à grande atracção deste ano: a coelhinha Sara. Novidades essas que, infelizmente, são mais as que vou perdendo do que as que observo ao vivo e a cores em tempo real. Está mais crescida, já tem um discurso que, por ora, só ela entende, já brinca e provoca com as suas gracinhas e ri, ri muito e é bem disposta e simpática, algo que deve ter herdado igualmente da mãe. Mas é quando a adormeço nos braços, e ali tão perto aprecio aquilo em que já se tornou, que me surpreendo com ela. Aqueles traços tão perfeitos, tão definidos, uma pele sem mácula, macia e aquelas bochechas gordas que só apetece trincar. E depois a chupeta, que se movimenta a um ritmo, ora alucinante, ora calmo, fazendo lembrar a Maggie dos Simpsons. Está de facto muita gira e suscita situações e actividades que, embora se sobreponham a outras, substituindo-as, revelam a sua magia e funcionam como pequenos marcos que, todos juntos, revertem a favor do seu percurso, do seu constante e continuado crescimento e evolução. Hoje com 4 meses e meio, prepara-se para dar entrada no mundo das papas e das sopinhas. Uma nova fase que trará com toda a certeza inúmeros motivos para novas descobertas que não param nunca e sempre se saúdam. Tenho de admitir que se trata de um acontecimento marcante, que dificilmente pode deixar indiferente quem quer que seja. Só faz pena é ter de sair de manhã cedo e deixá-la na nossa cama a palrar e a levar à boca todos os bonecos que apanha à mão, enquanto aquelas pernas e braços se movimentam num ritmo que chega a cansar até o mais adulto. Como uma máquina fotográfica, capto aqueles últimos instantes, aquele derradeiro olhar com que a deixo, e ao longo do dia recorro a eles para me recordar da filhota linda que tenho todos os dias à minha espera em casa. Pelo menos até que tenha idade para me trocar por outro! Por enquanto, vou aguardando impacientemente pelos feriados, pontes e dias de férias, para estar com ela o tempo todo e vê-la crescer ao nosso lado, meu e da mãe. Venha de lá então a próxima ponte e fim-de-semana de 3 dias, e que o sol volte a marcar presença. Para que sob ele possamos dar longos passeios, olhar o mar, respirar ar puro, mas, acima de tudo, sermos três pessoas muito mais felizes.


publicado por migalhas às 12:47
Quinta-feira, 06 de Abril de 2006
Aguardado com expectativa há já alguns meses, eis que se fala agora no surgimento do primeiro telemóvel iPod ainda esta Primavera. Um telemóvel musical, ou melhor, um iPod com telemóvel incorporado, capaz de receber chamadas telefónicas 3G/VoIP. Uma forma da Apple aproveitar o mega sucesso do leitor de música portátil iPod, dando-lhe continuidade com um extra igualmente de grande utilidade. Segue-se a produção massiva em Taiwan do que será a nova coqueluche da marca, restando ainda a dúvida com que parceiro de negócio. Segundo uma fonte credível ligada ao projecto, o 'iPhone' da Apple deverá ter um design minimalista (mas espectacular, garanto-vos!), de acordo com o seu leitor de música digital portátil, e permitirá ainda downloads de mp3. Devo confessar que estou curioso com o aparelho, embora já o tenha visto em algumas fotos, mas mais ainda com o seu funcionamento. Entretanto, e por que em Portugal a coisa ainda não deve ser para já, vou simulando esta nova função no meu iPod mini que, aliás, serve de base ao próprio 'iPhone'. Não se admirem pois aqueles que me conhecem, se de quando em vez, a partir de agora, me virem de iPod mini ao ouvido a tentar falar com alguém. Estarei tão só em período de experimentação e não afectado por algum surto de loucura momentânea, como poderá parecer. Posto o aviso, a ver vamos se estamos na iminência de um novo sucesso da Apple, desta feita capaz de destronar marcas já firmadas no campo das telecomunicações, como a Nokia ou a Sony Ericsson. Será esta mais uma achega para o império Apple que se adivinha? Só o tempo o poderá confirmar… ou não.



publicado por migalhas às 10:22
Quarta-feira, 05 de Abril de 2006
Eu que sou um apreciador confesso do mundo da sétima arte, nunca me passou pela cabeça que conseguisse estar mais de 4 meses sem pisar uma sala de cinema. A verdade é que tal se tornou uma realidade e, mais do que isso, um novo recorde no meu currículo. Hoje, passado todo esse imenso tempo de celibato, volto a experimentar a sensação de me sentar em frente a um grande ecrã e desfrutar das cerca de 2 horas que me aguardam. Abstrair-me de tudo o que se passa ao meu redor e viver a história que me espera com a intensidade que a película assim o exigir. Como se já não fosse bom regressar a estas lides, melhor ainda o é tratando-se de uma ante-estreia para a qual ganhei convites “à borla”! Assim ainda vale mais a pena. Resta é saber se o último do Spike Lee presta para alguma coisa ou não. Esperemos que sim, que seja um regresso em grande. Dele e meu.



publicado por migalhas às 18:41
TUDO É ILUSÃO, DESDE O QUE PENSAMOS QUE PODEMOS AO QUE JULGAMOS QUE TEMOS.
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