Sexta-feira, 29 de Outubro de 2004
Para aqueles que se interessam pela arte, nomeadamente pela pintura, aqui ficam três propostas interessantes para o mês que se aproxima. Três amigos, três artistas, três exposições. Adianto desde já que vale a pena a visita. Espero que gostem.

PAULO MEUNIER VIANA
"7 histórias para contar" - Ilustrações

de 01 a 30 de Novembro, das 19h00 às 23h00
Livraria Almedina - Atrium Saldanha
Praça Duque de Saldanha 1 - loja 71 - Lisboa

JOÃO FIGUEIREDO
"Lilliput chamber" - Pintura

De 4 a 15 de Novembro, das 15h00 às 20h00
Arte Privada
Rua Augusto Rosa, 40 (Espaço Oikos) junto à Sé de Lisboa.

GUSTAVO FERNANDES - Pintura

De 05 de Novembro a 05 de Janeiro, das 18h00 às 21h30
Espaço GEPIGAI
Rua Martens Ferrão, nº 11, 1050-159 Lisboa


publicado por migalhas às 17:45
Quinta-feira, 28 de Outubro de 2004
Sente-se no ar uma onda de revivalismo. Mais do que isso, nota-se a todos os níveis que a mesma é já uma realidade ou o princípio assumido de que o processo é irreversível. Como uma sensação de nostalgia, que aos poucos toma de assalto, não só os que tiveram o prazer de viver nas décadas a que a mesma onda diz respeito, mas igualmente as gerações de hoje, que, estranhamente, parecem identificar-se muito mais com estas tendências repescadas do que seria de esperar. É certo que, para eles, tudo é novidade e por isso tomam-nas como tal. Sem se aperceberem sequer que estão claramente a contradizer-se, pois aquilo que agora adoptam como inovador, mais não é do que o estilo que tanto criticaram, e criticam, nos seus progenitores - nos cotas - e que não têm qualquer problema em apelidar de "quadrado". Basta entrar em algumas das actuais cadeias de roupa produzida em série e assistir às vestimentas que lá se vendem, tidas como o último grande grito da moda. Não querendo dizer mal, aquelas indumentárias, aqueles acessórios, aqueles modelos, em nada diferem dos mesmos com que a minha mãe aparece vestida nas fotos da sua juventude. E não fica por aqui, este regresso ao passado. Pela noite fora, é assistir aos bares e discotecas que aderem em força às temáticas que fazem reviver velhos e saudosos temas que nos encheram de alegrias em plenos anos 70 e 80. Até a própria indústria automóvel parece querer aliar-se a esta onda de revivalismo, criando veículos cujo design em tudo nos deixa uma sensação nítida de que estamos a recuar no tempo. Também ao nível dos media é notória esta febre revivalista, ao ponto de se criarem canais televisivos cuja temática da sua programação versa exclusivamente as séries ou as sitcoms que foram líderes de audiência em anos como os 70, 80 ou 90. Saudosos anos de ouro, os anos 80 são aqueles que também na música mais parecem ter marcado toda uma geração que hoje não se cansa de tentar revivê-los, dê por onde der. Variedade e qualidade, em géneros tão díspares como a new wave, o ska blue beat, o hard rock, o heavy metal, a pop, o punk, o disco sound, os ditos neo-clássicos ou o próprio aparecimento do rock português, tudo contribuiu, e contribui, para que essa época jamais possa cair no esquecimento de quem a viveu e não só. De tal forma assim é, que a própria indústria discográfica - não querendo perder esta clara oportunidade de negócio - aposta massivamente na reedição de grandes clássicos de então. Em alguns casos foram até mais longe, apostando mesmo no ressurgimento de muitos artistas e grupos que então fizeram furor e lideraram os tops, permitindo-lhes uma segunda oportunidade com renovados lançamentos, agora em formato CD. Por muito estranha e fora de contexto que a época de 80 possa parecer aos jovens de hoje, é indiscutível que serviu de motor de arranque para grande parte daquilo que hoje se ouve, vê ou usa. E por muito que isto lhes custe ouvir, não serão os anos que hoje vivemos que irão marcar quem quer que seja. Pelo menos não o farão com a mesma intensidade, nem tão pouco serão ricos e repletos em surpresas ou originalidade como os que se viveram há pouco mais de duas décadas atrás. Nem sequer deixarão aquela marcante sensação de saudade que só os que tiveram o privilégio de por lá ter passado conseguem hoje sentir. Embora difícil de explicar, esta é seguramente uma sensação única, que jamais as recentes gerações irão sentir. Quanto a isso, não tenho qualquer tipo de dúvida. Não sou velho, não me sinto velho, só acho que época como aquela tão depressa não haverá outra.


publicado por migalhas às 12:53
Sexta-feira, 22 de Outubro de 2004
Na mesa do comandante supremo daquele grupo de soldados estava o plano de ataque. Um plano simples, baseado numa estratégia de incursão rápida através das linhas inimigas, tomando de assalto o seu muito desejado reduto. Para tal, o comandante contava com uma poderosa força de 400 milhões de soldados, de que tinha inteira liberdade para dispor consoante as contingências do ataque. Experimentado neste tipo de combate, muitas haviam sido as batalhas já travadas e por isso sabia que, conforme as condições, poderia necessitar de uma força mais ou menos numerosa. Interiorizado cada passo do plano, restava aguardar pelo momento ideal para o concretizar. Constantemente a postos e prontos a entrarem em acção ao mais pequeno sinal de actividade dado pelos soldados em missão de vigia, os destemidos combatentes viviam as horas mais difíceis. As da espera, da ansiedade que antecede os grandes momentos, o confronto directo com o seu opositor. Desta vez, no entanto, a espera não foi prolongada. Um grito de alerta despertou para a realidade cada um dos 400 milhões de soldados prontos a entrar em cena. Sentia-se o fervilhar de actividade no terreno, a cadência ritmada das movimentações nervosas, a respiração mais e mais ofegante, a ânsia pelo momento alto em que a adrenalina sobe e o êxtase é total. À ordem de ataque, os soldados saíram faseados em grupos, atingindo uma velocidade de 45 quilómetros por hora nas suas rápidas investidas. A cada nova ordem, novo grupo de destemidos invasores protagonizava nova ofensiva no terreno. Uma vez do lado de lá da barricada, procede-se ao previamente planeado. De forma a dar cobertura à força de intervenção directa, cujo único propósito é o de atingir o seu oponente directo, dois grupos específicos entram em acção. São os "suicidas". Força de elite treinada para a execução de duas tarefas de extrema importância aquando da ofensiva. A primeira, dedica-se a exterminar possíveis invasores que antes deles ali tivessem estado e que por lá ainda se mantivessem. A segunda, opera como barreira ou bloco capaz de impedir a entrada posterior de outros como eles que, a mando de outras facções militares, planeiem vir a atacar aquele mesmo alvo. Em resumo, devem eliminar quem já lá esteve ou quem lá venha a estar, de forma a garantir o sucesso em exclusivo da sua manobra. Estabelecido o perímetro e definidas as acções específicas de cada elemento, resta esperar pelo cumprimento da missão, para tal o alvo tenha sido devidamente atingido e tomado. Muitos tombarão nesta ofensiva, a grande maioria mesmo. Apenas um ou dois será bem sucedido e vingará o esforço empreendido por todos os seus camaradas de luta. Mas uma vez consumada, terá valido todo o esforço efectuado em conjunto. E nove meses depois, mais coisa, menos coisa, será finalmente visível aos olhos do mundo o resultado final desta batalha que todos os dias se trava um pouco por todo o lado. A batalha pela vida, pela geração de um novo ser.


publicado por migalhas às 16:38
Quinta-feira, 21 de Outubro de 2004
E se no meio da comunicação, do ruído e do som que a sociedade de hoje tanto valoriza, houver ainda quem dê um valor especial ao silêncio? Poderá tal atitude ser considerada uma aberração? Cada vez menos, diria. Se considerarmos que a cultura do silêncio desde sempre fez parte integrante das civilizações que habitaram e habitam ainda este planeta, então estaremos perante algo de todo natural e mais, salutar. O local onde privilegiamos o silêncio pode ser importante, mas acima de tudo conta a nossa capacidade de abstracção. Essa sim, permite-nos criar um espaço interior onde, mesmo no meio da mais completa confusão e ruído, seja possível abstrair-nos de tudo aquilo que nos rodeia. Criar laços estreitos com o nosso íntimo, com aquele eu que realmente somos e junto dele encontrarmos respostas concretas para os nossos mais profundos desejos. Tudo se resume à disposição que possuímos de nos querermos conhecer melhor. Olhar para dentro de nós e descortinar o que está bem e o que necessita de atenção. Uma forma de igualmente combater a fadiga e o stress, cultivando o bem-estar do corpo e do espírito. Algo que poderá ser novidade para o Ocidente, mas que o Oriente desde sempre privilegiou. Conceito base da meditação ou das mais diversas formas de artes marciais, o silêncio desde sempre foi veículo por excelência para a obtenção da paz interior. Felizmente vamos assistindo a um crescendo de adeptos desta forma de estar e de pensar. A própria exploração da criatividade de cada um - o poder de criar e de ultrapassar as limitações próprias do processo criativo - pode ser sinónimo de resultados reveladores. Isto porque permite utilizar os nossos recursos e talentos mais profundos, o que não só nos relaxa como devolve ainda energia ao nosso corpo e espírito. De uma forma ou de outra, é importante ouvir o silêncio. Saber estar com ele e aceitá-lo. Seja o nosso ou o dos que nos rodeiam. Pois ele pode ser imensamente mais revelador e expressivo que mil palavras, que mil sons.

Ficam apenas algumas referências ao silêncio, em forma de provérbios tirados da obra "O elogio do silêncio" de Marc Smedt:

China: "Existe aquele que falou toda a sua vida e nada disse. E existe aquele que não chegou a abrir a boca e apesar disso nunca ficou sem nada dizer."

Japão: "As palavras que jamais foram pronunciadas são as flores do silêncio."

França: "O silêncio é de ouro."

Alemanha: "Cala-te ou diz qualquer coisa melhor que o silêncio."

Israel: "Saber calar-se é mais difícil que falar bem."

Itália: "Aquele que nada sabe, sabe o suficiente se souber manter-se em silêncio."

Roménia: "O silêncio também é uma resposta."

Espanha: "Perceber, ver e calar-se, senão a vida torna-se amarga."

Dinamarca: "Aquele que quer economizar deve começar pela sua boca."

Turquia: "A boca do sábio está no seu coração, o coração do tolo está na sua boca."


publicado por migalhas às 11:40
Quarta-feira, 20 de Outubro de 2004
"É inútil exigir da vida mais do que a secreta harmonia que nos liga passageiramente ao grande mistério dos outros e nos permite percorrer na sua companhia uma parte do caminho".

Alvaro Mutis


publicado por migalhas às 12:39
Segunda-feira, 18 de Outubro de 2004
Quer se queira, quer não, a existência da humanidade tem desde sempre vindo a ser marcada por modas. Senão vejamos. Ainda há não muitas décadas atrás, homem que era homem ficava na sala a ver televisão, a beber cerveja ou a jogar às cartas com os amigos em animados serões onde as mulheres não tinham sequer lugar. Hoje, homem é aquele que ajuda a sua mulher em casa, faz o jantar, estende a roupa, passa a ferro, toma conta das crianças e até tira cursos com o propósito de saber realizar, de igual para igual, as mesmas tarefas que sempre competiram apenas às mulheres. Há não muito tempo atrás, os homens que mais despertavam a cobiça junto do sexo oposto eram aqueles genuinamente maus, feios, rebeldes e a tresandar intensamente a cavalo. Hoje, as mulheres ficam pelo beicinho com os futebolistas bonitinhos e de ar todo lavadinho ou sonham com os inalcançáveis galãs atinadinhos que se destacam na música, no cinema, nas novelas e noutras artes afins, admiram acima de tudo a sensibilidade num homem e dão mais valor aos que olham pela sua forma física e tratam da sua saúde, para tal passando horas em ginásios, clínicas ou fazendo uso duma extensa panóplia de produtos de beleza até agora apenas exclusivo delas. Em tempos que já lá vão, era o homem que se chegava à frente e declarava o seu amor à mulher ou a cortejava com a finalidade de a namorar em seguida. Hoje, são as miúdas que ainda nem tempo tiveram de largar as fraldas que se "atiram" à descarada aos rapazes e fazem deles gato sapato com os seus actualizados jogos de sedução. Ontem, mulher que mostrasse um tornozelo era considerada atrevida e muitas vezes conotada da pior forma possível. Hoje, mulher que não mostra as cuecas, o umbigo ou usa um descarado decote de deixar qualquer um de cara à banda, é considerada pudica. Ontem, eram raras as mulheres que puxavam de um cigarro em público ou que ocupavam cargos de grande responsabilidade na sociedade. Hoje, a maior percentagem de fumadores recai sobre o universo feminino e muitos são os cargos ocupados por uma cada vez maior fatia de elementos do chamado sexo fraco. Ontem, era sobre uma alimentação pesada e baseada na carne, que se pautavam os hábitos alimentares da generalidade dos habitantes do mundo. Hoje, é vê-los - muitos deles os mesmos que antes defendiam essa mesma alimentação - a optarem pelas alternativas vegetarianas, macrobióticas ou por aquelas que derivam da ancestral sabedoria oriental. Ontem, ninguém discutia a medicina tradicional baseada nas drogas e nos medicamentos que nos inundavam de químicos e afins. Hoje, é de todo natural recorrer às ditas medicinas alternativas como recurso àquilo que a outra medicina, a tradicional, não consegue solucionar, diagnosticar ou sequer explicar. Muitos mais exemplos poderiam aqui ser dados, de forma a mostrar que, ontem como hoje, são as modas que comandam a humanidade. Quais as mais aceitáveis, quais as que melhor respeitam o normal curso da evolução do homem - e aqui entenda-se também o da mulher - isso já é assunto para outro tipo de discussão. Aos olhos dos que nasceram ontem, o que hoje se passa é um claro abuso e exagero que não se sabe onde poderá levar. Aos que nasceram nos dias de hoje, é inconcebível sequer pensar naquilo por que passaram os seus antepassados ou muitas vezes até os seus irmãos mais velhos. É o progresso, diz-se. E em abono dele tudo é permitido. Coisas boas e coisas más sempre houve e continuará, obviamente, a haver. Exageros, falhas, formas de pensar, de actuar. Apela-se apenas ao bom senso, para que, pelo menos as coisas boas, não passem de modas passageiras. Para que, pelo menos essas, venham para ficar. Pois são essas que poderão encaminhar o mundo de hoje, turbulento e confuso, para um outro bem melhor, onde seja possível partilhar em conjunto de uma evolução construtiva mas, e acima de tudo, de grandes e visíveis benefícios para todos.


publicado por migalhas às 12:30
Sexta-feira, 15 de Outubro de 2004
Parece que desta é que o Verão se foi. O sol já só se apresenta a espaços e ainda assim muito tímido. Aos poucos as nuvens vão tomando o seu lugar, quebrando um reinado que só lá para meados do ano que vem se fará sentir outra vez. Não aprecio o Inverno. O frio, a chuva, o andar carregado de roupas, os dias cinzentos e tristes. O frio ainda vá que não vá, aguenta-se. É acrescentar mais uma peça de roupa - que se acumula em camadas, tal e qual uma cebola - e a coisa vai. Agora a chuva, essa é que me deixa mono, apático, sem humor que me valha. É uma "seca" - embora quem ande à chuva molha-se - e é mesmo costume dizer-se nesses dias que se está como o tempo. Nada mais acertado. E se para compor o ramalhete adicionar-mos roupas cujas tonalidades sejam condizentes com a do dia em questão - cinzentos, pretos, cores escuras, em resumo - então é quase garantido que estamos a atrair os efeitos depressivos que atribuímos ao tempo e que tanto gostaríamos de ver pelas costas. É um hábito que se criou de que as tonalidades escuras estão associadas ao Inverno e ao Outono e que é nessas alturas que devem sair à rua. Nada mais errado. São precisamente essas as cores que devemos evitar em dias cinzentos e em que o sol não se apresenta, de forma a combater esse efeito depressivo e negativo que as mesmas têm sobre nós. E já que falo em vestuário, relembro algo que religiosamente se repete todos os anos por esta altura. Não sei se na tentativa de atrair o frio ou de desejarem a sua chegada o quanto antes, muitas são as pessoas que, ainda Setembro vai no princípio, já envergam peças de roupa próprias de temperaturas mais baixas que estão ainda longe de se fazer sentir. É vê-las depois, debaixo do sol que insiste em resistir, a passarem por claros sacrifícios mas não dando o braço a torcer, empenhadas na sua teimosia de que o Verão deveria dar lugar ao Inverno imediatamente após o final de Agosto. Como que a quererem dizer que, terminadas as férias que sempre recaem na época alta, o sol e o calor já não são necessários, podendo ir à sua vida e dar lugar à estação que se segue. Movidas por esta forma de pensar, são essas as pessoas que cedo começam a remexer no baú dos agasalhos, colocando-os a uso o quanto antes, mais que não seja para os aliviar do cheiro a mofo que entretanto foram ganhando. É caso para pensar que nunca estão satisfeitas, essas pessoas. Se é Inverno, é porque está frio, chuva e nunca mais vem o calor. Se é Verão, é porque faz muito calor e bem que podia cair uma chuvita para refrescar. É típico do portuguesinho, nunca estar contente com nada. Eternas vítimas inconformadas, tão bem retratadas por António Variações num dos seus temas mais conhecidos:

"Porque eu só estou bem, onde eu não estou
Porque eu só quero ir, onde eu nunca fui".


publicado por migalhas às 13:07
Quinta-feira, 14 de Outubro de 2004
É impressionante a quantidade de letras que existem ao nosso dispor. Só o nosso abecedário possui 24, a que se juntam ainda o w e o y que não usamos na nossa língua, o que perfaz 26 letras. E estas, juntas nas mais diversas combinações, formam palavras ao ponto de quase se lhes perder o conto. Palavras que, por sua vez, agrupadas em sequências determinadas originam ainda frases, milhentas frases que podem dizer coisas fantásticas, entusiasmantes, preocupantes ou mesmo assustadoras. E com tantas opções disponíveis a que é só deitar a mão, quantas e quantas são as vezes em que não sabemos por que letra começar, que palavra formar, que frase completar. Como se ficássemos em branco, sem saber o que dizer, o que pensar, o que escrever. E ele há tanta coisa que pode ser dita. Mas a verdade é que muitas vezes ficamos bloqueados nesta inércia que nos impede de escrever sobre um assunto que seja, dos milhões que existem e nos rodeiam a toda a hora, a todo o minuto, a todo o segundo, em cada dia que passa. E que fazer numa altura dessas? Em que nada sai, em que tudo parece conspirar contra nós, em que ficamos impotentes e sem saber o que expressar? Desistir é dar razão aos que nos querem fazer crer que não conseguimos, que não somos capazes de dar a volta por cima. Por isso, resta insistir. Não ir ao tapete com uma simples contrariedade do momento e Insistir. Tentar as vezes que forem necessárias até que de novo as letras se juntem em palavras que agrupadas formem as frases que queremos compor. E voltar a escrever textos que falem de tudo e de nada. De muito e de pouco. Do bem e do mal. Mas que nos satisfaça, que nos faça sentir libertos por podermos expressar o que nos vai cá dentro. E sentirmo-nos imensamente gratos por o podermos fazer apenas conjugando umas letras, umas palavras, umas frases. Usando o que está ao alcance de todos e de que apenas alguns usufruem, de que apenas alguns tiram partindo, saboreando o maravilhoso que é poder fazê-lo. Deixo o desafio a todos de se tentarem a experimentar igualmente o uso desta ferramenta de valor incalculável que é a escrita. A forma mais bela de expressão que o homem tem ao seu dispor e por muitos tida como a forma de comunicação por excelência. Ou como dizia Teixeira de Pascoaes:

"Não existe área onde o homem melhor expresse o seu mais profundo íntimo do que através da escrita".


publicado por migalhas às 11:53
Terça-feira, 12 de Outubro de 2004
Era uma vez um bisturi que havia nascido com ideais diferentes daqueles que habitualmente alimentavam a existência de qualquer bisturi. É sabido que, bisturi que se preze, deve fazer carreira num hospital ou numa clínica, mais propriamente junto a uma mesa de operações. Mas este bisturi tinha outras ideias. Queria experimentar outras possibilidades, alargar os seus horizontes, enfim, ser um bisturi diferente dos demais que ele sempre conhecera. No dia em que tomou coragem e disse ao seu pai - homem que sempre defendera a continuidade de uma carreira médica para todo e qualquer bisturi - este quase o cortou em dois. As suas palavras afiadas como que lhe feriram o coração e não fosse a argumentação apresentada pelo jovem bisturi, talvez nem nunca ele tivesse conseguido levar a sua avante. Convencido - após o primeiro impacto daquela firme decisão que seu filho havia já tomado -, ao pai bisturi apenas restou ouvir as razões que estavam na base daquela autêntica revolução na vida de qualquer bisturi até então. Senhor das suas convicções, o pequeno bisturi fez saber ao seu pai - e também à sua mãe e irmãos - que estava decidido a mudar o seu rumo pré-definido - de ser colocado numa mesa de operações sempre pronto a cortar carne e a ver jorrar grandes quantidades de sangue por sua inteira culpa - e assim trocá-lo por outro que o entusiasmava bastante mais. Tivera a ideia ainda em criança aquando do visionamento de um programa de televisão. Nesse mesmo programa assistira à vida feliz que uma tesoura - parente próximo dos bisturis mas que fazia ainda uso de duas lâminas e não de uma só - levava, ao optar pela carreira política. Começara também por cortar na casaca de muita gente - então nas mãos de um competente e profissional alfaiate - mas vira a sua vida levar uma reviravolta inesperada ao ser colocada por engano no bolso de um desses políticos do governo. No programa de televisão, o pequeno bisturi vira a tesoura ser peça fundamental em várias inaugurações protagonizadas por esse mesmo político, numa retrospectiva dos seus vários anos de carreira em cortar fitas. Aquelas imagens desde logo lhe deram a ideia de que, também ele, poderia mudar o rumo da sua vida, para isso ele quisesse e se empenhasse. Bem dito, melhor feito. Foi crescendo com aquela ideia a crescer-lhe igualmente na cabeça e no dia da grande decisão enfrentou os preconceitos e as ideias pré-estabelecidas que compunham a história da vida dos bisturis e avançou na sua determinação de enveredar pela carreira política. Se aquela tesoura o havia conseguido, ele - que era bem mais afiado e contundente - com certeza também o iria conseguir. E foi com esta argumentação que demoveu os seus progenitores da ideia de que iriam ter mais um filho a seguir medicina. Hoje o pequeno bisturi é famoso e solicitado para muitas inaugurações, onde é responsável pelo momento alto das mesmas, o corte das fitas. Escusado será dizer que esta sua decisão abriu as portas a outros bisturis que se lhe seguiram. Não admira pois que, actualmente, sejam muitos os bisturis que optam por seguir outras vias e exercem as mais variadas actividades, dando seguimento à ideia pioneira do pequeno bisturi de que devemos ser nós a decidir o que queremos realmente protagonizar nas nossas vidas. Pois só ascendendo a uma realização pessoal e profissional plenas, poderemos ambicionar ser verdadeiramente felizes.


publicado por migalhas às 13:21
Segunda-feira, 11 de Outubro de 2004
Se nos pusermos a pensar bem, é por demais evidente que temos vindo a ser vítimas da "colonização" americana e quase sem darmos conta. Por todo o lado são evidentes as influências a todos os níveis, desde produtos a marcas, passando por formas de pensar e de agir, que já quase de forma mecanizada preenchem os nossos dias. Ele é a comida de plástico, vulgarmente conhecida por "junk food" - e que tem o seu exemplo máximo na cadeia de restaurantes McDonald's -, aquilo que se bebe em quantidades por demais exageradas e que dá pelo célebre nome de coca-cola, a forma de vestir, a música que nos entra casa adentro e cuja origem é quase exclusivamente americana, os filmes que invadem a grande maioria dos nossos cinemas, a moda - apenas concebível na mente de crianças crescidas como são os americanos - de comer pipocas enquanto se visiona um filme em plena sala de cinema, os programas televisivos que dão origem às mais asquerosas cópias que depois proliferam por essa Europa fora, enfim, de tudo um pouco somos vítimas. Mas é aqui que coloco a questão: seremos mesmo vítimas de uma invasão propositada com finalidades que desconhecemos (mas imaginamos) ou somos passivos a essas mesmas influências e gostamos de o ser, escudando-nos depois no papel de "coitadinhos", tal e qual Calimeros sempre injustiçados? É que dá-me claramente a sensação de que tal acontece porque somos nós que o fomentamos. Porque gostamos do que vem do lado de lá do Atlântico. Porque existe a eterna ideia de que o que é de fora é que é bom. O pior é quando deixa de se estabelecer parâmetros de qualidade e tudo passa a ser aceite sem se questionar. Seja realmente bom - como é o caso de alguma música, de algum cinema - quer seja pura e simplesmente mau. Deveria ser um exemplo para todo o mundo, como é que um continente - ou se quiserem um país - com pouco mais de 500 anos de história, se intromete na gerência do globo e o influencia desta forma tão marcante, quase assustadora. De nada servem os milénios de história das restantes culturas do mundo? Nada se aprendeu nesse longo período de tempo que seja capaz de fazer impor uma ordem que prime um pouco mais pela civilização, por hábitos e costumes que deveriam ser um exemplo a seguir? Anda a Europa a reboque da América, a adaptar-se aos seus hábitos e formas de pensar, quando deveria ser precisamente o oposto. Ou como dizem os Rammstein (grupo rock oriundo da Alemanha) num dos seus mais recentes temas "we're all living in America". E nem damos por isso.


publicado por migalhas às 11:11
TUDO É ILUSÃO, DESDE O QUE PENSAMOS QUE PODEMOS AO QUE JULGAMOS QUE TEMOS.
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