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R.I.P.
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R.I.P.
SOBRE UM POEMA
Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.
Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
- a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.
E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.
- Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
- E o poema faz-se contra o tempo e a carne.
HERBERTO HELDER
- Tu sabes bem que para mim és como uma filha. Aliás, tu és a quarta filha que eu nunca tive.
- Quarta? Mas a senhora só tem duas filhas.
- Sim, e uma sobrinha.
© Copyright Migalhas (100NEXUS_2012)
- Então o almoço, correu bem?
- Sim, estava óptimo, chocos.
- Quê?
- Chocos.
- Que é isso?
- Chocos? Então não sabes o que são chocos?
- Sim, sei. Mas pensei que tinhas dito que o almoço tinha sido óptimo.
- Sim, e foi. Mas o que é que isso tem a ver?
- Então como é que pode ter sido óptimo se meteu chocos? Eu da última vez que me lembro de ter tido um choco fiquei piurso!
- Quê?
- Sim, daquela vez que choquei com aquele paspalho que se esqueceu de arrancar no semáforo. Foi um choco e peras! Passei-me!
- Ah, um choque. Como quando chocaste com esse tal gajo.
- Exacto, foi o que eu disse. E tu dás também um choco e ficas todo contente? ‘tás pior.
- Eu não dei nenhum choque, eu comi chocos ao almoço, entendes? E estavam muita bons.
- Comer chocos? E bebeste para lá da conta, também.
- Então e porquê?
- Rapaz, um choco, estás a ver?
- Sim…
- Há vários tipos de chocos. Uns mais fortes, outros menos. Como quando sem querer chocas com uma pessoa na rua, por exemplo. Ou quando metes as mãos numa tomada e apanhas um choco daqueles que até te pelas, ‘tás a ver? Ou então como aquele que dei naquele paspalho, quando o meu carro chocou com o dele. Chocos, entendes?
- Isso são choques. Choques, queres tu dizer. O que eu comi foram chocos, aquela cena tipo lulas, sabes?
- Tipo lulas? A única coisa tipo lula que conheço é quando alguém amanda uma daquelas escarretas enormes, que um gajo até diz: caganda lula, sim senhor! Foi isso que almoçaste?
- Que nojo, oh pá! Que nojo de conversa.
- Tu é que falaste nisso, das lulas. Vou beber café, queres?
- Sim, traz-me um café cheio e um guardanapo.
- Não precisas, tens aí papel de cozinha.
- Não, o bolo, um guardanapo, sabes quais são? Aqueles assim, em forma de… guardanapo.
- ‘tás a ver! Lá ‘tás tu outra vez, sempre em choco comigo. És lixado, pá.
© Copyright Migalhas (100NEXUS_2012)
“E o que é o tempo?
meia dúzia de noites a galope no vento.”
“E o que é a noite?
olhos de cego fixos na cripta fria e sem nome.”
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Laurent Gaudé, vencedor do Prémio Goncourt em 2004, regressa ao catálogo da Porto Editora com «Furacão», que chega às livrarias no dia 29 de Março. O escritor vai estar em Portugal para apresentar o seu romance, concretamente em Lisboa (17 de Abril, no Instituto Francês de Portugal, pelas 19h00) e Matosinhos (21 e 22 de Abril, no encontro Literatura em Viagem).
«No coração da tempestade que devastou Nova Orleães, uma dezena de personagens enfrenta a fúria dos elementos, mas também a sua própria escuridão interior. Que resta ao ser humano quando as suas referências morais e sociais desaparecem por entre o caos e o medo de um cenário apocalíptico? Com «Furacão», Laurent Gaudé oferece-nos uma espécie de ópera em que os solos das personagens se unem num amplo coro que nos transmite o grito da cidade abandonada à sua sorte. A gravidade da tragédia funde-se com a serenidade da fábula, para exaltar a fidelidade, a fraternidade, a comovente beleza dos que, apesar de tudo, permanecem de pé»
Fonte: Diário Digital
Vida e Destino – Vassili Grossman
«Vassili Grossman, adoptando a estrutura global de Tolstói em Guerra e Paz, pinta em Vida e Destino um imenso fresco da Rússia soviética, com incidência nos anos da Segunda Guerra Mundial, na ofensiva alemã e na defesa e, depois, na contra-ofensiva soviética, que culminou na libertação de Stalinegrado e dos territórios ocupados pelos nazis. Intercalando um petrificante relato da batalha de Stalinegrado com a história de uma família de classe média, dispersa pelas forças do destino entre a Alemanha e a Sibéria, Vassili Grossman constrói uma imensa e intrincada trama que retrata um tempo de horror quase inimaginável e de esperança ainda mais estranha. Vida e Destino intercala ambientes familiares com refúgios de snipers, laboratórios científicos e o Gulag, transportando-nos ao fundo dos corações e mentes de uma formidável galeria de personagens, que vão de um rapaz a caminho da câmara de gás até aos próprios Hitler e Stálin.
Entregue ao editor em 1961, Vida e Destino passou de imediato para as mãos do KGB e teve o privilégio não só de ser proibido como o de desaparecer da face da Terra durante vinte anos. O seu manuscrito só apareceu na Suíça em 1980, graças a ilustres dissidentes soviéticos.
Na Rússia, apenas em 1988, depois da glasnost, viria a ser publicado. A nada disto assistiu já Vassili Grossman, uma vez que faleceu de cancro de rim três anos depois de ter entregue o seu manuscrito e de o ver apreendido pelas autoridades.»
«Excepcional e engenhoso monólogo, o livro de Brendan Behan é um solilóquio tão emotivo quanto humorístico sobre a cidade de Nova Iorque, que o autor considera (eu também) o lugar mais fascinante do mundo. Nada — diz Behan — pode comparar-se a essa cidade eléctrica, que é o centro do universo. O resto é silêncio, flagrante obscuridade. «Depois de ter estado em Nova Iorque», diz Behan, «qualquer pessoa que regresse a casa dar-se-á conta de que o seu lugar de origem é bastante escuro.» A mim acontece-me sempre isto quando deixo Nova Iorque e regresso à minha cidade, e este livro de Behan é em parte culpado de isso me acontecer, porque o livro deixou em mim uma estranha saudade de bares onde nunca entrei.»
Enrique Vila-Matas
«Se a história deste romance nos fosse contada por Jed Martin, talvez ele começasse por falar da avaria da caldeira do seu apartamento, num dia 15 de Dezembro. Ou dos solitários. Natais passados com o pai, um arquitecto famoso que sonha construir cidades fantásticas mas ganha a vida a projectar resorts de férias. Talvez não falasse do suicídio da mãe quando tinha apenas sete anos, porque são muito ténues as recordações que dela guarda. Mas mencionaria certamente Olga, uma lindíssima russa, que conheceu por ocasião da primeira exposição do seu trabalho fotográfico baseado nos mapas de estradas Michelin.
Apesar de indiferente à fama e à fortuna, Jed poderia mencionar o êxito estrondoso que alcançou com uma série de quadros de célebres personalidades de todos os meios, retratadas no exercício da sua profissão. Um dos retratados é Michel Houellebecq (sim, o autor), num trabalho conjunto que mudará a vida de ambos: fonte de vida para um e razão de morte para outro.
Confrontado com o homicídio de uma pessoa próxima de si, Jed não poderia deixar de incluir no seu relato como ajudou o comissário Jasselin a esclarecer esse crime hediondo, cujo cenário aterrador deixou marcas profundas nas equipas da Polícia.»
céleres os momentos
na fuga que se revela alheia
que o tempo dissipa a estada
apressa o esquecimento
do que foi cada momento
do que foi passado
que a memória tem validade
e não qualquer outra veleidade
tão fina camada que nos adorna
e que passa
esfumando-se por fim
(então já sem graça)
nas cinzas que seremos
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