Terça-feira, 24 de Janeiro de 2012

dor

que o gume afiado da navalha reclama vitória sobre a ferida infligida

estéril

que o castigo é coisa impune, que ao longe se esbate

tão leve, tão breve

que nem cinzas

e então a suspeição

igualmente breve, como se neve

imaculada, como se essa mesma neve

aos teus ouvidos segredada

no degredo de quem julga que não foi nada

senão dor de passagem


inédito de migalhas (100NEXUS_2012)



publicado por migalhas às 14:40
Terça-feira, 17 de Janeiro de 2012

pendentes

de onde provém essa delicada ternura

essa centelha de doce melancolia que esbarra no âmago deste meu ser

que consternado se deita e sonha

qual renegado agastado

qual despojado dos seus bens, do seu mais que tudo

dessa vida de faz de conta, de parece que vai ser e depois

e depois demora

a acontecer, a fazer crer que se ergue titânico empreendimento e depois

e depois demora

faz-se tarde a hora em que se deseja tudo

se pode tudo

se exige tudo

e um nada arrepiante

um passo adiante para dois sem norte

que esta espera é pior que a da morte

na ânsia desmedida de quem já só grita e desespera

que esta espera não é proveitosa

antes uma facada contundente

neste emergente coração pendente

assim sempre, sempre

 

inédito de migalhas (100NEXUS_2012)



publicado por migalhas às 19:35
Quinta-feira, 05 de Janeiro de 2012

É nas palavras que me refugio

Nesse amontoado de tanta coisa

Composição de passo terno, legado eterno

 

Avassalador Adamastor, monstro esguio, fugidio

Lago de lava, caldo em brasa

Espigão afiado que se perfaz nosso fado

 

Diz-se destino, ri-se na nossa cara, gela-nos as veias

Soma-nos máscaras às que já pesam e nos vergam

 

(...)

 

para a leitura integral deste meu poema "tudo o resto que é tudo", integrado na rubrica Rima-me da edição nº 4 da REVISTA-ME, visitem a morada http://issuu.com/edita-me/docs/revistame04 e procurem pela página 49 da mesma. encontram lá o meio e o fim, do que aqui teve início. espero que gostem.



publicado por migalhas às 18:53
Terça-feira, 03 de Janeiro de 2012

"Findo o banho matinal, tudo parecia envolto na normalidade de que sempre se reveste este momento diário. Puxei da toalha que repousava no respectivo toalheiro e coloquei-a sobre os ombros, secando-me de seguida. Foi então que, ao preparar-me para abandonar o espaço da banheira, assisti estupefacto à insólita separação do meu braço esquerdo do corpo a que sempre pertencera. Pelo menos desde que tenho noção do meu corpo como um todo, constituído por uma cabeça, tronco e alguns membros, dos quais o tal braço que agora se tornara autónomo. Não totalmente, pois não apresentava vida própria. Apenas se separara do corpo e ali repousava a meus pés como uma mera peça isolada. Sem reacção possível, fiquei a olhá-lo fixamente e a pensar que raio havia proporcionado semelhante coisa. Seria do champô? Mas para isso teria caído a cabeça e não um dos braços. Seria do gel de banho? Olhei para o rótulo e pude comprovar a quantidade exagerada de químicos que são adicionados ao que supostamente deveria ser apenas um líquido de limpeza com um certo e determinado aroma. Até poderia ser do gel de banho, mas já o usara tantas vezes..."

 

(...)

 

para a leitura integral deste meu conto "pedaços de mim", integrado na rubrica Inventa-me da edição nº 4 da REVISTA-ME, visitem a morada http://issuu.com/edita-me/docs/revistame04 e procurem pela página 146 da mesma. encontram lá o meio e o fim, do que aqui teve início. espero que gostem.



publicado por migalhas às 11:21
Terça-feira, 27 de Dezembro de 2011

este natal foi tudo pelo cano. tudo. até quem julgava que não tinha pressa. até quem julgava que não estava nessa. tudo. e eu mudo. e surdo e cansado de nada ver, nem ouvir e muito menos sentir. e eu que pensei, que por ser natal, nada se podia mal. como me equivoquei, olhando lá fora quantos prados queimados e terras antes férteis agora terrenos desprezados. a pesar no ar um aroma esgotado, viciado, no rescaldo do tanto que fora devastado. e ao relento incontáveis almas, numa incontável sofreguidão, sem fortuna ou mala pela mão, em longas horas de espera por uma entrada naquela barca que se dizia e queria a salvação. que ilusão. que por ser natal alguém nos iria dar a mão? olhei ao longe o mar e ele sentiu-me o olhar. pediu-me perdão mas que nada podia evitar. e eu como o entendi, neste fim de linha que era nosso, de todos, do ricaço ao sem abrigo. para o ano novo natal e, no seguinte, tal e qual. então já sem roupa no estendal, sorrisos francos ou escarninhos, brincadeiras de criança ou o que fosse que, mesmo parecendo mal, não se entendia como tal. ele seria sempre, nós por este ficaríamos. que tudo continua, indelével e indiferente à nossa passagem. breve como as horas que são cada quadra natalícia, no dorso suave de uma quase imperceptível aragem, reflexo fiel desta nossa viagem.

 

inédito de migalhas (100NEXUS_2011)


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publicado por migalhas às 21:35
Segunda-feira, 19 de Dezembro de 2011

Por aqui

Sem certezas, garantia de coisa alguma

Terreno lamacento

Um pântano de cidades, altos edifícios, o maior de todos sou eu

Ou quero ser

 

Por ali

Da mesma forma conteúdo dúbio

Será refúgio?

A caverna escura, escavada na rocha fria

Abrigo de morcegos, seres da noite que se põe em pleno dia

Invade o espaço, viola a fronteira alheia, abominável

Fedor pestilento, o que faz é nojento

 

(...)

 

para a leitura integral deste meu poema "por aqui, por ali", integrado na rubrica Rima-me da edição nº 4 da REVISTA-ME, visitem a morada http://issuu.com/edita-me/docs/revistame04 e procurem pela página 47 da mesma. encontram lá o meio e o fim, do que aqui teve início. espero que gostem.



publicado por migalhas às 21:55
Quinta-feira, 15 de Dezembro de 2011

"Era domingo de Páscoa e Bernardo andava excitadíssimo à procura daquele sumo de que lhe haviam falado na escola. Do sumo que se bebia nesta época de paz e amor entre todos os cristãos devotos. Nem na despensa, nem no frigorífico, nada. Mariana, por seu turno, procurava no roupeiro do seu quarto a cruz que a mãe lhe havia pedido para colocar à mesa durante a refeição que os aguardava na sala grande, apenas usada nesta altura do ano para receber o senhor padre naquele que era o tradicional almoço de Páscoa da família Alcobia. Com a comida a arrefecer no tacho e o senhor padre desesperado face ao correr do tempo, que insistentemente confirmava no seu relógio de pulso com a ajuda daqueles óculos de lentes grossas e de dedadas preenchidas, Isabel resolveu procurar os seus dois filhos."

 

(...)

 

para a leitura integral deste meu conto "a queda de um anjo", integrado na rubrica Conta-me da edição nº 4 da REVISTA-ME, visitem a morada http://issuu.com/edita-me/docs/revistame04 e procurem pela página 52 da mesma. encontram lá o meio e o fim, do que aqui teve início. espero que gostem.



publicado por migalhas às 12:06
Quarta-feira, 07 de Dezembro de 2011

"Esplanada neste dia de 33 graus. Jolas e tremoços em barda. Uma sombrinha e uma vista deslumbrante sobre o rio. A manhã vai correr célere e o tempo abrandará lá pela hora de almoço. Assim mesmo, lento. Hora e meia que mais irá parecer uma eternidade. E as jolas a escorrer rumo a um estômago quente, que as acolhe de tripas abertas! Um arroto após outro, entre duas idas ao WC, e eis que voltam à mesa, frescas como viçosas alfaces acabadas de colher pela madrugada. Louras, pretas, ruivas, venham elas sedutoras que as nossas gargantas sequiosas dão-lhe seguimento. E quando olharmos em redor e tudo virmos a triplicar, sabemos que é hora de pedir uma última, aquela que nos vai deixar definitivamente a dormir!"

 

(...)

 

para a leitura integral deste meu conto curto "esplanada, 33 graus", por isso mesmo integrado na rubrica Curta-me da edição nº 4 da REVISTA-ME, visitem a morada http://issuu.com/edita-me/docs/revistame04 e procurem pela página 31 da mesma. encontram lá o meio e o fim, do que aqui teve início. espero que gostem.



publicado por migalhas às 18:54
Quinta-feira, 01 de Dezembro de 2011

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

REVISTA-ME é um projecto de publicação digital em formato pdf e "read online" da autoria da editora Edita-me, que se pretende livre, despretensioso e criado com o objectivo de fazer chegar de forma mais expedita “o trabalho” dos autores e colaboradores da editora a outros públicos, despertando neles o interesse e a curiosidade para as suas obras. neste número 4 dou continuidade à minha colaboração no projecto, desta feita presente em 4 diferentes rubricas. leiam pois esta quarta edição aqui http://issuu.com/edita-me/docs/revistame04 e descubram-me nas páginas 31, 47, 52 e 146, nas mais diversas vertentes da escrita. espero que gostem. por mim, e como sempre, foi um prazer.



publicado por migalhas às 21:36
Quarta-feira, 30 de Novembro de 2011

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

ao que rezas tu, pequena criatura?

porque rezas tu?

com tamanha entrega, assim submisso.

conheces tu as orações?

e sabes como as pronunciar?

que invocas tu? que imploras?

e a quem?

conheces tu quem te possa auxiliar?

quem te ceda as doses certas de compaixão?

assim dessa forma

em resposta a uma simples oração?

vai brincar, criança, vai

deixa as preces para os teus pais

preocupa-te apenas em crescer

em seres mais, sempre melhor

olhar ao teu redor e o mundo ver

e sorri-lhe

dá-lhe graça, a tua graça

dá-lhe inocência, a tua inocência

dá-lhe felicidade, a tua felicidade

e gratidão precipitar-se-á

nos céus amor ribombará

e de compreensão o firmamento iluminar-se-á

então não mais a um deus dará

sem preces ou pedidos de perdão

porque tudo está, de facto, nessa tua pequena mão

 

inédito de migalhas (100NEXUS_2011)

_____________________________

 

* palavrear - Conjugar

v. tr. e intr.
1. Usar de palavreado.
2. Falar muito e sem nexo.


publicado por migalhas às 21:45
TUDO É ILUSÃO, DESDE O QUE PENSAMOS QUE PODEMOS AO QUE JULGAMOS QUE TEMOS.
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